A dica de ouro – parte 1

– Mas é lógico que eu sou o protagonista dessa parte da história – insistiu Ricardo.

Ricardo já estava no seu terceiro drink, mas o álcool não fazia sequer cócegas nele, exceto irritar seu estômago de vez em quando. A música no ambiente agora era dominada por Michael Jackson com Beat It. Ricardo acenava para o garçom, mas Gaspar captou no ar seu pedido e assobiou, dando a entender que já iria preparar o pedido de Ricardo.

– O quanto você consegue comer? – perguntou Isabella.

– Quer descobrir de verdade? – Ricardo respondeu piscando para ela.

Isabella revirou os olhos e jogou o resto do drink que tinha no seu copo, para ela foi uma pena que restavam apenas o fundo do copo e algumas gotas, não chegando sequer a molhar a blusa de Ricardo.

– O quê!? – reclamou Ricardo. – Eu ia te chamar pra um rodízio.

– Sei… – comentou Tiago.

Alexa respirou fundo e terminou de beber um copo de água. Revirar as lembranças era um processo chato, mas por um momento foi importante perceber como as coisas podiam mudar em menos de uma década. E isso que importa, algumas coisas podem parecer demorar, mas elas passam.

– Por que insiste em dizer que você é importante se Alexa está nos contando que estava indo ao psicólogo? – questionou Isabella.

– Qual era o nome da sua psicóloga mesmo? – interviu Tiago.

– Gabriela Alves, a melhor pessoa do mundo depois dos meus pais.

– Pra mim é a melhor… – implicou Ricardo.

Isabella parou para pensar por um minuto.

– Alves?

– Isso.

– Esse nome não me é estranho…

Ricardo e Alexa trocaram olhares e começaram a rir.

– Enfim, por que você é tão importante nessa parte da história, Ricardo? – questionou Isabella.

– Eu dei um dos melhores toques em Alexa, e não estou falando com segundas intenções desta vez – Ricardo ergueu os braços comemorando.

– Cara, você é impossível – comentou Tiago.

– Eu dei a dica de ouro da vida de Alexa – completou Ricardo.

– Ainda não consigo acreditar – comentou Isabella.

– Eu tenho uma prova de que eu sou o protagonista dessa parte! Um minuto! – ele gritou enquanto tirava o celular do bolso.

Alexa se assustou com a reação dele, então logo um pensamento terrível lhe veio à mente.

– Pelo amor… Não! – berrou Alexa. – Não aquilo!

Tiago e Isabella se entreolharam desconfiados.

– Alexa, conta como foi essa história, eu vou já achar o que procuro…

– Ricardo, eu juro que se você…

– Ah, eu acho que perdi.

– Ótimo! – suspirou Alexa. Ela fez uma pausa e então prosseguiu. – Então…

Alexa voltou a contar sobre como a Alexa de dezoito anos precisava ir ao psicólogo e acabou caindo no consultório de uma mulher chamada Gabriela Alves por indicação de um de um colega de trabalho de sua mãe. Ficou nervosa logo ao entrar no carro e não parava de imaginar as mil situações e perguntas possíveis que ela faria, o que questionaria e o que colocaria em xeque.

Alexa entrou na sala de espera, onde só havia mais uma outra mulher aguardando sua vez de ser chamada e um rapaz atrás do balcão lendo uma história em quadrinhos dos Vingadores. Ela não conseguiu distinguir bem o rosto, mas viu que era moreno, de cabelo liso curto e estava bem concentrado. Ela achou que era o recepcionista ou o secretário, então se aproximou para anunciar sua chegada.

– Oi, meu nome é Alexa, eu vim pra consulta das quatro.

O rapaz abaixou o encadernado que lia e encarou a garota.

– Então era você mesma, Alexa.

– Como assim? Você me conhece? – perguntou ela desconcertada.

O rapaz saiu de trás do balcão e deu um abraço nela.

– Como assim você esqueceu de mim?

Alexa não sabia como reagir mas devolveu o abraço. O rapaz, percebendo que ela não lembrava bem dele, decidiu se apresentar:

– Eu sou o Ricardo, Ricardo Alves, estudei com você na quinta série e depois na sétima série, daí nunca mais te vi.

No Sushi Bar, Isabella deu um grito bem alto, interrompendo a narrativa.

– Caramba! Você é filho da psicóloga! – Isabella ficou boquiaberta. Ricardo tirou uma foto dela assustada e instantaneamente bloqueou o celular. – Você não fez isso…

– Isso o quê?

– Acredite, ele fez – comentou Alexa. – Filho da mãe.

– Saudades das receitas da sua mãe – comentou Tiago. – Excelente cozinheira também.

– Ela é incrível.

– Então, você estava realmente lá – Isabella voltou ao foco.

Ricardo só balançou a cabeça, achando-se o máximo por isso.

– Então é por isso que você se acha importante nessa parte da história.

– Não só por isso… – ele replicou.

Alexa voltou a contar a história.

Ela realmente não lembrava de Ricardo, não conseguia lembrar de nenhum garoto chamado Ricardo. Na verdade, ela tinha dificuldade de lembrar de algumas pessoas que estudaram com ela e com quem pouco conversava.

– É difícil lembrar de mim, eu não fiz nada de importante na época da escola, nada que lembrasse as outras pessoas por alguma peripécia ou algo que eu tenha aprontado, diferente do Eduardo Paes, por exemplo.

– Eu lembro bem do Eduardo, ele quase papocou toda a instalação elétrica da escola, mas alguém dedurou ele – Alexa comentou rindo.

– Fui eu…

– Eita.

– É.

Alexa não sabia muito o que dizer, mal havia percebido que tinha entregado o fato de que não lembrava de Ricardo. Tentou se consertar.

– Legal, você trabalha aqui…

– Minha mãe que trabalha, eu só fico aqui esperando a hora de ir embora e fico observando as pessoas que passam por aqui.

– Sua mãe?

– Sim, ela que é dona do consultório. Alves…

Alexa ficava cada vez mais constrangida, não tinha ligado os pontos ainda.

– Bem, eu acho que vou sentar.

– Fique à vontade – Ricardo pediu.

Alexa ficou ali sentada observando a pequena sala com tons de cores verde e azul. Estranhamente sentia-se bem recebida, mas algo a incomodava. Ricardo a observava por cima da revista a cada cinco minutos e ela percebeu aquilo, ficando irritada.

– Onde é o banheiro, por favor? – perguntou ela.

– No fim do corredor à direita – respondeu Ricardo apontando.

Alexa se levantou e Ricardo a seguiu com o olhar, como se estivesse admirando uma espécie de animal inusitada.

Ela se escondeu no banheiro e respirou fundo.

– O que eu vim fazer aqui?

Ela se olhou no espelho e contemplou as olheiras discretas de quem vivia na cama mas tinha dificuldades para dormir e chorava todos os dias pensando que jamais seria amada.

– Eu vim aqui pra cuidar de mim mesma! – disse para si, determinada a seguir em frente com sua vida.

Alexa saiu do banheiro e se deparou com ela. Na porta do consultório, indo em direção ao balcão de recepção, uma mulher simples e com um sorriso meigo a aguardava para sua consulta.

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two man and woman wooden couple keychains hanging on rope overlooking bokeh lights

A Vida de Alexa e Tiago

A dica de ouro (parte 1)

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Próximo capítulo: A dica de ouro (parte 2)

 

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