Guarda-Chuva

Aquele lugar tão místico e exuberante, outrora de luxo, havia se tornado em um lugar mal-assombrado. As dívidas o cobriram como as folhagens. Os cipós e as teias de aranha revestiram as estruturas de madeira que suspendiam edifícios de três até quatro andares alguns metros sobre o igapó.

As águas escuras avermelhadas do rio Negro ocultavam os segredos e o que mais houvesse por baixo daquele luxuoso hotel de selva. Aves cantavam suas melodias de liberdade através do vento que acariciava as folhas das sumaúmas e outras árvores, cujas raízes estavam alagadas com as suas folhas caídas flutuando sobre aquele negrume líquido.

O que havia restado do porto estava inundado também, havia um barco naufragado próximo de sua antiga localização. Dali vinha um corredor de alvenaria que era suspenso cada vez mais alto por vigas de concreto que o levavam até uma cobertura que continha uma pequena casa, onde no passado eram recebidos os hóspedes. O corredor de concreto suspenso se dividia em dois caminhos a partir da cobertura, todos levavam a outras estruturas magníficas e de arquitetura intrigante. O caminho principal levava até o edifício que antigamente continha um pequeno comércio e onde permanecia um restaurante sobre a recepção do grande hotel. Um dintel com a frase “Bem-vindo ao Ariaú Amazon Towers” caía sobre a entrada daquele lugar que num passado não muito distante fora um palácio no coração da Amazônia.

Em vão procurei por memórias sobre meu pai o dia inteiro, explorava cada recanto do lugar, imaginando os passos que meu velho poderia ter feito. Saí da estrutura da recepção, que ainda continha algumas das velhas placas que homenageavam os visitantes ilustres que ali pisaram. Não encontrei a que continha o nome do meu pai, mas pude ver o quanto o lugar teve sua importância histórica, apesar de a eternidade só tê-lo abraçado nas lembranças.

Observei uma curiosa piscina no meio da estrutura de madeira suspensa com a água esverdeada pelo lodo que a cobria como um manto verde escuro. Parte da estrutura ali estava condenada, porém não sabia dizer qual delas não estava, pois o chão rangia sob meus pés a cada passo que eu dava, imaginando que o lugar inteiro poderia ceder a qualquer momento se não tivesse cuidado.

Segui em direção ao comércio, onde não encontrava mais nem os pequenos macacos de cheiro famintos que assediavam os turistas e furtavam os mais incautos, principalmente crianças mimadas que fugiam dos seus pais despreocupados, já que assustavam-nas com lendas sobre uma floresta mística que engolia os desobedientes com suas águas de trevas onde o sangue jamais era visto ao se misturar com sua cor – talvez não exatamente essa versão, essa provavelmente foi meu irmão mais velho que me contou.

Explorei então as estruturas que ainda me permitiam visitar e me recebiam com um perfume de umidade, mofo e teias de aranhas. Não havia energia elétrica, por isso era necessário usar uma lanterna – e tal qual melhor que a do meu próprio pai não havia. A escuridão não me assustava mais do que não descobrir alguma pista acerca do passado do meu pai e desvendar um pouco da história que ele tinha a me contar.

Segui pelos corredores circulares repletos de portas e pinturas nas paredes com a tinta descascando e a madeira apodrecendo. Era possível perceber que o tapete avermelhado do chão que se estendia pelo corredor e tomava a forma das escadas já estava sendo consumido pelo tempo. Cipós e pequenas plantas tomavam conta das paredes e não me surpreenderia se encontrasse uma cobra naquele momento. Saí do primeiro prédio após explorar alguns quartos, então fui em direção ao mausoléu em que a memória me trouxe a lembrança de já ter estado em algum momento da minha infância ou adolescência.

– Talvez não ache nada por aqui – comentou meu noivo Roberto desconfiado da nossa aventura. – Quem sabe não encontre alguma outra lembrança dele em outro lugar? As Ruínas de Paricatuba talvez, ou alguma entrada secreta no Teatro Amazonas?

– Só mais um pouco – disse na vã esperança de que uma pista surgisse do nada, olhando atentamente aquela construção cujos alicerces a água engolia e parecia que em alguns dias tragaria totalmente o lugar junto com a floresta, que era mais densa naquele canto. As árvores pareciam abraçar aquele prédio, pareciam sustentá-lo como se o quisessem manter em pé antes de dar adeus à sua finita existência já condenada.

Meu pai dizia: “sei que você se tornará uma mulher muito bonita, talvez corajosa o suficiente para descobrir os mistérios que se encontram apenas na floresta, e mesmo que um dia você tenha que usar óculos, assim como eu, vai enxergar muito além”.

Parei em frente à entrada daquele lugar, como se ouvisse um sussurro do vento clamando para desvendar a luz que as trevas daquele lugar estavam ocultando. Preparei-me para dar um passo, porém senti a madeira rangendo sem uma razão aparente. Olhei para o lado e percebi que Roberto estava assustado, ele parecia ter visto um fantasma, estava pálido e fitava fixamente o prédio atrás de mim.

– O que é aquilo? – perguntou com a voz trêmula.

Virei com os pelos eriçados e o nervosismo tomando conta de mim, porque se havia alguma coisa que eu jamais tinha visto antes era Roberto pálido com medo de algo. Olhei para a entrada coberta pelas folhas e percebi que lá dentro da escuridão, vaga-lumes brilhavam em seu tom verde-esmeralda, mas havia algo mais, uma sombra cujos olhos encaravam os nossos.

– Corram, seus lesos!

Meus pés obedeceram a misteriosa voz que gritara através da floresta, mas já era tarde para conseguir velocidade o suficiente. Roberto tirava uma arma do bolso se preparando para atirar enquanto eu passava por ele tentando olhar para trás, mas o espectro que se ocultava nas trevas tomou a forma de uma onça negra selvagem e partiu para cima dele. Por um momento parei de respirar, imaginei a onça estraçalhando o meu noivo, porém uma flecha atingiu o colossal felino antes mesmo de que Roberto pudesse engatilhar a arma. A onça caiu como um peso morto sobre a passarela, ela rosnava enquanto seus olhos amarelos se fechavam.

– O que foi isso? – perguntei olhando para as copas das árvores procurando pelo arqueiro habilidoso que nos havia salvo.

Roberto estava tremendo, ele preparou a arma para atirar quando uma flecha voou raspando sua mão, fazendo-o largar a pistola e levantar os braços em rendição. Aproximei-me dele e ergui as mãos também, sem conseguir ver de onde vinham as flechas e assustada com a fera jogada à nossa frente, que ainda respirava. Senti a madeira rangendo outra vez, então olhei para trás e pude perceber uma pequena menina com um arco nas mãos e segurando uma flecha com a outra surgindo detrás de uma coluna da passarela. Ela retesou o arco e mirou em nós.

– O que vocês querem aqui? – perguntou ela. – Vocês me fizeram atirar na minha amiga. Se eu não tivesse feito isso ela teria comido vocês… Talvez eu devesse mesmo deixá-la fazer isso.

A garota morena tinha os cabelos lisos negros e usava um pequeno short e uma blusa rasgada na altura da barriga, ostentava um colar e um pequeno cocar, seu rosto tinha linhas diversas desenhadas sobre as maçãs do rosto, seu olhar era tão afiado quanto a ponta da flecha e os olhos eram tão escuros quanto o pelo da onça.

– Sua amiga está morta? – perguntei convicta de que ser amistosa talvez nos tirasse daquela situação, como já havia feito muitas outras vezes nessas aventuras.

– Apenas dormindo…

– Não queremos atrapalhar em nada, só estamos atrás de um caderno de lembranças e um guarda-chuva do meu pai.

A garota apontou o arco em nossa direção se preparando para atirar.

– O que querem com o Guarda-Chuva?

– Acho que sua abordagem amigável não está funcionando muito… – comentou Roberto.

– Cale-se, eu tenho tudo sob controle.

– Percebo – retrucou olhando para a onça.

Eu comecei a suar frio, mas precisava resolver a situação de alguma maneira. Não gostaria de sair dali sem a pista que levava ao meu pai ou mesmo sem uma única lembrança que não fosse uma flechada no meu belo e flácido traseiro.

– É apenas um pertence do meu pai…

– Seu pai também tem um Guarda-Chuva?

– Claro, é muito comum na cidade.

– Impossível, achei que só existisse um.

– Existem vários.

– Você deve estar enganada, moça.

Percebi como aquela garota falava bem e fluente, apesar de ter notado também que as gírias amazonenses eventualmente vinham aos seus lábios para nos relembrar que dentro desta grande mata, somos todos filhos da terra, da floresta e do grande solo brasileiro. Por um momento fui preconceituosa, mas logo percebi que eu que era a ignorante e cética ali.

– De que tipo de guarda-chuva você está falando exatamente, garotinha?

– Meu nome é Iara, moça branca lesa.

– Amélia, meu nome é Amélia.

– Muito prazer, mas eu preciso dizer que vocês têm que sair daqui. Este lugar já foi abandonado há muito tempo e agora é santuário do húmus.

– Quantos anos você tem, Iara?

– Tenho dez anos, Amélia.

– Poderia me ajudar a achar o caderno do meu pai? – perguntei ainda mantendo a esperança de conseguir amizade com aquela moça. – Prometo que depois disso nós vamos embora.

Iara ficou me encarando.

– Felina não vai demorar muito tempo cochilando, apesar de que eu possa ter errado um pouco a dose na pressa para adormecê-la e colocado um pouco a mais do sonífero – Iara riu sem jeito como uma criança travessa.

– Obrigada, Iara! Prometo que não vamos demorar muito! – comecei a me dirigir a dentro da estrutura quando ouvi a pergunta da garota e congelei.

– Esse guarda-chuva que você procura, ele faz chover também?

É engraçado, não é, Amélia? Nós chamarmos de guarda-chuva justamente aquilo que nos protege da chuva é simplesmente estranho. E se existisse realmente algo que guardasse a chuva e fizesse chover ou controlar o tempo, não seria mágico?”. As palavras do meu pai vieram à tona de maneira tão viva como se eu o pudesse ouvir naquele instante. Lembrei da minha inocente infância, dos contos, da fantasia em que eu acreditava e de como eu fui crescendo e abandonando a tudo aquilo que um dia sonhei, de tudo aquilo que era sobrenatural ou mágico e que recheava a minha pequena existência de histórias fantásticas, fossem elas reais ou fictícias. Receei acreditar que meu pai estivesse louco, mas pela primeira vez em anos a garota que ainda existia em mim sorriu por se lembrar de mais aquela lenda de meu pai, e por um momento quis acreditar novamente em tudo.

Meu pai era explorador e cientista do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, sua função era estudar a floresta em sua totalidade, mas ele era um apaixonado pelas lendas e histórias que contavam em cada lugar que visitava, o que lhe deu um acervo de histórias impressionantes. Dizia estar procurando a chave para o futuro, mas eu sabia que ele procurava algo místico que o pudesse fazer viajar no tempo e, se fosse possível, viver mais alguns segundos ou minutos com minha mãe, nem que fosse para dizer as palavras que nunca havia chegado a proferir. Talvez a chave para o futuro fosse a libertação do passado que o assombrava.

Minha mãe morreu em circunstâncias misteriosas em 2005, quando eu tinha apenas três anos de idade. Lembro do seu rosto sorrindo para mim como se fosse um anjo a me proteger, e guardei essa lembrança para minha vida como um amuleto. Achei que meu pai estivesse perdendo o juízo com tantas histórias que já estava vivenciando ou conhecendo pelo interior. Descobri a existência de seus diários quando comecei a faculdade e passei pela iniciação científica com um grande amigo do meu pai, uma pessoa que compartilhou de seus sonhos, algumas de suas histórias e que tinha um dos diários do meu pai guardado.

Juntando os diários do meu pai, percebi páginas perdidas e cadernos de anotação desaparecidos. Concluí algumas de suas pesquisas e me tornei doutora ainda nova, mas o meu espírito de aventura se tornou maior quando percebi que eu estava esquecendo de quem era meu pai. Infelizmente ele desapareceu em circunstâncias também misteriosas em 2015, exatos dez anos após o falecimento de minha mãe. Não foi fácil para mim, isso me deixou cética e sem esperanças, mas nem por isso abandonei o sonho do meu pai de descobrir os segredos da floresta e seus recursos para a renovação de um mundo que se destrói a cada dia que passa.

Quando percebi, já estava coletando histórias, ainda que apenas considerasse contos para crianças sem sono. E até aqui cheguei procurando mais lembranças sobre ele, sobre suas pesquisas, sobre recursos naturais e da dinâmica da floresta, entre outras. As palavras daquela garota indígena despertaram em mim lembranças que nem os diários pessoais do meu pai haviam despertado. Era como se as palavras escritas em um diário não me bastassem, eu precisava mesmo viver seus passos para entendê-lo.

– Não existe nada que faça chover – respondi –, é tudo um efeito da natureza.

– Moça branca lesa não sabe de nada mesmo.

– O que seria então esse Guarda-Chuva?

A menina sorriu e apontou para uma canoa que flutuava a alguns metros dali.

– É o seu dia de sorte, eu estou com ela hoje.

– Não me prova nada.

– O Guarda-Chuva é uma caixa mágica que tem o poder de controlar o tempo.

Fiquei cismada com aquilo, por um momento hesitei em acreditar, considerei tudo uma lorota, uma distração da garota, mas algo me dizia que isso tinha relação direta com meu pai, com suas histórias e desejos, então fiquei pensativa.

– Você mesma não acredita nessas coisas – comentou Roberto ao perceber que eu estava refletindo. – Por que agora acreditaria no que a garota indígena diz?

Relutei em concordar, mas a minha razão estava comprometida pelo calor daquele dia e pela enxaqueca, que começava a tomar conta de mim devido ao estresse sofrido pela situação com a onça.

– Tu é lesa mesmo, hein? Se não quer acreditar em mim, vá em frente, ache o caderno do seu pai e vá embora, não volte a nos perturbar a paz.

– Vamos logo embora, Amélia.

– Fique de olho na onça e na garota – ordenei enquanto andava.

Não queria discutir. Segui em direção ao edifício e entrei naquele lugar sentindo que a temperatura amenizava à medida que eu entrava nas vísceras daquela estrutura antiga de madeira. Os vagalumes sustentavam uma discreta iluminação mística que dava ao ambiente um cenário tal qual não tinha visto antes. Para cada passo que eu dava, o chão ameaçava desmoronar e me engolir viva. Comecei a visualizar as portas de cada quarto e a minha esperança ia se esvanecendo para cada corredor em que via mais abandonado que o anterior e a cada lance de escadas que eu subia, até que me lembrei que só havia a possibilidade de encontrar um único quarto naquele prédio que talvez meu pai tivesse utilizado. Peguei o celular e abri a foto que continha uma nota antiga de janeiro de 2013, referindo-se ao quarto que ele havia utilizado no Natal de 2012, no qual eu mesma havia estado presente e paulatinamente me recordava disso.

Adentrei no abandonado quarto 307 e percebi como estava escuro, a copa de uma árvore havia coberto toda a janela. Iluminei o lugar e percebi que os móveis ainda estavam em seu devido lugar. Comecei a vasculhar nos criados mudos ao redor das camas e levantei os colchões antigos e mofados na esperança de encontrar algo embaixo deles. Nada.

Então, olhei para o quarto como um todo e percebi na parede um quadro de uma mulher morena com a chuva caindo sobre seu corpo. Aproximei-me dele e percebi que estava um pouco torto, revelando algo por trás que diferia das paredes de madeira, era um cofre, que eu não lembrava de ter visto quando estive em 2012, ou não havia percebido. Retirei o quadro com cautela com medo de uma aranha-caranguejeira sair detrás dele, mas só havia seu dispositivo de senha manual. Tentei abri-lo, mas a tranca ainda funcionava.

– Qual deve ser a senha?

Fiquei pensando nos números que meu pai teria colocado e não consegui imaginar nenhum padrão. Tentei em vão várias vezes algumas senhas baseadas em anotações dos diários. Nada.

– Pensa, Amélia, o que falta? Que números seriam tão importantes pro meu pai?

Já sem esperança de conseguir abrir o cofre, pensei em forçar a abertura ou arrancá-lo da parede de alguma maneira, até que coloquei quatro números equivalentes à data do meu aniversário. A tranca fez um leve estalido metálico e a porta se abriu. Meu coração se apertou ao imaginar o significado que aquilo devia ter para mim, uma mensagem do meu pai diretamente para mim talvez. Meus olhos ficaram cheios, mas contive as lágrimas. Abri a porta e pude contemplar o meu tesouro: um caderno com capa de couro escura com as folhas já envelhecidas, mas sem sinais de mofo ou umidade e uma pequena ampulheta toda de vidro com areia dourada.

Esquecendo-me do meu noivo, da onça negra e da pequena moça, peguei a ampulheta que estava sobre o caderno e coloquei em cima do criado-mudo que estava embaixo do cofre, peguei então o caderno e resolvi folhear as primeiras páginas. Eram anotações de 2012. Respirei fundo e então fui diretamente para as páginas finais, onde imaginei que eu estaria presente em algum relato.

A data da folha registrava o dia 24 de dezembro de 2012. Eu tinha exatamente 10 anos e estava naquele Natal junto com meu pai no hotel de selva. Comecei a ler sobre aquele dia em que eu claramente imaginava já saber de tudo que havia acontecido. Ao iniciar a leitura, pude perceber que eu realmente não sabia de nada do que acontecia além dos meus olhos, que como crianças e jovens, às vezes achamos que sabemos e entendemos de tudo.

Havia registro dele falando com um rapaz que passava o Natal com a família ali, era de Manaus, fazia medicina na universidade estadual e sonhava em viajar para a Espanha, também havia um relato de conversas com uma moça vindo na Noruega e uma família de americanos vindo do Texas. Mas o que mais chamou a minha atenção foi um trecho de uma visita a uma comunidade não muito longe dali, no arquipélago de Anavilhanas. Não era uma visita típica dos guias do hotel e eu fiquei me perguntando como eu não sabia daquele detalhe se estive presente naquele dia no hotel.

Não podia levar Amélia até aquele lugar, nem eu sabia o que estava procurando exatamente, mas precisava descobrir como controlar o tempo, como manipulá-lo ao meu favor melhor do que qualquer um que já tenha existido. Minhas perguntas me levaram até uma tribo quase extinta e já dominada pelos hábitos humanos modernos.

Disseram-me que deveria encontrar um guarda-chuva no meio da floresta com alguns membros de sua tribo que eram nômades, o tal guarda-chuva era muito bem cuidado porque ele supostamente seria capaz de controlar o tempo na região. Acredito que minhas pistas levaram a uma confusão de semântica com a palavra tempo. Talvez ela se refira ao clima, faz mais sentido pensar assim ao considerar o nome de Guarda-Chuva e não de máquina do tempo ou algo do tipo. Apesar de tudo, o fantástico sempre me atraiu, então não abri mão de procurar realizar tal descoberta e contemplá-la. Precisava realmente ver com meus próprios olhos o tal objeto que controlaria o clima.

“Para minha sorte, naquele dia, conversando com um hóspede do hotel que me pediu sigilo sobre sua descrição, descobri a primeira pista concreta de algo que talvez pudesse realizar o meu desejo de viajar no tempo”.

Ao terminar de ler, voltei a ficar cética. Estava atrás da loucura do meu pai ou realmente procurava seguir seus passos como pesquisador?

Quantas vezes na vida nos acostumamos com aquilo que é comum e deixamos de acreditar nas possibilidades de tudo que é diferente? Tenho quase certeza que essa era uma frase da minha mãe que meu pai repetia de vez em quando.

Uma certa tristeza e frustração se misturaram no meu coração e tive vontade de chorar. Enquanto meus olhos ficavam com a vista turva de lágrimas, percebi um envelope caindo de dentro do caderno, e no intuito de pegá-lo antes de cair, virei-me com pressa e bati no criado-mudo, lançando a ampulheta de cima dele. Tentei segurá-la, mas ela já estava fora do alcance de minhas mãos quando se espatifou bem diante dos meus olhos.

Foi quando vi a mágica acontecer pela primeira vez na minha vida adulta. Um brilho surgiu de onde a ampulheta havia se partido.

Uma luz dourada irradiava tão brilhante quanto o sol e se espalhava pelo ambiente como se uma pedra tivesse caído em um lago e criado ondulações ao longo dele. Entre uma ondulação e outra era possível distinguir as paredes envelhecidas, cobertas pelo mofo e teias de aranha, e paredes bem pintadas, com desenhos e retratos artísticos espalhados por todo canto. Presente e passado se alternando em ondas, memórias espelhadas como a luz da lua em uma lagoa.

Aos poucos a luz começou a se manter estável e foi então que pude perceber revivida a glória daquele lugar nos tempos em que meu pai nos trazia.

Vi as cenas de uma garotinha abraçando seu pai e então correndo para fora do quarto. Contemplei um homem de costas, vestido com uma simples blusa de algodão e jeans, calçando sandálias e ostentando seu par de óculos.

– Pai.

O homem se virou em minha direção.

– Ele não pode ver você – comentou Iara surgindo bem atrás de mim.

– É tão real.

– Oscilações do tempo são tão reais quanto memórias, mas elas são mais vivas e coloridas, obviamente. É como ver o passado acontecendo no presente, nada além de…

Iara se calou de repente quando viu meu pai se aproximando de mim com um sorriso, como se pudesse me ver.

– Eu acho que conheço você – ele disse.

Iara estava arrepiada e eu mais ainda. Ele encostou a mão em minha têmpora esquerda e eu pude sentir seu toque amável que há muito não sentia aliviando a dor da minha enxaqueca e me trazendo uma sensação de conforto e tranquilidade.

– Por que me parece tão triste, doce menina?

– Por nada – respondi.

– Então erga a cabeça, minha filha, você ainda tem muitas histórias para serem vividas, você sabe disso…

– Eu li todos os seus diários, todos os que encontrei até o momento, e ainda assim sigo em busca daquilo que o senhor por tanto se dedicou, seja na ciência ou na ficção.

– Ora essa, a ficção nada mais é do que uma inspiração para a ciência, e devo lhe dizer, minha cara, saiba que em meus relatos sempre haverá o desejo de olhar para o futuro e não mais para trás. Saiba que minha busca por consertar o meu passado não era visando o presente, mas melhorando o nosso futuro, desejando evitar as tragédias e até mesmo proteger nossa amada floresta.

– Mas eu… – ia dizendo que sentia sua falta, mas ele me interrompeu.

– Não precisa dizer nada.

De repente, as ondas douradas voltaram e então já não conseguia mais sentir o toque de sua mão na minha pele. Queria abraçá-lo, mas percebi que já não era mais possível.

– Não fique triste pelo que passou. Olhe o que você já colheu. Mesmo que precise de óculos como eu para enxergar bem, você se tornou bonita e corajosa o suficiente para desvendar os mistérios que existem apenas nesta floresta, segredos inestimáveis que o mundo esconde daqueles que são seus detentores por nascença deste legado – ele sorriu. – Eu tenho muito orgulho de você, sempre terei.

Sorri sem já conseguir conter as lágrimas nos olhos. Fechei meus olhos e quando percebi, já estava de volta ao quarto onde havia encontrado o ano perdido dos diários do meu pai. Voltei a sentir o cheio da madeira apodrecida e úmida, a sensação do chão rangendo e o som das aves ecoando na floresta. Não conseguia acreditar no que havia visto.

– E então? – questionou Iara testando o nível do meu ceticismo.

– Aquelas palavras sempre existiram. Não havia nada de novo nelas, não mudei o passado ou me encontrei pessoalmente com ele, tudo não passava de uma lembrança do que já havia acontecido quando eu era uma menina. Eu devo estar vendo coisas ou você me drogou com alguma substância que nem fez com a sua onça.

– Moça branca lesa… – disse Iara revirando os olhos.

Ia saindo do quarto e procurei pela ampulheta, que já não existia mais. Fui até o lado de fora do prédio. Não queria dar o braço a torcer para aquela menina, e tampouco queria admitir que acreditava em tudo que estava vendo. Minha enxaqueca voltava. Iara sorriu com malícia, ela revirou os olhos novamente e então foi em direção até a canoa, onde guardava a caixa que chamava de Guarda-Chuva. Era uma caixa muito simples de madeira que continha o mesmo padrão de linhas que desenhavam-se no rosto da menina.

– O ser humano sempre questiona aquilo que é incapaz de compreender, é por isso que jamais vai entender a Deus e a natureza em sua totalidade.

Ela abriu a caixa por um breve tempo e então tampou novamente, logo guardou a caixa na canoa e ficou olhando para o céu. Uma nuvem encobriu o sol logo em seguida. Iara arrumou-se na canoa, pegou o remo e o colocou dentro da água.

– Acho bom procurar um abrigo, dessa vez deixei a caixa aberta tempo demais.

Ela começou a ir embora.

– Espere – chamei –, onde posso encontrá-la se precisar. O que sabe sobre meu pai?

– Leia o diário, vai saber onde me achar – respondeu enquanto desaparecia entre as árvores da floresta inundada.

Fiquei ali parada, enquanto percebia que a onça havia desaparecido também. Roberto me olhou com uma cara de espanto tentando entender o que estava acontecendo e me encarando como se questionasse o sucesso da minha busca. Mostrei o caderno a ele e apontei com a cabeça o nosso destino.

Estava chegando de volta ao antigo porto quando um vendaval começou a tomar conta do lugar. Algumas gotas grossas de chuva começaram a cair e pude ver o quão rápido as nuvens escuras cobriram o céu. Uma brisa gélida levava embora o calor infernal e abafado da floresta junto com meu ceticismo. Enquanto Iara navegava sapeca na canoa entre as árvores da floresta, o céu chovia, não havia mais enxaqueca e eu apenas sorria.

girl wearing pink dress standing on bridge above trees

_________________________________________________________________

Confira algumas lembranças fotográficas do Ariaú Amazon Towers clicando aqui!

1 resposta »

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Anúncios
Follow Escrito Por André Basualto on WordPress.com
Anúncios
%d blogueiros gostam disto: