Perdoar ou não?

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Era inevitável sentir ódio naquele momento. Toda amargura e dor tinham chegado a um ápice e a um cúmulo que explodiram finalmente.

Pedro só sabia de uma coisa, ele estava determinado a não perdoar a cada ofensa que tinha sofrido de Ester.

Foi para casa revoltado, jogou a sua maleta no chão e bradou em alta voz, xingando o máximo que podia. Ele estava com uma raiva da qual achava que não esqueceria jamais. Que a levaria por todo o resto de sua vida e que jamais confiaria numa pessoa da mesma maneira que confiava em Ester. Ele estava determinado a isso.

E apesar de tanto ódio e raiva, seguiu com sua vida.

Certo dia, decidiu ir à igreja, que não ia desde sua infância, e então rezou o Pai Nosso como sempre o fizera na infância, numa tentativa de achar paz. Mas, diferente das outras vezes, falou as palavras com sinceridade e não apenas repetia elas automaticamente, e procurou entender cada verso. Então se deparou com uma parte da oração que o deixou em conflito e ansioso.

“Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos nossos ofensores”.

Ele não terminou sua reza e ficou parado ali de joelhos na igreja, pensando naquelas palavras.

Levantou-se e sentou no banco da igreja, que estava vazia, e falou baixinho:

– Estou pedindo que Deus perdoe as minhas ofensas e pecados da mesma maneira que eu perdoo as ofensas que me fazem? – E rapidamente se lembrou de quando dissera que jamais perdoaria Ester. – Então é o mesmo que estar pedindo a Deus que não me perdoe…

Ele ficou meditando e viu que todo dia era uma agonia, que apesar do tempo que passara, suas memórias o perturbavam e ele sentia sempre aquela raiva e ódio de tudo o que levou àquele momento. E logo lembrou que as palavras daquela mulher o ofenderam muito, e sentiu muita raiva novamente.

– Eu a perdoei inúmeras vezes, mas como posso perdoar essa vez? – Seus pensamentos o deixavam ali inerte. Havia uma confusão. – Por que o filho de Deus ensinara uma oração na qual podia haver uma condenação própria ao pedir perdão conforme nós perdoamos? Estaria ele dizendo que deveríamos perdoar sempre?

E em meio a essa agonia de querer pedir o perdão de Deus pelos suas ofensas a Ele, ele se dividia em pedir perdão e perdoar toda mágoa passada.

Foi aí que ele concluiu que voltar à igreja tinha sido uma perda de tempo, que ele estava melhor apenas vivendo com suas festas, bebidas e prazeres. Disse para si mesmo que isso preencheria qualquer vazio, mas a verdade é que enquanto estava bêbado, não tinha consciência de nada de sua vida, e esta se tornava mais e mais amarga ao fim de cada dia, porque no fim das contas, ele estava cada vez mais só, estava apenas se enganando.

Foi nesse momento que alguém tocou no ombro de Pedro e se sentou do seu lado.

– Está tudo bem, amigo?

Pedro se manteve sentado e ficou envergonhado por alguém vê-lo ali. Ele queria estar sozinho e com apenas ele mesmo ou apenas com sua solidão.

– Desculpe, eu já estou me retirando, licença, por favor. – respondeu Pedro ao homem que o chamara de amigo.

– Eu ouvi o que você disse ainda agora. – falou o homem.

– Muito mal educado de sua parte querer ouvir as preces vazias de um homem em dor. – retrucou Pedro, mudando aos poucos seu tom de voz, que se tornou agressivo.

O homem apenas olhou para Pedro e respondeu:

– Será que Deus se cansa de perdoar a seus filhos que o ofendem dia e noite?

Um calafrio percorreu pela espinha. Pedro ficou atônito e se sentou novamente. Seu coração palpitava. Apesar das palavras terem sido impactantes para Pedro, ele endureceu seu coração e novamente se levantou para tentar sair da igreja.

– É por isso que dizem que perdoar é divino. Porque somos estupidamente ignorantes. – falou Pedro. – Até quantas vezes devemos perdoar?

– Você sabe a resposta, Pedro.

As memórias dele vieram à tona e se lembrou de uma parábola na Bíblia que fala sobre o perdão, e como aquele cujo nome era semelhante ao seu, São Pedro, perguntou a Jesus sobre quantas vezes devia perdoar. E essas memórias se chocaram com seu ódio novamente. Ele suava frio, e seu coração tremia de uma maneira inexplicável.

Deveria ele perdoar Ester?

Pedro ficou ali parado, de costas para o homem. Não sei dizer se ele chorava ou se ele apenas amargurava mais seu coração, mas o conflito era intenso – tanto que não consigo colocá-lo em palavras.

Perdoar ou não? Certamente existem pessoas que sofrem amargamente neste mundo. E para todas as pessoas, mesmo para aquelas que não acreditam em Deus, existe uma certeza de que a ausência do perdão e a vingança são autodestrutivos, nos corroem de dentro para fora, e muitas vezes tornam as pessoas em doentes e loucas.

Pedro tinha uma escolha aparentemente difícil em suas mãos. Perdoar ou não?

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E, nós, perdoaríamos?

Publicado originalmente no blog Vendedores de Ideias em 23 de Março de 2014

Categorias:crônicas

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