Morador de Rua

Eu andava pelo pátio da igreja quando vi um homem com a perna esquerda cheia de curativos e bandagens, as pontas dos dedos expostas e inchadas como se fossem explodir.

A cena me deixou um tanto constrangido, não queria contato com ninguém naquele momento, muito menos com um estranho, um morador de rua. Algo além disso me incomodava bastante e eu me sentia desconcertado com as pessoas ali. Fui para aquele lugar para buscar paz e encontrar a Deus, mas acabei achando pessoas que só falavam de política e baboseiras e um palestrante que se dizia pastor que mais fazia propaganda dos projetos sociais e de arrecadação de dinheiro do que lia e estudava a Bíblia.

Eu senti que estava perdendo aquele primeiro amor pelas coisas de Deus, aquela sensação que as pessoas têm quando conhecem o significado do nascimento e vida de Jesus além de seu exemplo de amor ao próximo e sua dedicação em cuidar dos homens, mulheres e crianças, fossem elas ricas ou pobres, ou pecadores dos tipos mais variados – assassinos, prostitutas, ladrões, políticos, cobradores de impostos, pescadores, o ser humano de modo em geral –, seu amor era genuíno. Era um amor que eu não conseguia encontrar naquelas pessoas.

Apesar de criticar os demais, não percebi o meu desprezo pelo homem maltrapilho, mas passei por ele e senti seu olhar me seguindo, julgando minha falta de compaixão e muito provavelmente de amor. Senti a trave que tinha nos meus olhos e percebi que era mais um daqueles que não estava amando ao próximo, mas tentei me esconder e fugir daquela verdade assim mesmo.

Fui até o bebedouro e vi as crianças correndo entre os carros no estacionamento apertado. Uma delas passou pelo meu lado e gritou com escândalo:

– É um demônio!

Olhei curioso para aquelas crianças imaginando que elas finalmente tivessem reconhecido o quão pestes elas eram, principalmente o filho do pastor, um pirralho chamado Murilo.

– Ele sumiu! – gritou uma garota.

– Você mentiu pra gente… – reclamou outra.

O filho do pastor se agachava procurando alguma coisa embaixo dos carros.

– Você tem certeza que ele tava aqui, Murilo?

– Tenho! – respondeu o filho do pastor.

Aquilo me intrigou, por mais que eu não estivesse nem um pouco a fim de socializar, o drama daqueles pequenos demônios me chamou a atenção. O que será que eles procuram? Continuei bebendo a água enquanto me distraía com a multidão passando pelo pátio, criando um aglomerado de pessoas divididas pela política, mas supostamente unidas pelas mesmas crenças religiosas. No meio delas, o mendigo mancava e se afastava imperceptível a tantos olhares, foi quando me pesou a culpa de não tê-lo ajudado.

Quis desistir da novela das crianças e ir embora quando uma belíssima garota de vestido vermelho se agachou junto com o filho do pastor procurando algo também. Voltei minha atenção para Murilo e a garota. Era uma moça que se chamava Janaína.

– Murilo, você tem certeza que viu ele aqui? – perguntou ela.

– Sim! – respondeu Murilo enfaticamente.

Decidi me afastar um pouco mas continuei contemplando o que acontecia. De repente um cachorro passou correndo por debaixo de um carro.

– Ali! Eu disse! – berrou Murilo.

Janaína se aproximou daquele carro e se abaixou novamente ligando a lanterna para ver o pequeno mamífero. A minha curiosidade aumentou, então me aproximei paulatinamente até ouvir um rosnado seguido de um fino choro. Um pequeno vira-lata se escondia daqueles demônios, provavelmente assustado com tanta gente.

– Tudo bem, bebê, vem aqui, eu te ajudo… – dizia Janaína.

O cachorro não deu ouvidos e ficou ali mesmo. Eu me agachei do lado de Janaína e pude perceber que aquele animal estava sujo, fedia e tinha uma das patas traseiras machucadas, com as moscas pousando sobre suas feridas.

– Ele não quer vir – disse Janaína –, tadinho…

– Vão expulsar ele daqui – comentei.

Eu não sabia se me compadecia do cachorro ou não, eu sentia o peso na alma de não ter ajudado aquele mendigo e agora estaria ajudando um cachorro. Quem valia mais?

Afastei todo e qualquer julgamento e reconheci que nada podia fazer pelo cachorro e admiti que ao mendigo se dá uma esmola, mas socorrer um cachorro dá um trabalho imenso. Ninguém coloca um mendigo dentro da própria casa, por exemplo.

Respirei fundo na minha indecisão e voltei a ficar de pé. Janaína havia se sentado e digitava no celular com muita pressa, mandando mensagens para várias pessoas e grupos de trabalho.

– Será que alguém socorre ele? – perguntei.

– Eu conheço uma ONG que faz isso, é só avisar que eles vem buscar…

– Ele fugiu! – berrou Murilo do outro lado do carro, dando-me apenas o tempo de ver o cachorro correndo em direção à rua e desaparecendo logo em seguida. O pequeno ser mancava com a pata traseira esquerda e aquilo me deixou um pouco perplexo.

A multidão começava a se dissolver, as pessoas já estavam indo para casa. Murilo se aproximou de mim e Janaína, que lançou um olhar tão frio no pequeno demônio que ele teria sido exorcizado naquele instante se fosse mesmo um. Murilo decidiu sair de fininho e desapareceu.

– Esses pirralhos assustaram o pobrezinho – lamentou Janaína.

– Acho que ele não vai voltar…

– Que triste.

Eu olhei para ela e desabafei:

– Eu me sinto triste de não saber como ajudar nesses casos ou outras situações – disse me referindo ao mendigo de antes.

– Não precisava ficar assim, se você não tem condições pode doar pra essas ONGs e até mesmo pra voluntários que trabalham com esses animais de rua.

Quando ela falou “animais de rua”, senti um gosto amargo na boca e voltei a me lembrar do mendigo. Sem pensar no que ia falar, balbuciei:

– Um cachorro e um homem foram abandonados ou fugiram, quem será que recebe ajuda primeiro?

– O quê? – ela questionou.

Percebi que não tinha a intenção de soltar essas palavras na frente dela, parecia que eu estava julgando o fato dela ajudar animais mas ter ignorado o mendigo que estava ali antes.

– Nada, eu só estava pensando alto…

– Um animal não vale tanto quanto um ser humano? Deus não se importa com as aves do céu e com as pessoas? Quem somos nós pra não cuidar de ambos?

Engoli com gosto de fel, ela tinha razão. Eu procurava justificar minha inércia misturada a incapacidade de fazer algo julgando aqueles que se esforçavam para ajudar os moradores de rua, fossem cães ou seres humanos.

– Todos merecem um pouco de carinho ou cuidados – falou Janaína. – Porém, eu entendo bem o que você quis dizer, algumas pessoas dão mais valor a um bicho do que a um semelhante e isso quebra o equilíbrio que deveria haver na compaixão.

Janaína abaixou a cabeça e colocou a mão na testa.

– Céus, por que é tão difícil achar compaixão pra pessoas e bichos? Por que é tão difícil as pessoas entenderem que ajudar um não tira a necessidade de ajudar o outro? Ajudar um não significa desprezar o outro.

Fiquei indagando aquelas perguntas a mim mesmo e olhei para o portão.

– Vamos atrás deles…

– O quê? – Janaína exclamou assustada.

– Sim, vamos… Eles ainda devem estar por aqui por perto.

– Eles quem?

– O cachorro e o mendigo.

– Que mendigo?

Fiquei intrigado com a pergunta.

– Como assim você não viu o mendigo com a perna enfaixada?

– Não vi nenhum…

Franzi o cenho e balancei a cabeça.

– Esquece – falei. – Você vem ou não?

– Não posso, minha mãe vem me buscar logo…

– Tudo bem, então… eu vou tentar achar o cachorro e você chama aquele grupo ou sei lá quem que ajuda pra vir buscá-lo.

– Tá! Combinado.

Eu fui em direção à rua e olhei para os dois lados imaginando onde o mendigo ou o cachorro poderiam estar. Segui em direção a um lanche que ficava na outra esquina ao lado da igreja e onde já havia visto alguns mendigos ficarem durante o dia, sob uma frutífera mangueira.

Enquanto me preparava para atravessar a rua, vi o cachorro correndo para trás do lanche, em direção a árvore. Perdi de vista quando um carro atravessou a rua na minha frente. Esperei o semáforo fechar daquele lado e então segui adiante. Cheguei até a parte de trás do lanche onde havia uma clareira e não pude ver o cachorro. Uma escada descia até a clareira e a árvore que ficava no centro dela.

– O que você quer aqui? – uma voz grossa questionou logo atrás de mim, assustando-me.

Virei para ver quem me fazia a pergunta e vi aquele mendigo de antes. Fiquei sem saber o que dizer.

– Eu procurava um cachorro com um ferimento na pata esquerda… – senti meu corpo gelar ao perceber que a perna do mendigo que estava machucada era equivalente à pata do cachorro.

– Dá menos trabalho cuidar de um cachorro que de um velho homem, não é?

Fiquei calado.

– Sabe – continuou o homem –, eu estava me perguntando e supondo algumas coisas aqui.

– Que tipo de coisa? – perguntei.

– Algumas pessoas acreditam que Jesus prova as pessoas aparecendo a elas na forma de mendigo, e se ele aparecesse na forma de um cachorro de rua, será que elas receberiam ele bem?

– Eu…

Eu estava tão perplexo com aqueles questionamentos que não sabia o que dizer. Não conseguia nem ter resposta pra todas as perguntas que Janaína me fez, muito menos para aquele desconhecido.

– Tem muito mendigo nesse mundo querendo virar cachorro pra ter um lugar pra chamar de lar e comida pra chamar de banquete – falou ele.

– Você procura por um lar? – perguntei.

– Acha que eu gosto de morar na rua?

– Eu…

– Escute aqui, rapaz… Eu te observo desde sempre passando por aqui indo praquela igreja todo final de semana. Você já foi mais gentil com as pessoas ao seu redor, mas você esfriou, começou a falar de dinheiro e política com aquele bando de marionetes que não sabem nem por que vão adorar. Eu via Deus nas suas atitudes, quando me oferecia sopa ou quando dava algumas migalhas e sobras de comida pro Diego.

– Diego?

– Sim, o cachorro que você procurava…

– De que adianta fingir que vai pra igreja se você não procura por Deus?

Senti um peso esmagador estraçalhar meu coração de dentro pra fora, minha boca secou e meus pensamentos me deixaram tonto. Foi quando caí por terra e percebi que estava cego. Talvez estivesse nu aquele tempo todo e nunca tivera percebido, tentei em vão cobrir minhas vergonhas com palavras vazias e desculpas esfarrapadas, mas nem isso conseguia fazer. Estava julgando as pessoas da igreja quando eu mesmo estava agindo como elas, reclamando da falta de amor, quando eu mesmo não estava fazendo minha parte para representá-lo. Que cruel homem que sou.

Quis chorar.

– Escute aqui, garoto… Não dá pra ajudar todo mundo no mundo.

Encarei aquele homem ainda aflito pelas minhas faltas.

– Alguns mendigos sonham que são cachorros para serem adotados, mas nem todos os cachorros do mundo poderão ter casas. Quem sabe algum dia alguém construa moradas para todos.

Eu cerrei meus punhos e os apertei com toda a força que eu podia.

– Como eu posso te ajudar? – perguntei com a voz falhando.

O mendigo me encarou com certa pena.

– Se não dá pra ajudar todo mundo, como posso fazer o meu melhor? – continuei questionando.

O homem se virou e começou a ir embora mancando.

– Deus não quer sacrifícios, ele apenas quer misericórdia – sentenciou.

Ele começou a se afastar quando decidi lhe fazer uma última pergunta:

– Qual é o seu nome?

Ele me olhou uma última vez com aqueles olhos escuros.

– Diego – respondeu enquanto desaparecia pela frente do lanche sem eu saber que nunca mais o veria.

Decidi sair dali. A mente estava cheia.

Voltei para frente da igreja e vi de longe o recorte da silhueta de uma moça de vestido vermelho. Janaína ainda estava ali, mas aparentemente segurava algo enquanto Murilo olhava de perto curioso. Um casal de farda verde estava do lado dos dois fazendo um círculo sobre um pequeno animal ferido na pata traseira esquerda.

– Ele acabou voltando aqui e justamente meus amigos da ONG estavam por perto – comentou Janaína. – Tadinho dele, deve tá faminto.

– Vamos pensar num nome pra ele, amor! – falou a mulher da ONG para o seu marido.

Aproximei-me para observar melhor o pequeno ser e percebi a profundidade de seus olhos escuros. Uma lágrima escorreu pelo canto do meu olho e pude sorrir e sentir a alma cheia pela primeira vez em meses.

– Oi, Diego – falei para o cachorrinho. – Hoje você deixa de ser um morador de rua.

– Diego… – cochichou Janaína. – É um bom nome!

O cachorrinho deu um breve latido, como se tivesse concordado.

Naquele dia, pedi perdão de Deus pelas minhas faltas e percebi que meus julgamentos não passavam de trapos imundos, que eu ainda tinha muito para melhorar como ser humano.

 

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Morador de Rua

short coated white dog

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