Aprenda com suas derrotas

Algumas vezes somos orgulhosos o bastante para não admitirmos nossos defeitos ou nossas derrotas, somos pessoas que nos envergonhamos de contá-los ou até mesmo de perceber o quanto eles podem nos prejudicar, e acabamos nos tornando arrogantes por isso.

Tiago sabia que teria que falar resumidamente disso ao contar para Isabella o que exatamente estava fazendo enquanto Alexa estudava Enfermagem e se apaixonava por Cícero. Ele começou a contar sobre o ano de 2010 dele.

– Eu e Alexa não nos conhecíamos ainda, apesar de que devemos nos ter esbarrado por aí antes sem nem perceber.

Na verdade, Tiago e Alexa literalmente se esbarraram em 2010, numa livraria, enquanto ambos procuravam pelos contos de Machado de Assis e os poemas de Pablo Neruda, e enquanto Tiago fingia ver algumas histórias em quadrinhos mas buscava dar uma espiada nas capas da Playboy. Mas eles não lembram disso.

– Eu estava na mesma Universidade que Alexa, mas em outro curso totalmente diferente – continuou Tiago. – Eu havia acabado de começar a cursar Engenharia da Computação.

O ano era 2010, Tiago era uma garoto magrelo que parecia mais uma criança perdida no Campus, ele andava em bando com seus outros colegas e de mochila, carregando livros de um lado a outro – o típico calouro.

Ele era focado e se dizia racional, mas era um retardado fingindo que estudava numa faculdade, ele jurava que seria o melhor dos alunos, mas sua primeira nota da faculdade foi um belíssimo 2,75.

– Pi teria feito melhor – falou seu professor.

– Pi? – Tiago perguntou inocentemente.

– Sim. Ele teria tirado 3,14. Ha-ha-ha! – e o professor começou a rir sozinho enquanto Tiago consumia uma raiva por dentro.

Em 2012, quando o filme As Aventuras de Pi estreou nos cinemas, o professor parou de fazer aquela infame piada porque foi processado por um aluno indiano, uma história que não faz sentido nenhum contar e nem ela mesmo tem sentido algum, até agora ninguém sabe exatamente o que aconteceu e ninguém nunca descobriu o motivo de sua fascinação por Pi.

Mas em 2010, toda vez que um aluno tirava uma nota baixa, além de ouvir a piada sem graça do professor, sua certeza de que formaria em cinco anos caía por terra. Essa era a lendária terra da Engenharia, professores esquisitos e alunos sem esperança.

Tiago já havia aceitado seu destino e decidiu seguir a vida como os demais alunos, sua frustração por aquela nota ruim o fez procurar outras atividades dentro da Universidade para não desanimar, então dedicou-se às disciplinas paralelas, optativas mas essenciais. Dominó I e Princípios do Poker se tornaram suas disciplinas favoritas.

E foi ali que o destino lhe trouxe um desafio inesperado.

Tiago seguia firme e forte no Poker e acabou entrando em uma aposta alta. Três reais e uma caixa de chocolates, tudo o que tinha, foi o valor que dedicou ao jogo. Ele era bom, aprendeu a jogar rápido e derrubou a maior parte dos adversários, mas um deles era perspicaz.

– Não ache que porque você é rico que você vai ganhar de mim, playboy! – ameaçou Tiago para o seu adversário.

– Você sabe que isso é só um jogo, né? – perguntou o rapaz moreno de cabelo liso curto. – Qual seu nome mesmo?

– Tiago, mas pode me chamar de “aquele que vai te humilhar aqui”! E você, nobre inimigo?

– Eu me chamo Ricardo – e ele deu um sorriso provocador.

Sim, era o mesmo Ricardo que estava sentado na mesa de bar enquanto Tiago contava essa história para Isabella.

– Espera… – Tiago ficou pálido. – Ricardo, o Coração de Leão?

– Ora, ora – Ricardo admirou-se ironicamente. – Parece que meu nome começou a se espalhar.

– O Ricardo que faz Engenharia Civil, e tirou a maior nota naquela prova?

– O único que humilhou Pi na primeira prova em anos.

– NÃO! – Tiago começou a suar frio. –  Aquele a quem o professor fez questão de chamar de “Pi-tágoras”?

– O próPIo – respondeu Ricardo.

Aqueles que estavam assistindo o jogo começaram a cochichar. Eles não sabiam que aquele playboy era o cara mais inteligente daqueles calouros.

– Esse jogo ainda não acabou – anunciou Tiago.

– Você fala isso mas está quase fazendo pipi nas calças – e Ricardo dava uma risada quase maléfica.

– Você sabe blefar bem, mas é péssimo contando PIadas.

– E você está prestes a perder.

Aquele era o momento de entregar o jogo ou arriscar uma vitória. Foi quando Tiago percebeu que o jogo o havia consumido, que aquilo não ia melhorar nota alguma dele e que ele não era tão inteligente quanto pensou que era. Enquanto seu subconsciente tentava lhe ensinar uma lição, Tiago se colocava a fazer uma escolha muito importante pra sua vida.

– Dane-se!

Tiago lançou suas cartas na mesa, tudo o que ele tinha era uma carta de cinco e seis de copas. Ricardo olhou para ele desconfiado e boquiaberto.

– É sério? – ele perguntou para Tiago. – Essa gritaria toda só por isso?

– Eu sei que você não tem nada demais, você só ganha dos outros no blefe…

Ricardo lançou mão de um rei e um valete de paus e completando as cartas da mesa num straight flush. Tiago ficou de queixo caído.

– Parece que eu ganhei…

– Ora seu PIrralho!

Tiago saiu dali bufando. Os alunos ovacionavam Ricardo.

Alguns minutos depois, enquanto Tiago olhava a movimentação do campus, Ricardo sentou-se do seu lado e ofereceu a caixa de chocolate a ele.

– Você é determinado – comentou Ricardo. – Vai, escolhe um.

Tiago olhou desconfiado para ele.

– Não PIore a situação pra mim… eu perdi feio – admitiu Tiago.

– Feio é você tentando falar PI pra tudo.

– Você também faz isso direto, idiota.

– Eu preciso mesmo parar com essas PIadinhas

Ambos começaram a rir. Tiago pegou um chocolate em sinal de paz.

– Eu adoro chocolate, cara. Perder aquilo que eu gosto numa aposta não é bem o tipo de coisa que eu esperava fazer.

– Cara, apenas aprenda com a melhor pessoa de todas – sugeriu Ricardo.

– Com você?

– Não.

– Com quem, então? – perguntou Tiago.

– Com você mesmo, com suas derrotas – Ricardo respondeu levantando-se e deixando a caixa de chocolates do lado de Tiago. – A gente joga de novo outro dia.

Tiago ficou ali pensativo enquanto via o estranho Ricardo indo embora, aquele playboy não parecia ser tão arrogante assim.

Aprender com as derrotas é importante, mas para isso é preciso primeiro aceitá-las. Assim também são nossos defeitos, podemos aprender com eles, mas só poderemos lidar com tais características quando aceitamos que elas existem. Tiago ainda não sabia, mas aquela derrota e os fracassos seguintes da vida o permitiriam enxergar um de seus defeitos mais autodestrutivos, um defeito que escondia atrás da arrogância de um calouro.

No Sushi Bar, Isabella se adiantou.

– O que você aprendeu afinal?

– Reconheça suas derrotas, é melhor aceitar e aprender com o erro do que se manter como um tolo arrogante. Afinal se existe algum problema, é melhor enfrentá-lo do que ignorá-lo pelo resto da vida.

– E qual era esse problema?

Tiago deu uma olhada no relógio para se certificar de que teria que contar aquela história ali mesmo ou do contrário Isabella o incomodaria pelo resto da semana. Aceitou a atual situação e decidiu continuar a história.

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A Vida de Alexa e Tiago

Aprenda com suas derrotas

Capítulo anterior: A garota curiosa

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