Uma garota que nunca ia achar um amor

A Alexa de sete anos chegou em casa contando pro seu pai que estava apaixonada. O pai riu e perguntou quem era o sortudo. Alexa só ficou corada e fingiu que era segredo.

A Alexa de nove anos chegou em casa contando pro seu pai que estava apaixonada. O pai riu e perguntou quem era o bonitão. Alexa riu muito alto e disse que era um grande amor.

A Alexa de onze anos chegou em casa contando pro seu pai que estava apaixonada. O pai a encarou e piscou o olho e perguntou quem era o amor. Alexa rindo bastante disse que talvez ele fosse o amor da sua vida.

O pai de Alexa sempre ouvia o que ela tinha a dizer e Alexa confiava tanto nele que contava todas as paixões que teve a cada ano no colégio e seus objetivos de vida. O pai não se preocupava muito porque sabia que Alexa era muito tímida e que se algo acontecesse, logo saberia. Porém, ele aconselhava Alexa como podia.

Quando a Alexa de treze anos se apaixonou por um garoto da igreja, foi a primeira vez que ele disse que era má ideia. Ainda assim, Alexa deu seu primeiro beijo no garoto e dizia que gostava muito dele, ainda que o visse apenas uma vez por semana, aos domingos, na igreja, durante o culto. Um dia, a família do garoto se mudou e foi embora, foi quando ela percebeu que ele não era nenhum pouco do amor da sua vida e anos mais tarde percebeu que seus mundos nem eram tão próximos assim.

Quando a Alexa de dezoito anos chegou em casa com um sorriso bobo no rosto, o pai logo percebeu que ela estava apaixonada por alguém, mas não insistiu em perguntar, apenas deixou a vida seguir e esperou o momento certo em que Alexa contaria para ele as novidades. Ele sabia que Alexa se preocupava demais com o futuro e estava começando a entender a realidade quando não passou no vestibular para o curso que queria.

Quando Alexa conheceu Cícero, um rapaz não muito alto, um tanto loiro, elegante, simpático e cativante, ela achou que ele era a pessoa mais incrível do mundo, queria que ele fosse para a igreja dela algum dia, torcia para que fossem da mesma religião, e que um dia pudesse se casar com ele.

Alexa se aproximou de Rafael, um dos amigos de Cícero, na tentativa de descobrir se ele gostava de alguém.

– Você gosta dele, né? – perguntou Rafael.

– Eu, eu… – tentou responder Alexa corando.

– Você se entrega muito rápido – disse Rafael rindo. – Olha, eu não sei se ele gosta de alguém, mas ele namorava com uma garota chamada Teresa, no colégio.

Alexa se perguntava como as pessoas conseguiam namorar no colégio. Ela só ia para a escola e voltava para casa de segunda a sexta e dificilmente via os amigos fora da escola, para ela era um mistério as pessoas namorarem numa escola como a dela, que era bem rígida com certos comportamentos.

Alexa acabou descobrindo que Cícero tinha estudado na mesma escola que ela e que ela conhecia Teresa da quinta série do ensino fundamental e que havia passado partes dos seus recreios brincando com ela.

Decidiu voltar a conversar com Teresa pelo Orkut e puxou conversa no MSN Messenger. Falaram sobre tudo, até que chegaram ao momento em que decidiram falar de Cícero.

Alexa jura que não sabe como a conversa terminou com uma briga entre as duas, ela jura que nunca escreveu “Cícero vai escolher com quem vai ficar”, mas ela quase disse outras coisas piores, enquanto Teresa ainda dizia “Cícero é meu”.

Imagino Cícero sentado no cinema comendo pipoca assistindo a essa cena épica no nosso memorável MSN Messenger.

Os meses foram se passando até que Alexa se declarou para Cícero.

– Você o quê? – perguntou Isabella no Sushi Bar.

– Ah, eu sempre acreditei que quando a gente encontra o amor da nossa vida, podemos dizer eu te amo sem nos preocuparmos com o que vai acontecer a seguir.

– E o que ele disse? – perguntou Tiago.

Alexa encarou a curiosidade de Tiago e questionou:

– Você sabe o que ele disse.

Tiago sabia, mas não lembrava exatamente as palavras de Cícero.

– Nós somos amigos – foi o que Cícero disse para Alexa.

– Somos.

– Mas é só isso, Alexa. Não tem nada além disso e eu não quero namorar… Sinto muito.

Na verdade, já adulta e no Sushi Bar, Alexa não se lembrava nenhum pouco das palavras de Cícero, mas sabia o que elas tinham causado. Isabella olhava o rosto sereno de Alexa, mas não conseguia sequer imaginar que a Alexa de 18 anos saíra correndo chorando e entrara em casa fingindo estar tudo bem. Seu pai não estava no sofá naquele dia e não a viu quando chegou mais tarde do trabalho.

No dia seguinte ao da decepção com Cícero, foi a festa de recepção dos calouros e Alexa decidiu não ir. Ela se lembrava de todos os pequenos romances platônicos que tivera antes, cada pessoa que achou que amaria por toda a vida e que daria tudo de si mesma para poder casar e ser feliz para sempre.

– Será que eu nunca vou namorar? – perguntou Alexa a si mesma.

Ela tentou ficar otimista e respirou fundo. Passou o fim de semana sem dormir direito e evitando os seus pais, fingindo que estava estudando.

Na segunda-feira, quando entrou na sala e se sentou, sozinha, percebendo que não se identificava com quase ninguém dali, Alexa viu Cícero entrando na sala e as pessoas ovacionando-o e apontando para outra garota na sala, então ouviu alguém cochichando do seu lado: “parece que eles ficaram na festa e deram altos amassos”.

Alexa engoliu em seco e decidiu sair de fininho da sala. Jurou que jamais entraria naquela sala de novo e foi embora.

Quando a Alexa de dezoito anos chegou em casa correndo e chorando, o seu pai sentiu seu coração apertar e perguntou o que havia acontecido. Alexa só ficou corada, chorando e tentando esconder a tristeza que sentia.

No Sushi Bar, Isabella ouvia atentamente a história de Alexa, que continuou falando:

– Eu quase surtei… eu achei que seria um garota que nunca ia achar um amor.

– E, então, o que aconteceu?

– Meu pai disse que estaria ali sempre pra me ajudar, que eu só fizesse o meu melhor. Apesar disso, eu não conseguia raciocinar bem – respondeu Alexa. – Meus pais viam o meu desespero e tentavam me acalmar, mas eu continuava me achando feia e burra, alguém que não ia nunca ser amada, e isso durou uma, duas, três semanas, até que perdi a conta de quanto tempo passou – Alexa fez uma pausa e respirou profundamente. – Os desesperados pelo amor são pessoas que precisam de ajuda para entender que precisam amar a si mesmos antes de qualquer coisa.

Alexa olhou para Isabella e percebeu um sorriso torto no rosto de quem havia entendido o recado. Isabella olhou para o lado e viu uma garota se sentando ao lado de um rapaz loiro que havia admirado antes, ela ficou pensando se não estava sendo como a Alexa de dezoito anos.

– Bom que você achou um amor depois… – comentou Tiago interrompendo os pensamentos de Isabella.

– Mas na hora a gente pensa que vai ser sozinho pra sempre – replicou Alexa.

– E como conseguiu sair dessa? – perguntou Isabella.

– Meu pai começou a ficar tão preocupado que foi aí que eu percebi que precisava de ajuda.

– E é aí que eu entro nessa história… – comentou Ricardo.

– Lá vem… – interrompeu Alexa revirando os olhos antes de continuar. – Foi aí que eu conheci minha psicóloga e comecei a perceber que não existia nenhuma garota que nunca ia achar um amor.

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woman sitting on orange chair

 

A Vida de Alexa e Tiago

Uma garota que nunca ia achar um amor

Capítulo anterior: Os desesperados pelo amor

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