O primeiro amor

Perdão às paixonites de adolescência, mas vou contar uma história sobre o primeiro amor da juventude, aquela pessoa que te faz mudar de pensamento, amadurece um pouco você, molda sua maneira de ver o mundo, torna-se especial e marca sua vida como ninguém, e é justamente aí que reside a diferença do primeiro amor para as paixonites, no quanto você fica marcado.

Tiago conheceu Raquel pelos corredores da Universidade de Engenharia, enquanto ela andava com um conhecido em comum dele e dela à procura do irmão mais velho, ela cursava Odontologia, mas estava aguardando o resultado da transferência para Medicina, que era seu sonho de infância. À primeira vista foi um encontro casual.

Aos 19 anos, Tiago não tivera ainda um relacionamento sério. Assim como sua amiga Alexa demorou, ele teve seus contratempos, além do fato de que somente agora ele estava começando a ser interessante para as mulheres, afinal, a falta de barba denunciara sua idade de modo negativo, mas ser um aluno excepcional na Engenharia com uma sensibilidade rara para as garotas estava aos poucos lhe dando autoconfiança e coragem para investidas mais sérias.

Sua primeira conversa com Raquel fora superficial, mas algo havia chamado atenção dele, talvez o jeito extrovertido dela, a irreverência, o sorriso, o jeito de mulher disfarçado de menina. Ela aparentava ter a idade dele, até mais nova, sendo que era mais velha dois anos. Precisou inventar uma desculpa para conseguir o número dela, então num dos encontros aleatórios pelo corredor tirou uma foto dela. Ela até que gostou da foto, apesar de quase não tirar fotos, então ele pediu o seu número para enviar a foto. Que jeito de pegar o número, espertão.

Mandava mensagens eventualmente e quando percebeu, estava gostando dela e ela tinha um interesse incomum nele. Com o seu jeito, ele conseguia fazê-la se sentir em paz nas horas em que o caos da sua mente atingia limites críticos, cuidava dela de maneira serena e tudo parecia normal, mas Tiago não tinha maturidade o suficiente para um relacionamento com alguém como ela.

Ela o via como garoto inocente, e ele ao perceber isso tentou mostrar que tinha a famosa “pegada”. Definitivamente ele sabia como tratar uma mulher e conquistá-la, só não tinha experiência e prática, mas foi justamente num dia oportuno em que ela o chamou para ajudá-la a carregar umas caixas que ele se aproveitou da situação e a puxou pela cintura e deu um beijo demorado na boca dela. Ela riu, ela gostava dele e por isso, aceitou sair com ele dois dias depois. O problema é que ele estava apaixonado demais, e quanto a Raquel… Ela já havia tido seu primeiro amor.

Ambos se encontraram, jantaram um espaguete, um prato que ela mesma havia pedido para ser montado no restaurante. Tiago a observou bem de cima a baixo, para ele, Raquel não andava, desfilava com o corpo magro, porém com curvas atraentes para ele, com seus cabelos ondulados escuros e olhos escuros, os quais escondiam segredos e um coração quebrado que o garoto imaturo jamais poderia alcançar.

Uma semana depois, estavam namorando. Era a primeira namorada dele, mas além disso, era o primeiro amor dele. A garota de coração quebrado seria aquela que o marcaria para sempre, aquela que seria odiada pela namorada seguinte e pela próxima.

Quando Tiago e Raquel fizeram seu primeiro mês de namoro, queriam comemorar de alguma maneira, mas acabaram ficando na casa dele, onde puderam aproveitar a tranquilidade para ficarem abraçados e assistirem a algum filme. Fizeram declarações de amor entre si, beijaram-se e amaram-se.

A relação deles se tornava mais íntima a cada dia, e ele cada vez mais apaixonado. Porém, um dia, Raquel admitiu que não conseguia sentir o mesmo, que não tinha o mesmo brilho nos olhos que via que Tiago tinha quando se encontravam, e então tudo começou a desandar. Com medo de admitir que ela não o amaria da mesma maneira, Tiago simplesmente ignorou o que era mais óbvio, que ele não a tinha, que aquela relação necessitaria de mais paciência. Não foi o que aconteceu.

Inúmeros pequenos problemas foram minando a relação, até que em um determinado momento, Raquel simplesmente o chamou para conversar e terminou com ele.

Ele ficou arrasado, e a paixonite falou mais alto do que o amor. Ao invés de procurar entendê-la, simplesmente queria que as coisas continuassem, ao invés de perceber as circunstâncias e seu próprio erro, queria que ela o amasse do mesmo jeito.

Sua imaturidade o fez perder alguém que ele muito amava, mas algo que ele aprendeu com Raquel, com palavras vindas de um coração que já fora magoado em um momento extremo de sua vida, foi que “não se vive só de amor”.

Eles terminaram, e o pior, brigaram feio, nenhum dos dois estava preparado para aquela relação, de um lado a imaturidade, de outro a insegurança. Até onde ele a conhecia, para ela não havia amizade com ex-namorados, mas para ele, até sabe lá quando sentirá que perdeu uma pessoa que poderia ter sido sua amiga especial e confidente.

“O mundo dá voltas”, dizia a mãe dela. Tiago espera que essas voltas sejam para a alegria de Raquel, para que ela viva feliz, realize seus sonhos, porque ele sabe que nada volta a ser como era antes, e que se existe um amor e sentimento de verdade da parte dele, ele o desejará constantemente na atribuição de ver aquela pessoa com um sorriso sempre alegre no rosto.

O primeiro amor é aquele que apesar de tudo, deixou uma cicatriz da qual vale a pena lembrar da história, porque é uma cicatriz que mostra que você passou por algo do qual tornou você mais forte e maduro, e não existe vergonha em ter uma cicatriz que te lembra que a dádiva da vida e do amor é maior que as dores e sofrimentos.

Tiago seguiria procurando alguém para amar e ser amado, mas ele aprendera uma coisa: o primeiro amor pode não ser o amor que lhe acompanhará pelo restante da vida, mas ele ainda assim é especial.

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Texto publicado sob o pseudônimo de Ricardo Neruda em 20 de novembro de 2016 – da série de textos Fatos de Alexa e Tiago. 

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