O homem e suas formigas

Um homem tinha uma criação de formigas.

Ele cuidava delas com tanto carinho que passava horas dos seus dias admirando-as através dos vidros e alimentando-as, sustentando-as de forma simples, sem muita intrusão, providenciando o básico e deixando-as fazer o seu serviço. Oh, como ele as amava.

Um dia, as formigas se rebelaram.

– Deixe-nos sair daqui, seu idiota! – gritaram elas.

O rapaz ficou atônito. Não conseguia entender o motivo de tanta revolta.

– Você é um tirano! – gritava Joaquim, a formiga.

– O que vocês querem que eu faça? Eu dou tudo o que vocês precisam pra sobreviver.

– Queremos liberdade – gritou a rainha.

– Mas vocês são livres, podem fazer exatamente o que quiserem fazer, eu não obrigo nenhuma de vocês a fazer o que eu peço. Cada um faz como quer.

– Ditador! – voltaram a gritar as formigas.

O homem gostaria que elas entendessem o amor que tinha para com elas, mas parecia inútil falar. Decidiu que se pudesse, renasceria como uma formiga para lhes mostrar o quanto de consideração e carinho tinha por elas. Ainda assim, as teimosas insistiriam em não entendê-lo, matariam seu criador se fosse possível.

Seu amor era tão sincero que decidiu tirá-las do aquário, mesmo sabendo o quanto isso seria ruim para elas. Tudo o que podia fazer era respeitar seu desejo, explicou todos os riscos.

– Lá fora é perigoso, vocês podem morrer.

– Não importa, cansamos de você – respondeu Joaquim. – Você acha que é quem pra dizer o que devíamos fazer?

Nem todas as formigas concordavam com a ideia de saírem dali.

– Covardes – gritava a rainha. – Vocês preferem ficar sob o reino desse tirano ou ter liberdade ao meu lado?

As formigas se dividiram entre si.

– Farei como pedem – disse o homem. – Eu vou sentir muito a falta de vocês.

– Falso! – repelia a rainha.

– Você diz que nos ama mas é só um egocêntrico que quer toda atenção e adoração só pra você – berrava Joaquim.

O homem ainda não acreditava em quanta injustiça estava ouvindo, mas amava tanto aqueles pequenos seres que só podia respeitar sua decisão. Ele permitiu que aqueles que quisessem ficar no aquário poderiam ficar.

– Todos vocês nasceram para ficar aqui, escolhi vocês para isso.

– Você é teimoso mesmo, né? – replicava a rainha. – Já chega dessa ladainha.

Chegou o momento em que o homem as levou até um terreno cheio de árvores, flores e lagos, uma perfeição da natureza.

– É exatamente isso que queremos.

O homem as colocou no chão e abriu a porta do aquário, deixando-as livres para seguir como quisessem. E elas foram.

– Estamos livres finalmente!

Contemplaram aquele pequeno mundo e saíram a explorá-lo. Quantas cores. Espalharam-se enquanto o homem fechava a porta do aquário e se retirava para casa com as remanescentes. Mas ele sentiu a dor de perder suas filhas, então decidiu ficar ali por mais alguns instantes.

Joaquim olhava para uma árvore imensa e se perguntava o que era aquilo. A rainha já havia instituído novas regras. Façam o que quiserem, dizia. Alguém a questionou se não deviam separar soldados e obreiras para coletar comida e instituir um formigueiro.

– O mundo é o nosso lar agora, temos comida o suficiente por aí, cada um pode cuidar de si mesmo.

Alguns não gostaram da ideia e partiram em busca de alimento e lar. Perceberam o quão frio aquele lugar era e quão difícil poderia ser.

Joaquim escalava a árvore com seus companheiros quando se depararam com uma estrutura bem montada com pedaços de capim e palha envelhecida. Que arquitetura única. Aproximou-se lentamente e observou estruturas ovalares coloridas desde o azul ao vermelho dentro daquela espécie de cesto.

– Impressionante! – comentou Joaquim.

De repente, um estrondo no ar assustou as pequenas formigas.

Uma criatura enorme pousou diante delas. Era um pássaro, o dono daquele ninho.

– Olá, majestoso deus, que asas impressionantes você tem – comentou Joaquim, ignorante ao pássaro. – Será que poderíamos andar por aqui um…

Uma bicada silenciou Joaquim. As demais formigas ficaram aterrorizadas e começaram a fugir, mas a fúria do pássaro era tremenda. Ele as devorava sem piedade e se deliciava com o alimento. Sua crueldade era tal qual as demais formigas estavam passando naquele instante. Em outros lugares, teias de aranha prendiam algumas delas, insetos maiores as devoravam sem piedade e uma serena chuva ameaçava a existência de algumas delas.

O homem assistia aquilo com o coração doendo, até que ouviu uma delas pedir socorro.

– Ajude a gente, por favor!

Imediatamente o homem correu para suas pequenas que lhe imploravam por ajuda, tentando fugir da chuva. Ele as pôs numa folha e as retirava dali conforme solicitavam.

– Não vou voltar para aquele lugar – algumas ainda gritavam antes da chuva inundá-las ou de algum animal maior as devorar.

O homem salvou aquelas que tão somente reconheceram seu favor. Ele lamentou por todas aquelas que se deixaram levar pelo orgulho e padeceram.

Enquanto se preparava para ir embora, sentiu uma leve picada no tornozelo e constatou que era a rainha das suas formigas.

– Seu idiota! Você nos trouxe aqui para morrer.

– Precisa de ajuda, rainha? – o homem estendeu a folha para ela.

– Não! – a rainha urrava e o mordia, tentando machucá-lo. – Seu tirano, eu vou te matar!

O homem sentia uma leve fisgada, mas doía-lhe mais a rebeldia e a falta de compreensão de sua filha do que a dor que ela tentava lhe infligir com suas palavras vazias e suas ações violentas.

A chuva piorou.

– Vamos, rainha, precisamos sair daqui.

– Nunca! – manteve-se firme em sua rebeldia.

– Tudo bem – o homem lamentou, removendo a rainha gentilmente de seu tornozelo nem um pouco machucado. Ele a colocou no solo e se despediu. – As minhas filhas precisam de cuidados, preciso ir, adeus, formiga.

O homem partiu dali deixando aquela formiga aonde exatamente ela queria estar. Se tão somente não tivesse sido orgulhosa, teria ido junto com aquelas que se arrependeram.

O ser humano é exatamente assim com Deus. Ele tenta causar dano a Ele mas não é capaz de compreender sua grandeza, não sabe o quanto de responsabilidades e cuidados com seu Universo tem, tampouco entende o carinho e amor que tem para com cada uma de suas criaturas. Considera seu Criador como injusto, tirano, ousa questioná-lo sem respeito algum – enquanto Ele se dispõe a sanar suas dúvidas e conversar – e tem até medo de se aproximar Dele como se uma experiência com Deus fosse uma coisa terrível. O ser humano prefere se entregar a um mundo cheio de ninhos e teias de aranha prontos para devorá-lo.

Que barreira te impede de buscar a Deus? É teu orgulho? É teu ceticismo? É o medo? Por que insistir em debochar Dele e desrespeitar aqueles que acreditam no seu amor?

Até o último momento, Ele estará lá com a mão estendida, pronto pra resgatar a menor e mais teimosa das formigas, mas Ele jamais vai te forçar a isso. Como entender afinal o amor de alguém sendo nós tão pequenos nesse Universo?

Não somos dignos e ainda assim Ele nos ama tal qual o homem e suas formigas.

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close up photography of red ant on green leaf

 

 O homem e suas formigas

Por André Basualto

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