A doença da tristeza

Em meados da primeira metade do século XXI, um médico propôs, após muita investigação e observação, a existência de doenças psíquicas agudas.

Consideradas apenas como doenças crônicas ou que exigiam um curso que apenas atrapalhasse a vida, as doenças mentais foram consideradas por muitos um estorvo, mais uma tentativa da indústria farmacêutica para vender suas drogas manipuladoras e químicas capazes de plastificar o cérebro em uma bolha de inexistência, na qual os humanos não teriam mais senso crítico tampouco fossem capazes de pensar por si mesmo.

Eis que com o tempo essas mesmas pessoas foram padecendo aos poucos por um male misterioso.

Passavam dias na cama e então melhoravam, não tinham febre, não tinham náuseas, vômitos ou quaisquer outros sintomas constitucionais, mas sentiam-se inúteis, incapacitadas, ansiosas, distraídas. Em alguns momentos manifestavam um temperamento agressivo inexplicado, porém que subitamente era suprimido e dava lugar a uma tristeza profunda que os deixava acamados. Alguns achavam que sentiam dores pelo corpo, cansaço ou até mesmo sintomas gripais. O problema piorava quando se tentava expor o paciente à multidão ou a um grupo de pessoas, mas era potencialmente mais severo ao se deixar o paciente sozinho.

O médico que percebeu isso foi acometido da doença uma vez. Atribuiu como causa ao mundo rápido e agitado, um mundo que exigia a imagem e ao mesmo tempo a negava, que causava pequenos estresses que predispunham a capacidade de defesa, ou o sistema psicoimunológico como chamou, de perder sua estimada função, facilitando os fatores etiológicos de ocasionarem as doenças psíquicas agudas.

Por muito foi considerado blasfêmia científica, mas tão logo se provou que essas doenças cronificavam para males ainda piores, como transtornos de ansiedade, depressão e vícios. Foi quando os mais céticos se renderam e começaram a estudar sobre o assunto.

Eis que surgiu uma linha do estudo que levou muitos a se questionaram sobre os suicídios sem sinais de alerta e sua relação com as doenças psíquicas e mentais agudas. Perceberam que seus critérios para doenças mais graves estavam certos, mas que se negava a existência de doenças mentais “menores” e suas possíveis complicações.

Era como se aceitasse a existência da pneumonia mas não a do resfriado comum. Como se fosse evidente que a pneumonia não tratada levasse à sepse, mas que o resfriado comum não conduzisse a uma piora considerável por muitas das vezes ser um quadro autolimitado.

Um engano que ceifou a muitos.

A “frescura” que dizimou famílias e destruiu gênios em potencial acometidos pela doença da tristeza e da ansiedade aguda começou a ser levada a sério. Gostaria de poder afirmar que um dia a cura será encontrada e que a tristeza será apenas um momento eventualmente saudável que nos mostrará o valor da alegria e que será cada vez menos evidente e eventualmente menos comum, já que, em um mundo ideal, a alegria tomou conta de todos graças a um simples remédio que não surgiu num laboratório, mas por providência divina esteve intrínseco ao coração humano desde sua criação, a empatia, a capacidade de se por no lugar do outro e se mostrar presente mesmo em silêncio.

 

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Escrito originalmente em uma nota do celular em 25 de dezembro de 2017

woman looking at sea while sitting on beach

Categorias:crônicas

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