O jeitinho dela que me apaixonou

– Eu estava sentado no sofá do centro acadêmico, fazendo vários nada.

– Melhor expressão – Tiago mordeu de leve os lábios e ficou balançando a cabeça.

– De vez em quando é bom fazer um nada – completou Alexa.

Ricardo começava a contar a história de como ele havia chegado à Teoria das Moedas. A cena agora era a faculdade, especificamente o sofá velho do centro acadêmico, uma sala onde eventualmente os alunos iam para se distrair, jogar cartas, dominó, videogame, dormir ou tentar ler alguma coisa quando se estava silencioso. As duas janelas enormes na parede que dava para fora do prédio permitiam a entrada de luz o suficiente para que as luzes pudessem ficar desligadas durante o dia, uma mesa enorme fazia o papel de balcão e separava a parte comum da parte que ostentava os troféus dos famosos campeonatos universitários, ainda assim, alguns ousavam ficar sentados em uma cadeira de rodinhas que ficava escondida atrás dessa mesa, podendo se esconder dos demais da sala, que costumavam ficar sentados nos sofás, ou mesmo no chão.

Ricardo estava deitado no sofá, olhando para o celular, quando entrou seu colega de turma, Bruno. Ele ficou sentado e trocaram algumas palavras, mas logo Bruno ficou estudando.

– Foi quando ela apareceu – Ricardo fez a surpresa.

Uma garota entrou na sala acompanhada de outras oito pessoas, todas com suas mochilas, barulhentas e com cara de alegria.

– Calouros – comentou Alexa.

Os calouros de Ricardo estavam ali, ele ficou olhando para uma garota de cabelos lisos e escuros de lábios grossos e com olhos profundos.

– Parece ser bonita – comentou Tiago.

– E era, mas essa não era Simone.

Logo ao lado dessa garota bonita, estava uma garota alta, com cabelos bagunçados e soltos, porém lisos e castanhos com um tom de ruivo, branca, com sardas e olhos cor de mel, vestia-se como caloura, não chamava muito a atenção, porém parecia ser uma pessoa bem legal, foi o que pensou Ricardo.

– Foi amor à primeira vista?

– Não, Alexa, não foi… Mas eu me senti encantado por ela naquele instante.

Alexa franziu a testa e em seguida, por um momento, ficou boquiaberta, nunca tinha ouvido Ricardo falar daquela maneira e sério – sempre levava as coisas em tom de brincadeira.

– Que garota curiosa.

Ricardo conta como ela se sentou perto de Bruno e acabou perguntando bem alto se ele era noivo ou casado por causa da aliança na mão dele. Bruno respondeu que sim, e uma conversa começou ali mesmo. Ricardo se intrometeu tirando graça com ambos.

– Isso é armadilha, eu já avisei pra ele.

– Aposto que você tá com inveja – retrucou Simone para ele.

– Ora, ora, temos uma Sherlock Holmes falsa aqui…

– Falsa? – perguntou Simone.

– Sim, o verdadeiro acertaria que eu não estou com inveja, nem ficaria ruim morrendo de amores por alguém.

– Ah, é, espertinho… – ela tentou mudar de assunto. – Mas, afinal, em que período vocês estão?

– No último… – respondeu Bruno. – Somos donos da…

– Mandamos nisso tudo! – completou Ricardo. – Só que não.

Simone retribuiu um sorriso a ele.

Tiago e Alexa ouviam a história atentamente.

– Sabem qual o maior problema de todos? – Ricardo perguntou para eles.

– Qual? – perguntou Alexa realmente curiosa.

– Ela tinha namorado.

– Sim – Ricardo usou o indicador da mão para imitar um revolver, revirou os olhos e fingiu dar um disparo.

– Puts!

Ricardo acabou se afastando antes mesmo de poder se aproximar de Simone, mas acabou adicionando ela em cada rede social possível. Comentava no privado e começava conversas aleatórias apenas por curiosidade. Não sugeria nada que fosse errado. Ele gostava do jeito da garota.

– Foi o jeitinho dela que me apaixonou.

Os meses se passaram e ele formou. Pensou que jamais a veria novamente até que a encontrou numa festa de formatura de um velho primo. Ela estava estonteante, magnífica em seu vestido vermelho.

– E solteira… – arriscou Tiago.

– Sim! Eu perguntei dela onde estava o digníssimo e ela me respondeu que já não havia ninguém digno dela. Confesso que dei um sorriso bobo e a chamei para dançar.

Alexa ficou novamente boquiaberta.

– Mas você não dança!

– Só quando preciso.

– Chocada!

Ricardo contou como a noite se desenrolou, como ficaram conversando e dançando até tarde, até o momento de dizer adeus e quem sabe jamais se ver novamente. Foi quando se beijaram, saíram de fininho, se amaram.

– Vocês… – Alexa estava impressionada.

– Cara, que história! – comentou Tiago.

– Infelizmente nem tudo foram rosas. Ficamos saindo por várias semanas, sempre conversando, passeando, encontrando-nos com amigos em festas ou reuniões, mas aí, um dia, ela simplesmente decidiu que queria seguir em frente.

– Como assim?

– Eu pedi ela em namoro.

Alexa puxou os próprios cabelos.

– Meu pai amado, quem é esse Ricardo? E o que ela disse?

– Que não…

Ricardo permaneceu em silêncio e engoliu em seco. Alexa teve a impressão de que ele iria chorar.

– Bem, segundo a Teoria das Moedas, Simone foi uma moeda de ouro.

Alexa deu um abraço nele enquanto Tiago olhava para o céu, pensativo.

Alguns amores ou paixões da nossa vida nunca nos corresponderão o tanto que sentimos por eles, infelizmente pode ser uma questão de tempo, o momento errado, a hora errada, o humor errado, isso não deve desmerecer aquilo que sentimos por aquela pessoa, e nem desmerece o que foi vivido. São pessoas pelas quais devemos sempre torcer para que achem a felicidade verdadeira enquanto prosseguimos buscando a nossa própria.

Enquanto Ricardo seguia abraçado com Alexa, Tiago suspirou e apenas cochichou:

– Será se algum dia vamos encontrar um amor para cada um de nós?

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woman in orange dress posing in the street

Texto escrito sob o pseudônimo de Ricardo Neruda em 18 de fevereiro de  2017 – da série de textos Fatos de Alexa e Tiago. Publicado hoje pela primeira vez, este texto encerra as crônicas dos Fatos de Alexa e Tiago de 2016 e 2017.

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