Promessa

Os homens o levaram, mas ele não reagia, tampouco justificava alguma desculpa. Ainda havia um pouco de sangue na roupa de seus amigos, proveniente da faca que um deles usara para ferir a um daqueles homens; amigos que se dispersaram como ovelhas e fugiram sem guia, perdidas em um mundo miserável.

A escuridão ainda tomava conta e não havia maneira de descobrir quando iria raiar o dia. Só havia uma certeza, ainda que o sol despontasse, o dia vestiria as trevas como um negro vestido longo em luto pelos próximos atos. Tochas e lanternas iluminavam o caminho, mas a sombra da morte andava à espreita, entretanto, não havia temor em sua face.

Eram muitos os homens maus, mas neste mundo, quem é bom que por si só possa se redimir de seus pecados? Tinham-no com as mãos amarradas, as mesmas mãos que tinham o poder de criar e de transformar a madeira, o barro, o coração, a vida. Ali, em meio aos homens ruins, encontrava-se um dos seus companheiros, Simão, homem teimoso, impaciente, o caráter duro como pedra, seguindo-o para ver até que ponto a humanidade poderia levar aquele que apenas viera trazer palavras de paz e amor. Era revolucionário, afinal, não pregava o ódio, tampouco instigava nos outros o desejo de criticar, antes pedia que tirassem de si mesmos os erros que os impediam de enxergar e que manifestassem pelos outros o mesmo amor que se ofertavam. Recebia os pobres, os miseráveis, os ladrões, os doentes, as prostitutas, todos aqueles que a sociedade menospreza em seu âmago ainda que ignore a realidade de cada um deles – e quem de nós não é um pouco miserável ao permitir que o mal esteja ali sem tomarmos alguma atitude?

Simão observava de longe e se perguntava: Como alguém como ele pode tomar sobre si as enfermidades da humanidade, suas dores e tamanha opressão?

Enquanto seguia a multidão, o frio tomou conta do seu corpo, levando-o até uma fogueira onde buscou em vão as brasas, ele não conseguia se aquecer e sequer sentia a paz. Seu coração se questionava por que ele estava ali, por que seguia um homem tão diferente, alguém cuja humanidade insistia em não compreender e ainda por cima fazia questão de deturpar suas palavras.

Uma mulher se aproximou de Simão colocando-se à sua frente e interrompendo seus pensamentos. O coração dele palpitou, o suor frio escorria pelo seu rosto com o receio de ser acusado como um dos seus seguidores.

– Você é um deles!

A angústia o engoliu, o coração quase parou.

– Não, você deve estar me confundindo com alguém – replicou Simão. – Eu não o conheço.

Então se afastou com o coração congelado pelo medo, e tomado pela falta de fé. Deu poucos passos e alguém na multidão esbarrou com ele afirmando:

– Você fala diferente e age diferente, eu vi você andando com eles.

– Blasfêmia, não conheço o tal.

Simão tentou se afastar da multidão e acabou se aproximando mais daqueles que arrastavam o acusado, esbarrou em outra pessoa que prontamente o reconheceu:

– Você é amigo dele!

– Não sei do que está falando, seu louco – praguejou Simão.

Ainda estava escuro, mas o galo cantou.

Não houve outra reação, senão olhar para aquele a quem arrastavam e encontrar seu olhar compassivo e misericordioso. Como ele sabia? perguntou-se Simão empalidecido e consternado. Lembrou-se de quando o acusado alertara Simão sobre sua arrogância e que ele o negaria; e ele não havia acreditado em suas palavras. Quais outras palavras estou deixando de acreditar? O que está acontecendo?

Simão correu. Fugiu da verdade, envergonhado, com medo. Negara seu amigo que compartilhara com ele palavras de paz e esperança, o pão e o peixe, o pão e o vinho, mas no fundo, questionava-se o que significou aquilo tudo já que o negara publicamente.

Em parte, Simão não havia mentido, nas profundezas de sua alma ele sabia que não conhecia aquele homem, afinal, qual era o seu nome e quem ele era verdadeiramente? Um revolucionário? Um messias? Um guerreiro a enfrentar o Império? Afinal, por que ele estava fazendo tudo aquilo sem reagir? Quem era capaz de entender? Quem o conhecia de verdade? Quem o conhece de verdade?

Naquele dia, Simão chorou amargamente. Ele não esteve ao lado do seu amigo nas cenas que se seguiram, num dos momentos mais importantes da sua vida. E sua fé vacilou novamente quando soube que ele havia morrido pendurado numa cruz. Já não sabia mais no que pensar. Ele se revoltou ainda mais quando, dois dias depois, as mulheres o avisaram que o corpo de seu amigo já não estava mais no sepulcro. Eles não o respeitam nem no seu descanso, berrou enquanto olhava a tumba vazia.

Simão estava em luto, seu coração amortecido, sua dor era intensa e a vida não era mais a mesma. Reunidos os amigos em uma casa e lamentando a morte daquele homem, eis que seu coração bate novamente com intensidade, com o calor e a esperança ao ver de repente um estranho que já não lhe era mais estranho, um homem de quem já não duvidaria mais, um amigo que em silêncio morreu por ele, sem que ainda não compreendesse exatamente o porquê, um amigo cujas mãos e pés estavam perfurados e cicatrizes marcavam seu corpo. Comovidos, aqueles homens se aproximaram, boquiabertos, surpresos, admirados.

– Ele disse que voltaria… – comentou alguém dentre eles.

Todos os amigos estavam juntos novamente, mas desta vez não havia escuridão, não havia mais dúvidas, nem temores. Quem ainda duvidava não duvidava mais, quem não havia visto agora acreditava e quem o havia negado agora o aceitava.

Muito tempo depois daqueles acontecimentos, perguntei a Simão por que ainda acreditava que tudo aquilo que havia acontecido era parte da redenção da humanidade e por que mesmo após tantos anos sem ver pessoalmente seu amigo ele ainda o esperava. Simão Pedro apenas me respondeu:

– Não retarda a promessa, como alguns pensam, meu caro. Assim como os profetas previram seu nascimento, vida e morte, não houve nada do que ele dissesse que não se cumpriu, por que duvidaria eu de seu retorno?

Hoje, quando soube da morte de Simão, estas memórias me vieram à tona e refleti profundamente sobre minha fé. Lamentei pelo seu fim, mas agradeci por ter tido o privilégio de conhecer o Simão que me ensinou a acreditar e que também acreditou plenamente que Jesus Cristo voltará.

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