A Polêmica do Mais Médicos [Opinião]

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“Olha as Barbies indo pra São Gabriel da Cachoeira”.
“Agora sim vai ter médico de ‘verdade'”!
“Chorem, Lulinhas”.

Desculpem, com todo respeito, mas calem a boca! Parem, porque tá feio.

Quanta arrogância e mesquinhez de quem nem se inscreveu no Mais Médicos, de quem acha que agora o médico brasileiro é o herói da Pátria e que o SUS achou sua solução para todos os seus problemas – como se os médicos cubanos fossem o problema, como se agora, num passe de mágica, as UBS serão perfeitas e terão todos os remédios, até no interior do interior.

Primeiro que o programa começou no governo do PT. Do jeito errado? Sim, mas começou com a intenção (independente se era de esquerda ou não) de suprir a carência em áreas que ninguém queria ir e a ideia está sendo usada agora com a diferença de que foi aberta prioridade pra quem é daqui e tem registro no CRM. E já deixo uma pergunta: Medicina é algo que tem fins sociais? Se é social é de direita ou de esquerda?

Segundo, “ah, mas os cubanos eram escravos”. Então, além do imposto de renda que eu nem vejo a cor e os impostos pagos em cada produto de consumo, acredito que a União fica com bem mais do que 27% do que eu ganho, se isso não é abusivo, não sei como chamo (e não venha me dizer que recebo tudo de volta em serviços se você é a favor de privatizar tudo). Apesar disso tenho consciência de que, supostamente ou não, os impostos pagaram minha formação em Universidade pública e todas as vezes que usei o SUS, como profissional, estudante ou paciente.

Porque só o brasileiro é medico de verdade? Pros Estados Unidos nem teríamos formação suficiente pra assumir trabalhos também, por que dizer que nossa Medicina de provas de decoreba é a melhor? Vi médicos cubanos dos bons e dos ruins. Do mesmo modo existem médicos brasileiros bons e ruins. Mas pior que isso são os farsantes que fingem ser médicos e prejudicavam várias pessoas nos lugares que trabalhei aonde a fiscalização nem tinha coragem de chegar.

Desculpem aos colegas médicos, mas é preciso pedir que parem de criar o estereótipo do médico “de verdade”, do médico “Barbie”, do médico “herói”. Não sabemos de tudo, cometemos erros, não somos deuses, somos seres humanos também, e não queremos trabalhar em condições ruins assim como qualquer outro profissional. Ou você tá animadíssimo pra assumir um caso de infarto que chegou a uma UBS e o paciente morreu na sua mão porque faltou material?

Muitas vezes o título de médico “de verdade que é melhor que o cubano” tem sido dado para aquele que nem olha na cara do paciente, que nunca aceitou ir pro interior porque é longe dos centros urbanos, que quase matou o coleguinha ou fingiu inúmeras desculpas e doenças no sorteio do Internato Rural pra ficar perto da capital – sim, muitos já não querem nem papo com o interior mais longe desde a faculdade, e por que iríamos querer sabendo das dificuldades? Amor à Medicina? Desculpa, essa romantização não paga contas dos colegas que têm filhos pra cuidar e nem protege ninguém de uma bala nas periferias.

Preciso ser sincero, a ética médica dos colegas têm me assustado tanto que relutei várias vezes em postar este texto por ver o quanto o profissional que devia ser o mais mente aberta está mais preso aos preconceitos e criando barreiras entre as pessoas, especialmente políticas. E são mentalidades que já surgem na faculdade, como mencionei na questão de passar a perna do colega no sorteio do Internato Rural (a fase em que os alunos universitários vão para o interior por dois a três meses para estagiar).

Lembro bem de quando o Mais Médicos foi inaugurado – que, só pra lembrar, foi no governo do PT não foi?

Quando os médicos cubanos assumiram as vagas que ninguém queria assumir, muitos criticaram a capacidade deles de atuar – eu fui um desses que atirou a pedra, confesso! Porém, verdade seja dita, aprendi a discernir o profissional e os lugares de atuação. Conheci lugares em que nem o cubano queria ficar, por mais que fosse obrigado.

Imaginem um lugar isolado, onde não há serviços de urgência e tudo o que existe é uma mísera Unidade Básica de Saúde e quem sabe, se você tiver sorte, um pelotão de fronteira ou uma base do Exército – fora isso, o hospital mais próximo está a 150 km de barco. O médico não está ali só pra UBS, a comunidade não vai cobrar que ele esteja no posto nos horários, ela vai mesmo é bater na porta da casa dele meia noite, uma da manhã, na hora da janta, do café, na hora que o curumim de dois anos engolir uma moeda, quando o tiozinho da taberna tiver com uma dor nos quartos, no momento em que o calafrio se apossa da alma e até o curupira decide visitar a comunidade.

“Ah, mas não é obrigação dele atender fora do expediente”.
É sim! Ele é o único médico do lugar! Se ele se recusar será negligente e ainda que pudesse se respaldar, a comunidade não vai enxergá-lo com bons olhos, minando a relação médico-paciente que na comunidade é quase de morador-vizinho. Quantas ameaças de morte ele não vai ouvir? Quantas reclamações por não poder curar? E a frustração que é viver longe da família, isolado no meio da selva sem nem ter dipirona em gotas para dar para uma criança ardendo em febre?

“Barbies” é um termo desnecessário pra quem não se encaixa nesse perfil da medicina (porque nem todo mundo precisa gostar de tudo, tem quem nem goste de suturar, nem de fazer parto, tem médico que nem de gente gosta, mas ama a ciência da Medicina e ainda posta a #AmorQueNãoSeMed se duvidar). Esse tipo de profissional não vai pra São Gabriel da Cachoeira ou qualquer outro lugar longe dos centros urbanos, quem vai é outro tipo de profissional, e nem por isso essas “Barbies” deixam de ser médicos, clínicos gerais, médicos de família e comunidade, especialistas conceituados e de muito respeito. Até porque, ainda bem, nem todo médico se encaixa nesses estereótipos que só generalizam e denigrem nossa profissão.

Mas verdade seja dita, quem vai é guerreiro, é gente que ama a profissão desse outro ponto de vista, que tem compaixão pelo ser humano na miséria, quem tem saúde mental boa, cabeça pra aventura. Entretanto, se médico “de verdade” é quem está assumindo essas vagas e indo pro fim do mundo pra ver o quanto é ruim não ter uma dipirona, quantos de vocês são médicos “de verdade”, então? Nesse caso eu não sou, mas se for por isso, já fui!

Meus colegas que estão realmente indo pra esses lugares, minha admiração a vocês! Boa sorte! Que dê tudo certo!

Apesar disso, faço minhas ressalvas: até quando irão suportar as dificuldades e as péssimas condições de trabalho e segurança? Até quando irão se submeter aos perigos de contrair uma malária ou outra doença não tendo quem cuide de você mesmo?

Quem, por exemplo, é o médico não militar que vai ficar em Vila Bittencourt – onde toneladas de drogas são apreendidas e um tiroteio pode acontecer a qualquer momento? Quem é aquele que vai se esconder nas aldeias mais longínquas do rio Javari?

Noventa e tantos por cento inscritos, dez por cento se apresentaram, quantos por cento realmente ficarão nos lugares mais carentes por um bom tempo e quem vai substitui-los quando se cansarem?

Como sempre, medidas sem resultados de longo prazo bem definidos.
Não comemorem antes do tempo, não se trata de ficar tirando chacota com PT, PSOL, PSDB, ou qualquer outro partido político, trata-se de cobrar boa qualidade de trabalho independente de quem esteja no Governo!

Continuo desejando que o nosso Brasil cresça daqui pra frente, que veja novos rumos, mas pra isso é preciso enxergar a verdade nua e crua e parar de ficar com falácias.

Como sempre, não consigo me posicionar favorável a um lado ou outro totalmente, acredito que a iniciativa de abrir as vagas para os brasileiros com CRM valoriza nossa competência, mas ainda acredito que a saída imediata dos cubanos nos lugares em que ninguém ainda quis ir só trará prejuízos ao paciente. E vem aquela fatídica pergunta: você só está preocupado com o seu status ou com o paciente? Você que se diz de direita e crítica o bolsa-família tá preocupado se o seu paciente lá da cabeça do cachorro ou em Benjamin Constant teve dinheiro pra comprar comida e comeu na hora certa pra evitar uma hipoglicemia enquanto trata o diabetes dele? E você que se diz de esquerda e quer que o paciente melhore, compreenda mais e busque conhecimento, que não se acomode só mamando na “tetas” do Governo, sabe como lidar com essa ignorância alheia que mata tanto quanto o egoísmo?

Confesso que não quero voltar para nenhum desses lugares trabalhando fixo, talvez em um serviço voluntário, mas nem passa pela minha cabeça ficar à mercê dessas situações de novo.

Peço que percebam que o “calem a boca” do início do texto se trata justamente da questão de ficar brigando entre si e dividindo ainda mais a nossa classe ou nos separando ainda mais do nosso objetivo, cuidar.

Médicos de verdade (sem as aspas) estão dispostos dia-a-dia a servirem melhor o seu paciente, seja no SUS ou no serviço privado, seja na capital ou no interior. Por Mais Médicos assim!

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Observação: Como em todo texto sobre opiniões eu enfatizo que não sou dono da verdade, um dia posso mudar de opinião e o texto é uma mensagem e crítica pra eu mesmo refletir sobre o tema também. Agradeço se você ler de mente aberta e entender que não quero impor minha opinião sobre a sua, apenas refletir.

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Postado originalmente no meu perfil do Facebook.

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