Livre-arbítrio

Uma vez, estava lendo uma história sobre um Rei que via o futuro e tinha onisciência. Um de seus generais mais importantes tramava uma rebelião contra o Reino. Não havia guerras naquele reino, vivia-se em paz, mas a ousadia do servo em querer se tornar maior do que o Rei começou a gerar tumultos. Jamais havia se visto um sentimento ou algo semelhante no Reino antes.

O General começou a usar sua influência com outros soldados e o povo, alegando que o Rei era injusto e não permitia a prática do Livre-Arbítrio em seu reino.

O Rei, onisciente, poderia ter destruído e matado o traidor antes mesmo do seu ato de traição, mas deixou que o General manifestasse todas as suas intenções. Então, permitiu que o General desse o golpe de estado e inicia-se o Grande Conflito.

Na primeira batalha dessa guerra, o General foi expulso do Reino junto com todos os demais aliados e enviado a vagar pelo mundo, mas chegou a uma terra recém-habitada pelo Reino, onde passou a tomar conta através de seus truques e enganos.

A Guerra dura e perdura. Várias escolhas e decisões foram tomadas. Os habitantes do Reino não entendiam a decisão do Rei e não entendiam as intenções do General e assim os anos se passaram.

Com o General dominando uma ínfima parte das terras do Reino, surgiu dor, sofrimento, amargura, lágrimas e ranger de dentes. O tempo passou e o ódio tomou conta dos seres destas terras. Muitos se revoltaram contra o Rei, sem jamais entender por que ele não destruíra o General, se ele conhecia o futuro.

Após ler tal história, que faz parte de uma série de livros que relatam a Guerra, dei a um amigo tal livro e ele leu. Por fim, questionou-me: “Por que o Rei não matou o General, já que podia ver o futuro”? E após isso questionou-me sobre qual era a minha visão sobre o livre-arbítrio.

Na melhor das intenções, e para tentar ser bem simples em minha colocação, pedi ao meu questionador que imaginasse uma árvore frondosa, e em seguida pedi que retirasse quase todas as folhas da árvore para que visualizássemos apenas os galhos que se entrecruzam, tronco, raízes e algumas folhas apenas. Após fazer isso, pedi que imaginasse a semente que deu origem àquela árvore.

Essa semente é o princípio de suas escolhas. Ela está atrelada à sua razão e à sua emoção.

Imagine que você é uma formiga que almeje a folha mais alta do topo da árvore. Você deve partir da base do tronco em um único caminho, até que achará o seu primeiro dilema, sua primeira dúvida, a divisão do tronco em galhos. Você pode muito bem saber que quer alcançar o topo, mas não consegue ver quais dificuldades que encontrará pelo caminho – um ninho de pássaros, teias de aranhas, entre outras, afinal, você não enxerga o futuro, apenas tem uma meta.

Então você faz uma escolha na sua vida e segue por um caminho, abandonando todas as escolhas e consequências que poderiam vir pelo outro descartado. Uma escolha traz ganhos, traz perdas.

Você segue e segue, encontrando mais e mais divisões de galhos, e o caminho para o topo se torna cada vez mais estreito e mais complicado, quanto mais em cima, mais ninhos de pássaros, os próprios pássaros e quem sabe outros empecilhos aparecerão. A essa altura do campeonato, muitos amigos já desistiram e escolheram as folhas mais baixas da árvore.

Talvez, ao longo do caminho, você tenha cometido erros e tenha arrependimentos que muitas pessoas não têm, porque não tiveram a coragem de ousar tanto quanto você, mas ainda assim, seus arrependimentos pesam nas suas costas.

Cada escolha foi feita por você, unicamente por você. Você até pode ter sido influenciado a fazer escolhas que não queria ou mesmo escolhas sobre as quais sua razão não compreende muito bem, mas a escolha final é sempre sua.

Alguns amigos se perderam ao longo do caminho, foram devorados pelas aves, traçados pelas aranhas, destruídos pelas tempestades da vida. As escolhas deles também podem afetar rumos, assim como trazer consequências boas ou ruins para eles.

Meu amigo ficou olhando para uma árvore e meditava em minhas palavras. Então ele fez uma observação:

– Os seres do Reino não entendiam bem se o General estava certo ou errado pois nunca haviam visto tais atitudes antes, não é?

– Sim.

– Então podemos dizer que como conhecedor do futuro e onisciente, o Rei sabia o que estava para acontecer.

– Não apenas isso, o Rei viu toda a árvore e trajetória da vida de seu General, assim como viu que suas atitudes trariam sofrimento para os seres da terra em que ele conquistou pelo engano. Viu que seria injusto com seu general se o destruísse e o deu uma chance de se redimir, mas queria ao mesmo tempo mostrar ao seu povo como era justo!

– Se o Rei tivesse destruído o General, o que teria acontecido?

– Se o meu rei matasse um traidor por expressar sua opinião, eu certamente teria medo do rei e estaria vivendo sob uma tirania.

Meu amigo ficou reflexivo.

– Como o Rei foi sábio! – falou meu amigo, admirado.

 

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Publicado originalmente no blog Vendedores de Ideias em 25 de janeiro de 2014

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Categorias:crônicas

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