O Presente de um Velho Amigo

– Eu quero comprar o tempo…

– Impossível!

Sebastião se incomodou com a sentença proferida pelo seu velho amigo.

– Trabalhe menos e use o tempo mais sabiamente, aprenda a delegar deveres aos outros – aconselhou Francisco.

– Não ganho tanto ao ponto de poder delegar aos outros funções que dizem respeito apenas a mim – retrucou Sebastião impaciente. – Meu serviço depende diretamente da minha supervisão e ação.

Sebastião sentou-se à mesa do seu pequeno escritório. Apesar de novo, gostava de um ambiente um pouco mais rústico, com uma lâmpada de cor quente num dos abajures que iluminava a mesa, dando a impressão de que estavam em algum escritório dos anos 20 do século XX. O tapete cheio de gravuras era carmesim com traços dourados, Francisco o admirou por um breve momento antes de continuar.

– Se você não parar, jamais vai conseguir alcançar seus sonhos.

Sebastião ouviu aquelas palavras como uma ofensa. Permaneceu boquiaberto por alguns segundos, até a impaciência tomar conta de si novamente.

– Se eu parar de trabalhar não ganho um centavo…

– Não, meu amigo…

– Cale a boca, Chico!

Francisco silenciou e se levantou de seu assento. Sabia que aquilo era uma ordem para ele ir embora e não voltar mais ali.

– Espero que consiga o que tanto quer, se é que ainda sabe o que quer – disse antes de se dirigir à porta.

– Eu quero resultados, Chico – desabafou. – Parece que os frutos nunca vão surgir…

Francisco parou à porta e ficou meditando naquelas palavras.

– Dias melhores virão… – replicou a seu amigo Sebastião com um sorriso e abriu a porta, retirando-se para sempre.

Sebastião permaneceu no silêncio de seu pequeno quarto de trabalho, tentando entender aquelas palavras e encarando uma caixa deixada sobre sua mesa, um presente de Natal de seu amigo Chico.

Francisco era o homem que o ajudou a encontrar um lugar para dormir tão logo viera de Parintins para Manaus. Chico era mais velho que ele, muito esperto e talentoso, tinha nascido com a bunda virada para a lua para compensar toda a pobreza que prevalecera durante sua infância de migrações com a família pelo Norte à procura de estabilidade. Quando deu na telha, voltou para Manaus e começou a trabalhar como carregador na Feira da Manaus Moderna, até entender que sabia fazer negócios e desenrolar contratos entre patrões, ganhando uma certa notoriedade.

Enquanto Chico era apenas um estivador começando sua vida de negócios, Sebastião chegou com sua mãe Eliana no porto, fugindo dos maus tratos do homem que chamava de pai.

– Precisam de ajuda? – perguntou ele.

Francisco reconheceu sua necessidade tão logo colocara os olhos nos dois. Ele se agachou e estendeu a mão para Sebastião.

– Posso lhe ajudar?

– Só de perguntar já ajuda muito! – respondeu Sebastião sorrindo.

Daí falou imediatamente com dona Alcemira, dona de um pequeno quitinete próximo à Praça dos Remédios, providenciando um lugar para que pudessem dormir até encontrar boas condições de trabalho e Sebastião pudesse estudar.

A vida logrou com sucesso e Sebastião foi para a faculdade, onde cursou Administração, apesar de Chico saber que ele queria mesmo era ser advogado, abrir o próprio negócio e poder ter a própria família. Entretanto, era teimoso, nunca as coisas estavam boas o bastante, as oportunidades de emprego eram escassas e rapidamente perdia a paciência se os resultados não fossem adequados – para ele.

Quando sua mãe decidiu voltar para Parintins, Sebastião disse que só voltaria para aquele lugar se fosse rico, para poder esbanjar na frente de todos aqueles que não apoiaram sua mãe quando ela precisou.

Sua mãe nunca chegou a voltar. A embarcação afundou durante a madrugada e nunca encontraram o seu corpo.

Francisco o encontrou frio e desolado quando soube. Sebastião não queria mais saber de ter família, não sorria mais e era indiferente às mulheres que lhe cortejavam mesmo sendo caboclo forte e bonito – beijava-as por atração física, mas seu coração estava endurecido, sequer queria pensar em ter filhos.

Abriu a própria firma e começou a revender produtos eletrônicos. Era um pequeno negócio na rua do Comércio que ia de vento em popa, mas que nunca parecia bom o bastante para ele, e para piorar, custaria tanto tempo que acreditava que já estaria velho ou morto quando os negócios realmente estivessem fazendo o sucesso que almejava. Foi quando seu velho amigo, já conhecido como Chico da Farinha, decidiu fazer-lhe uma visita no pequeno escritório, trazendo uma pequena caixa embrulhada, a qual ficou estava encarando sem muita curiosidade.

O tempo desde a última conversa com Chico se arrastou por longos anos. Aquela caixa permaneceu embrulhada, até que, em uma véspera de Natal, sua lembrança foi trazida à tona.

Sebastião agora era um homem que costumava dizer que tinha tudo o que queria, mas ele ainda dizia que não tinha o Tempo, ainda queria comprá-lo. Essa falta de tempo o irritava, era uma frustração constante, um tormento a todo instante. Podia comprar o que quisesse, ter o que quisesse, desde carros importados, pequenos restaurantes, casas, roupas, até mesmo pessoas, mas já não tinha tempo para desfrutar. Acreditava que o mundo estava em suas mãos, mas a ambição ainda não estava satisfeita, estava quase velho, apesar de tão novo. Suas doenças eram suas companhias, faltava-lhe saúde, ainda que fosse estúpido o suficiente para acreditar que a tinha nas mãos pagando qualquer tratamento médico em qualquer lugar do país.

Seu mordomo Rodolfo conhecia sua frustração, sabia que já não lhe restava muito tempo.

– Algo parece lhe incomodar muito nesta noite, senhor – comentou Rodolfo.

Sebastião riu.

– Lutei anos para conquistar toda a fortuna que tenho, mas tão somente agora percebo todo o tempo que gastei no desejo de estabilizar minha vida e poder correr atrás do sucesso sem preocupações. Abri mão de tantos sonhos julgando estar procurando os sonhos corretos, quando na verdade apenas procurei por ambições.

– Se me permite, senhor…

Sebastião olhou para seu mordomo, sabia que nas horas vagas aquele rapaz gostava de ler para se sentir um pouco mais culto.

– Diga, Rodolfo…

– Há tempo para tudo nesta vida.

– Mas, não há mais tempo para mim.

– Enquanto houver vida, haverá tempo. Às vezes, as atitudes que mais repercutem em nossas vidas são aquelas que jamais consideramos ter algum valor material: amar, perdoar, louvar, agradecer. Nunca é tarde demais se há uma chance, ainda que seja única.

– O que quer me dizer?

– Dias melhores só vem para aqueles que acreditam neles.

Os olhos de Sebastião se encheram de lágrimas, ele sabia que Rodolfo se referia às palavras de Francisco.

– Quer que eu traga a caixa?

– Por favor…

Rodolfo foi até o armário onde o presente estivera sepultado por tantos anos. Empoeirada, a embalagem ainda mantinha parte de seu brilho e o plástico ainda estava intacto sobre a caixa. Ele a trouxe até um Sebastião de mãos trêmulas, envelhecidas que mal a conseguia segurar.

– Abra para mim…

Enquanto Rodolfo rasgava a embalagem, Sebastião via a caixa de papelão por baixo sem qualquer estampa, imaginando o que haveria ali dentro. Rodolfo estava curioso também.

– É um pouco pesado, mas não muito – comentou o mordomo intrigado enquanto abria a parte de cima da caixa. – Está cheio de pedaços de jornal – disse tirando os rolos de papel envelhecidos. – Tem algo de vidro aqui.

De dentro de caixa saiu o intrigante objeto que marejou os olhos do velho Sebastião. Bases de vidro, corpo de vidro, colunas de vidro, areias vermelhas carmesim com traços dourados, assim era o presente – uma belíssima ampulheta.

Rodolfo a entregou nas mãos de seu senhor.

Sebastião deu uma gargalhada.

– Você comprou até o tempo para mim, meu velho amigo – ria enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto. – Você sempre quis o meu bem e não lhe ouvi. Ah, Chico! Por quê? – então seu riso se tornou em pranto. – Por que, Rodolfo?

Sebastião tentou se levantar do seu leito, mas não tinha forças para tal.

– Senhor, não está em condições de se levantar.

– Preciso encontrá-lo…

Ficou sentado à beira do leito, respirando fundo, ainda emocionado. Então, deixou a ampulheta escorregar de suas mãos enquanto seu corpo caía na cama e seus olhos se fechavam.

A ampulheta se rompeu em inúmeros fragmentos, tantos fragmentos quanto às memórias de Sebastião.

Ele abriu os olhos suavemente.

– Acorde, meu filho.

– Mãe?

– Nós chegamos…

Diversos barcos atracavam à margem do porto, as águas escuras do rio Negro, calmas, contrastavam com o barulho das pessoas indo de um lado a outro, mercadorias sendo carregadas, vendedores ambulantes preenchendo a paisagem, famílias se reencontrando, famílias se despedindo, um vai-e-vem tal qual o balançar das águas.

O barco atracou e as pessoas começaram a descer em fila.

– Oi, dona Alcemira! – gritou um moleque magrelo para uma senhora que estava logo atrás de Sebastião.

– Oh! Rapaz, não precisava ter vindo!

Sebastião via a cena inteira com uma sensação de familiaridade no peito. Ele saiu do barco segurando a mão de sua mãe, que estava nervosa. Ele sorriu para ela e apertou sua mão.

– Chegamos em Manaus, meu filho.

Sebastião meneou a cabeça otimista e se agarrou ao braço da mãe. Um rapaz esbarrou sem querer nele e então se virou pedindo desculpas.

– Sinto muito! – disse o jovem que há pouco tempo gritava para a tal de Alcemira.

– Tudo bem – respondeu Eliana.

– Chico é meio desengonçado, às vezes – interveio dona Alcemira rindo. – Já disse pra ter cuidado, garoto.

– Eu já pedi desculpas.

Sebastião tinha a impressão de que já o conhecia, e tinha a impressão de que fazia muitos anos que não o via. O garoto Chico percebeu no ar que aqueles dois estavam perdidos e não faziam ideia de para onde ir, então se agachou e encarou o pequeno Sebastião nos olhos.

– Precisam de ajuda? – perguntou ele estendendo a mão. – Posso lhe ajudar?

Uma lágrima escorreu pelo rosto de Sebastião.

– Já ajudou muito… – ele replicou. – Só de perguntar já ajudou muito.

 

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