A dica de ouro – parte 2

Gabriela Alves não era muito alta, era branca, tinha o cabelo escuro curto e usava um óculos para enxergar de perto, vestia-se formalmente mas nada muito chamativo, era simples e aparentava ser bem humilde e acolhedora.

Alexa ficou olhando Gabriela se aproximar de Ricardo e então falar:

– Pode pegar pra mim o patê na geladeira?

– Esse aqui? – disse Ricardo erguendo um pote com uma das mãos enquanto se mantinha abaixado por trás do balcão.

– Esse mesmo!

– De que é esse patê?

– De tomate seco – respondeu sua mãe. – Eu mesma que fiz.

– Mas você disse que não tinha tomate seco no mercado – Ricardo a encarou desconfiada.

– E não tinha, adivinha só como foi que eu fiz esse patê!

Alexa ficou na expectativa pela resposta enquanto esperava a resposta de Ricardo, ela havia ficado curiosa pois pela primeira vez algo havia despertado seu apetite em dias.

“Que mulher incrível”, pensou Alexa enquanto observava de longe e decidia se iria se aproximar ou não.

– Eu não sei como… – Ricardo tentava adivinhar a receita secreta da sua mãe. – Como você conseguiu o tomate seco?

– Ora essa, eu peguei um tomate, lavei e depois peguei uma toalha e o sequei e daí pá! Temos o tomate seco!

– Quê!? –  berrou Ricardo. – Que genial!

Ambos começaram a rir. Alexa estaria jogada no chão sem acreditar no que via, mas tentava-se manter discreta.

“Minha psicóloga é doida”, repensou. Então viu como ambos, mãe e filho se divertiam com algo tão besta, que lhe veio à mente o pensamento de que estava mesmo no lugar certo. Gabriela olhou para Alexa e sorriu. Ela estranhamente a reconheceu.

– Oi, Alexa, em que eu posso te ajudar?

Alexa ficou corada e gaguejou.

– Eu… eu… eu….

– Quer um lanche primeiro?

Alexa estava sem jeito mas balançou a cabeça enfaticamente, concordando com a proposta. Ricardo preparou um sanduíche para ela, que ficou se deliciando com o patê de tomate seco sentada na recepção. Gabriela a observava sem que percebesse.

Após o término do lanche, Gabriela deu a instrução.

– Vamos, entre no consultório, vamos poder conversar com calma lá dentro.

Alexa já estava mais relaxada do que quando havia chegado, a tensão havia passado quase por completo, sentia-se aliviada por ter encontrado um suposto ex-colega e uma mãe muito atenciosa. Ela entrou no consultório, estava abarrotado de livros nas estantes, e de cara reconheceu que não eram livros técnicos, eram romances, clássicos e até mesmo algumas histórias em quadrinhos.

– Ricardo adora ler quadrinhos e mangás, ele nega isso na frente dos colegas, mas é uma paixão que ele tem. Estou trabalhando com ele essa vergonha do lado nerd – comentou Gabriela enquanto se sentava em sua poltrona. Ela indicou o a poltrona maior para Alexa ficar à vontade, mas ela ainda admirava os volumes inteiros.

– Já leu todos? – perguntou Alexa.

– Quem, eu?

– Sim…

– Nem todos, a maior parte é da fila imensa de livros que nunca acaba – respondeu rindo.

Alexa sorriu de volta e sentou-se na poltrona.

De repente, a tensão voltou a tomar conta do seu corpo e um calafrio percorreu pelo seu corpo. “O que está acontecendo?”, perguntou a si mesma. As mãos e os pés começaram a gelar, a respiração ficou pesada, inúmeros pensamentos tomaram conta de si quando a pergunta de Gabriela veio à tona.

– Em que posso te ajudar, Alexa?

Alexa engoliu em seco, mas não conteve as lágrimas.

– Ninguém vai me amar nunca…

Alexa despencou em lágrimas e chorava como uma criança. Gabriela se manteve no seu lugar, apenas atenta a cada reação.

– Eu gostava de um rapaz, mas ele disse que não queria nada com ninguém, mas acho que era só comigo. Eu sou feia, eu não sou inteligente o suficiente, não sou corajosa, não sou forte, é por isso que ninguém nunca vai me amar, as pessoas me detestam porque sou religiosa, porque sou dedicada e obediente aos meus pais…

Alexa continuou contando a história de como conheceu Cícero, como em todos os anos da escola se apaixonava por alguém, mas nunca sentia-se amada, como estava desesperada e se cobrava por não ter passado no vestibular. Gabriela ouviu pacientemente cada palavra. Quando Alexa terminou de falar, a psicóloga a deixou respirar e secar suas lágrimas por alguns segundos. Alexa estava pronta para ouvir o que fosse preciso.

– Você realmente acredita nisso? – perguntou Gabriela.

– Acho que sim…

– Você acha que é ruim ser religiosa, dedicada e obediente aos pais?

– Não – balbuciou Alexa.

– Olhe pra você, você é jovem e bonita, tem uma boa família pelo que me contou e tem grandes sonhos, Alexa. Pense nisso hoje, procure ver tudo aquilo que você tem de bom e me conte na próxima consulta tudo o que você admira na sua vida.

Observar tudo o que você admira na vida, tudo aquilo que você tem de bom. É o primeiro passo a dar após reconhecer seus problemas.

Alexa parou para pensar por um segundo naquilo, não havia percebido como estava se sentindo mais leve. Ela se despediu da doutora e de Ricardo, então foi para sua casa com seu pai.

Naquele dia, Alexa fez uma lista de todas as coisas boas que tinha e conseguiu dormir tranquilamente pela primeira vez em semanas.

Logo que Alexa saiu do consultório, Gabriela se aproximou de Ricardo e comentou com ele:

– É melhor que seu lado apaixonado não se encante por essa menina agora – advertiu Gabriela. – Ela está frágil, Ricardo.

– Uma pena que ela não lembre de mim – ele comentou.

– Seria bom se ela lembrasse que você deu aquele ovo de páscoa naquele ano na escola, não é? Saber que tinha um coleguinha que a admirava.

– Ela não sabe que fui eu – Ricardo falou ficando encabulado com o comentário da mãe.

– Como assim não sabe? – questionou sua mãe.

– Eu coloquei do lado da bolsa dela durante o recreio e ela nunca soube quem foi que entregou.

– Você era caidinho por ela.

– Eu não sei o que sentia por ela, eu só achava ela o máximo! Ela desenhava muito bem e era muito fofa!

– Você ficou feliz de reencontrá-la?

– Sim, mas triste por vê-la nessa situação…

Gabriela abraçou Ricardo.

– Ela precisa de amigos. Do jeito que eu te conheço, sei que ela não faz mais o seu tipo, espero… – ela deu um beliscão nele, que reclamou. – Mas não haveria nada melhor pra ela do que encontrar um bom amigo agora. Às vezes o amor que precisamos se encontra nas amizades que encontramos pelo caminho.

Ainda no abraço de sua mãe, Ricardo comentou:

– Bem, eu vou fazer minha parte, mas espero achar um bom amigo pra nós dois então.

Ricardo já havia esquecido a história do ovo de páscoa, por um momento tentou se lembrar do que havia acontecido após aquilo, mas sua memória falhou ao procurar aquela lembrança.

A verdade sobre o ovo da páscoa é que Ricardo nunca colocou o ovo na bolsa de Alexa, justamente naquele dia ela havia trocado de lugar com uma amiga e sentado a duas cadeiras de onde costumava se sentar, justamente com a colega que tinha a mesma bolsa que ela, o nome dela era Teresa. Eles descobriram isso muito tempo depois.

Alexa continuou indo às consultas semanalmente e foi fazendo progresso muito rápido.

– Você precisa se amar, Alexa, contemple e admire o que você tem de melhor e foque nisso! Seja grata por isso! Eu sei que você é incrível.

Admire-se, concentre-se no que você tem de melhor, ame a si mesmo sem egoísmo, valorize tudo aquilo que você tem, seja sempre grato, é só o que precisamos pensar quando acharmos que está tudo perdido.

Alexa ia aprendendo isso, mas ainda havia algo que ela não conseguia desenvolver, era a sensação de que jamais acharia um namorado, de que ninguém seria capaz de amá-la. Gabriela fazia de tudo para tentar fazê-la perceber que isso não era verdade, mas não conseguia as palavras exatas para lhe fazer refletir naquilo.

De volta ao Sushi Bar, Alexa contava aos amigos como ainda se sentia apaixonada e ao mesmo tempo magoada por Cícero, e como aquilo parecia que não iria se curar, por mais que sua psicóloga insistisse em mostrar a ela como precisava seguir em frente.

– E foi aí que eu dei a dica de ouro – interviu Ricardo.

– Que p… – ia falando Isabella quando o pedido de Ricardo chegou à mesa.

– Como foi isso mesmo? – perguntou Tiago.

– Foi quando numa das consultas, a mãe dele se atrasou e Ricardo apareceu no consultório antes dela. Pareceu cena de série ou filme – comentou Alexa.

Ricardo se levantou da cadeira e gritou:

– Narrador, ao som de New Divide, Linkin Park, por favor.

Ao som de New Divide, Ricardo entrou no consultório.

– Ah! Qual é!? – reclamou Isabella. – Não é a música que eu imaginaria para essa cena.

– Eu sou o personagem principal dessa cena, eu tenho o direito total de escolher a música de entrada.

– Mas eu que vou escrever a história…

– O quê!? Você prometeu… – interrompeu Tiago.

– Droga… – reclamou Isabella.

– Qual a música que você imaginou pro Ricardo? – Alexa quis saber.

– Zeca Pagodinho? – arriscou Tiago.

A Thousand Miles, Vanessa Carton.

– Qual? – perguntou Alexa de novo com uma cara nada satisfeita.

– A música de As Branquelas.

Por um segundo todos reimaginaram a cena de Ricardo entrando no consultório mas com essa música e ele cantando.

– Aaaaah! HA!HA!HA!HA! – Alexa não conteve a gargalhada e até mesmo Gaspar parecia rir por trás do balcão.

– Idiotas – reclamou Ricardo irritado.

– Então, consultório… – voltou Isabella ao assunto.

– Consultório…

Ricardo continuou contando como entrou no consultório e viu Alexa. Ele sabia que o único progresso que ela não estava tendo era com relação a achar que jamais namoraria – não queira saber como ele descobriu, sua mãe mantinha o sigilo por mais curioso que ele fosse. Naquele dia, ele havia decidido intervir.

– Tem coisas que minha mãe nunca vai te contar porque é muito educada. Alguns conselhos ela jamais daria pra pessoas como você, por mais que você precise ouvi-lo muito alguma vez na vida.

– Talvez esse momento seja agora – Alexa pediu com os olhos que ele dissesse.

Ricardo sentou-se no banco da frente e encarou ela nos olhos.

Um silêncio tomou conta do consultório, a música na mente de Ricardo havia cessado. Ele respirou fundo se preparando para dar a sua dica de ouro para Alexa, então rapidamente disparou:

– Deixe de ser besta!

Alexa ficou boquiaberta. Ricardo tirou uma foto com o celular.

– Quê!?

Ele rapidamente escondeu o celular e prosseguiu com o assunto.

– Você é uma pessoa criativa e sensacional, Alexa, só você não vê isso! Você era a melhor desenhista do colégio, não era boa com esportes, mas era gentil, suas amigas a admiravam e adoravam te contar seus segredos porque você era fantástica. Aí no fundo você ainda é! Não fica se martirizando por causa de um cara que não gosta de você, deixa ele ser feliz do jeito dele e você procure ser feliz do seu jeito! Não é o fim da vida só porque alguém te deu um fora.

Naquele dia, Alexa se despediu de Gabriela certa de que algo havia mudado. Ela não precisou voltar para a terapia na semana seguinte.

No Sushi Bar, Isabella olhava incrédula para Ricardo.

– Esse idiota realmente te ajudou…

– Sim – disse Alexa rindo – eu devo a ele a melhor dica que eu poderia ter escutado naquele momento da minha vida.

– Inacreditável…

Um tumulto começou a surgir no bar, bem onde estava o garoto que Isabella admirava alguns minutos antes.

– O que está acontecendo com meu crush? – perguntou Isabella.

– Acho que ele está se ajoelhando – comentou Ricardo.

– Alexa, aquele não é…? – ia dizendo Tiago.

– Sim, é o Cícero.

– O quê!? – berrou Isabella. – Meu crush era o seu crush?

– É, parece que era, só percebi agora.

– Caramba! – berrou Isabella de novo.

Cícero estava pedindo sua namorada em casamento ali mesmo.

Alexa estava feliz por Cícero, os anos apenas lhe mostraram que sua amizade bastaria, que superar aquilo não era impossível, que podia desejar o melhor a ele e seguir em frente. Ela só queria que a Alexa de 18 anos tivesse percebido isso logo.

– Como você se sente com isso? – perguntou Isabella.

– Muito feliz por ele e esperando o dia em que isso vai acontecer comigo…

– E se não acontecer…

– Tudo bem se não acontecer, mas eu acredito que vai, isso que importa.

Todos aplaudiram o novo casal de noivos e Alexa foi parabenizar seu amigo pela futura etapa de sua vida.

Acredite, você não é o único que já deve ter se desesperado por um amor, por ter imaginado que sua vida jamais ganharia um novo significado. A vida é cheia de surpresas e reviravoltas.

– Achei! – gritou Ricardo.

– Ah, não! – berrou Alexa.

Ricardo mostrou a foto que havia tirado de Alexa quando deu a dica de ouro a ela.

– Eu disse que era o protagonista desta parte e que ainda não acabou? – acrescentou  Ricardo.

– Não acabou? – perguntou Isabella.

– Não.

– O que aconteceu depois disso?

Alexa e Ricardo olharam para Tiago e sorriram juntos.

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A Vida de Alexa e Tiago

A dica de ouro (parte 2)

Capítulo anterior: A dica de ouro (parte 1)

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