Semáforo

semáforo

Todo semáforo é um constante desespero, principalmente se for à noite em um lugar onde as pessoas não fazem muita questão de dar o ar de sua graça.
É sempre assim, você em sua calma, ou em uma desesperada pressa de chegar em casa após um dia cansativo, depois de buscar as crianças na escola, ou de trabalhar o dia todo em projetos, ideias, correr de um lado para o outro, tudo em um ritmo acelerado, porém, tudo desacelera no semáforo.
Existem semáforos que avisam quando vão fechar, piscam sua luz verde antes de amarelar, já outros apenas fazem a surpresa de se tornarem amarelos tão logo você pense no cruzamento ultrapassar. E ali já começa a indecisão: devo acelerar ou frear? Cruzar ou parar? Ir ou não ir, eis a questão.
Às vezes aquele sutil xingamento ao moderador de 3 cores.
De dia, sem ar condicionado, pode ser sufocante ficar parado com aquele calor, de noite, amedrontador ficar sozinho parado no semáforo.
Mas o pior é quando você está ali, esperando para o sinal abrir, e acontece de tudo. Pode até ser que você pense em acelerar e um gato passe correndo pela frente do carro bem nessa hora, pode ser que apareça alguém pedindo uma esmola. Ou o pior de tudo.
Um motoqueiro para do seu lado. Será um bandido? Será que ele vai sacar a arma e bater no vidro e gritar: “passa a carteira”!?
Aquele momento cruel em que você simplesmente congela, tenta se esconder de algum jeito, quer desaparecer e se enterrar no assento do carro, no porta-malas, até no porta-luvas se fosse possível! A tensão permanece, o sinal abre, o motoqueiro vai embora. Tudo fica bem.
Seguindo em frente, indo para casa novamente, até que o outro maldito sinal se fecha. É o momento em que um xingamento é feito para um engenheiro de trânsito anônimo, seja lá qual o motivo. Dessa vez você olha para um lado e para o outro, não vem carro, não tem fiscalização. “Pode ir”, diz seu subconsciente morrendo de medo, e você volta à direção.
Mas para sua azarada sorte, ainda faltam alguns semáforos pela frente, e lá vai você, sortudo, ficar parado em outro, onde não é possível ir adiante devido ao fluxo da outra avenida.
Uma moto para com dois homens, um deles tem algo no bolso, não dá pra ver bem o que é. Pode ser uma arma. Do outro lado, um carro com vidros abertos e um homem de bigode mal encarado, acompanhado de pelo menos mais três pessoas que fazem algum tipo de confusão. De repente todos parecem estar olhando e espionando para dentro do seu carro.
“O que estão olhando tanto? Por que essa cara? E esse cara armado? E esses bandidos aqui do lado? Por que esse bigode”? Nunca tantas perguntas foram feitas quanto nesse momento.
Para piorar a situação, o bigodudo começa a aparentar raiva, parece xingar todo mundo dentro do carro e, de repente, você vê um corpo sendo lançado para o banco da frente no carro vizinho, sendo empurrado a força, sofrendo!
Terror!
Pânico!
Frio pela espinha!
Desespero!
“Abre, sinal”!
“Abre, caramba”!
Um pequeno palavrão é solto.
Do outro lado o motoqueiro tira algo do bolso, mas o desespero é tanto que você já percebeu e concluiu tudo: está no meio de um fogo cruzado!
“Vai ter tiro pra tudo quanto é lado”! Você pensa e nada do sinal abrir. As lágrimas já escorrem pelo seu rosto e a respiração cada vez mais ofegante, o ar começa a faltar, a vontade era de abrir o vidro, mas o medo é maior. E o sinal fechado, os carros passando e você entrando em pânico.
Você fecha os olhos.
De repente o som de uma buzinada frenética atrás de você. O sinal abriu e o motoqueiro e o outro carro já partiram para o próximo semáforo.
Em prantos, sem pensar direito, não há outra opção a não ser seguir em frente.
É nesse momento, ao parar novamente do lado do carro do bigodudo e do motoqueiro acompanhado que você percebe tudo.
O amigo do motoqueiro apenas havia tirado um celular do bolso. E quando você olha para o carro ao lado, a cena mais improvável e bizarra de se ver: o tal “corpo” sendo lançado para a frente a força, sendo torturado, massacrado e destratado era apenas um manequim. Sim! Um maldito manequim!
Se você pensou em rir? A vontade era de chegar em casa, chorar, ligar para um amigo, namorado, namorada, cônjuge, amado, pai, mãe, avô, avó, cachorro, gato, papagaio e desabafar o quão cruel é dirigir numa cidade com tantos semáforos.
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Publicado originalmente no blog Vendedores de Ideias em 29 de novembro de 2014

Categorias:crônicas

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