Os desesperados pelo amor

A vida nos traz as perguntas mais esquisitas e nem sempre nos traz as respostas que precisamos. Com Alexa, a cada minuto com Isabella era uma pergunta esquisita nova ou algum questionamento absurdo ou sem fundamento aparente.

– Quando você descobriu quem você era, Alexa?

– Que tipo de pergunta é essa? – questionou Ricardo irritado.

Alexa fitou Isabella e ficou pensando no significado daquelas palavras.

– O que quer saber exatamente? – Alexa tateou suas palavras.

Isabella respirou fundo lamentando o fato de ser a pessoa do grupo que fazia perguntas complicadas e exigia respostas prontas, então começou a explicar:

– A maioria das pessoas normais é criada em um ninho até que descobre ter suas próprias asas, é quando surge o conflito entre descobrir quem você é de verdade ou se manter preso aos ditames que lhe impuseram quando criança.

– Explique melhor… – pediu Ricardo.

– É quando você percebe que não precisa fazer tudo aquilo que seus pais mandaram fazer sem razão alguma, quando descobre que eles também erram e coisa do tipo – arriscou Tiago.

– Não só isso… – Isabella completou: – É quando você começa a descobrir seus propósitos ou sonhos, vontades e desejos, quando define por si mesmo quem é você.

– E por acaso você sabe quem você é? – Ricardo soltou a pergunta diretamente para Isabella.

– Sei sim! Sou uma desesperada pelo amor – retrucou Isabella.

O garçom se aproximou com o pedido de Isabella e depositou o sushi na mesa junto com o coquetel de abacaxi sem álcool, o favorito dela, porém sem álcool – Alexa tinha proibido Isabella de beber até que julgasse que ela tivesse mais juízo, uma longa história a ser contada em outra hora.

– Obrigada! Ai, como eu adoro aqui! É tudo tão rápido e prático.

Ricardo tentava conter as perguntas, ainda mais quando elas se dirigiam a Isabella ou pareciam fazê-lo ser menos esperto. Tiago não teve receio e soltou a pergunta:

– Como assim uma desesperada pelo amor?

Isabella mastigava enquanto olhava para eles com uma cara de espanto, seu olhar parecia julgá-los como esquisitos enquanto, aos olhos deles, ela era a pessoa mais esquisita da mesa.

– Ok, eu preciso admitir que nem sempre sabemos exatamente quem somos ou o que somos, às vezes é difícil tomar uma decisão muito simples como escolher uma roupa pra sair ou o que vou jantar – replicou ela. – É muito mais fácil saber o que você não quer ou o que você não é do que saber o que você é ou quer.

– O que você é e o que você quer? – instigou Ricardo a ela.

– Eu já disse, sou uma desesperada pelo amor e eu quero ser uma escritora, é tudo o que eu tenho certeza.

Isabella voltou a comer enquanto os olhares se voltaram a Alexa.

– E você? – perguntou Tiago encarando Alexa.

– Quero lembrar que a pergunta é quando você descobriu e não o que descobriu… – comentou Isabella.

– Por que você é tão complicada às vezes? – questionou Alexa.

Isabella deu de ombros e continuou comendo. Uma leve pausa tomou conta da mesa enquanto a música do Sushi Bar tocava ao fundo. Era Cazuza cantando Exagerado e as memórias de Alexa se desenhando na sua mente com um filme de uma garota desesperada correndo pelo meio da noite implorando por ajuda. Os pensamentos se firmaram, então Alexa começou:

– Foi em entre outubro e novembro de 2010 ou março de 2011.

– Foi por causa do Cícero? – perguntou Ricardo.

– Cala boca, Ricardo! – reclamou Alexa.

– Hmm, interessante… Quem é Cícero? – perguntou Isabella enquanto olhava pelo bar procurando o garçom e admirando os rapazes. – Aquele loirinho ali é bem bonito.

Ricardo estalou os dedos, chamando a atenção de Isabella.

– Ok! Ah, eh, ótimo, já é um começo – Isabella falou.– Não importa quem seja esse cara, eu quero saber o que descobriu e como foi isso.

– Você só queria saber quando foi que eu descobri quem eu era.

– Acredito que esse foi o pontapé inicial e que você não vai nos deixar curiosos, certo, meninos? – Isabella tinha muitos truques na manga.

– Agora eu quero entender também – comentou Tiago.

– Gaspar, manda a de frutas vermelhas, por favor – pediu Ricardo –, isso aqui tá só começando.

Alexa se sentiu num beco sem saída, mas estranhamente se sentia impelida a falar daquilo. Detestava lembrar de traumas do passado ou momentos ruins, mas sabia que era importante contar os fatos que lhe levaram a descobrir um pouco mais sobre quem ela era.

– Eu mato vocês dois… – reclamou ela. – Vocês sabem a história…

– Quanto ódio, senhorita Alexa – provocou Ricardo.

– Quieto, Ricardo, que desta mesa eu sou a que conheço todos os seus podres e Isabella está doida para escrever alguns contos apimentados e outras histórias – ameaçou Alexa.

Ricardo engoliu em seco e desviou o olhar. Tiago por um momento parou pra pensar nas datas que Alexa tinha citado e percebeu a história que estava prestes a ouvir.

– Então, pessoal…

Alexa começou a contar a história de quando entrou na faculdade de Enfermagem em março de 2010, havia acabado de completar 18 anos e estava decidida a cursar a faculdade enquanto decidia se fazia cursinho para alcançar seu objetivo de estudar Medicina. Pretendia se dedicar e esperava que nada fosse atrapalhar sua vida.

– Antes de mais nada, você precisa saber quem era a Alexa de 17 e 18 anos – comentou Alexa. – Eu era uma garota muito ingênua e besta, minha mentalidade era de uma garota de 14 anos que assistia animes, se apaixonava pelos galãs de novela e filmes e cantava High School Musical na frente da piscina imaginando que encontraria meu Troy Bolton por ali e nos apaixonaríamos, fugindo pra algum lugar distante.

Alexa se arrependeu de ter dito aquilo e já olhou diretamente para Ricardo, esperando a chacota.

– Eu te entendo bem – comentou Ricardo aproximando-se dela e dando um abraço –, tudo que eu queria era conhecer pessoalmente a Grazi Massafera.

– Já pode parar com seu abraço…

– Ainda quero conhecer, mas tudo bem.

Tiago costumava ficar quieto, mas estava tão curioso que instigou o assunto:

– Então, Cícero.

– Foi quando eu conheci Cícero – continuou Alexa. – Ah, pra mim ele parecia o Troy Bolton.

Na verdade ele não era nenhum pouco parecido e ainda por cima era baixinho.

Cícero era um colega da turma de Alexa que era muito bonito e que gostava do curso, dizia que Enfermagem era seu sonho, por mais que as pessoas dissessem que ele devia fazer Medicina – afirmação que o irritava profundamente.

Vou lhes descrever exatamente como Alexa e Cícero se conheceram.

– Oi – ela começou.

– Oi.

– Eu sou…

– Alexandra, né? – Cícero arriscou.

– Alexa.

– Ah, sim! Eu sou o Cícero e…

– Eu te amo! – falou Alexa.

Ok, não foi exatamente assim, ela não foi tão ingênua ao ponto de falar isso, mas bem que queria.

– Prazer, Cícero – interrompeu ela. Foi o que realmente ela disse.

– Quer almoçar com a gente? – perguntou Cícero que estava indo junto com outros dois colegas.

– Quero…

Alexa jura que conversou bastante com eles, mas não soltou palavras além de sim e não. Ao fim da conversa, Cícero pediu o número de telefone dela, deixando a garota criando ainda mais expectativas. Ele se despediu e em todos os dias seguintes, Alexa fazia o possível para se enturmar com ele e os demais colegas.

– Eu era uma desesperada pelo amor – falou Alexa no Sushi Bar para Isabella. – Eu fui acreditando que poderia me apaixonar e ele ficaria comigo, mas além de eu ser descuidada com minha aparência naquela época, ter cara de criança e agir como uma pirralha, eu não sabia me amar.

Os desesperados pelo amor estão em todos os lugares. Eles almejam sinceramente encontrar alguém com quem possam dividir seus sentimentos e emoções, momentos da vida e sonhos, são pessoas comuns que podem estar vivendo tranquilamente ou podem estar à beira do colapso, acreditando que apenas uma outra pessoa os pode fazê-los feliz ou colocá-los na linha.

– Um desesperado pelo amor nunca percebe quando está prestes a cometer um erro ou se machucar – continuou Alexa. – E foi aí que eu comecei a descobrir que eu não sabia quem eu era e não reconhecia sequer meu desespero.

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man and woman holding heart boards

 

A Vida de Alexa e Tiago

Os desesperados pelo amor

Capítulo anterior: Os detalhes da vida

Próximo capítulo: Uma garota que nunca ia achar um amor

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