A garota que insistiu no seu sonho – parte 1

O despertador tocou às nove da manhã. Empolgada, uma mulher se levantou para tomar seu banho, degustar seu café da manhã e cuidar de suas atividades de rotina antes de se arrumar para ir para o trabalho.

As manhãs a deixavam animada pelo dia que poderia viria pela frente. Ela adorava ouvir música e cantar alto pela manhã porque sabia que às dez da manhã ninguém se importava com um vizinho cantando.

O almoço podia ser algo que ela mesma preparava, ou poderia sair para almoçar e então se dirigir ao trabalho logo em seguida. Antes disso, mandava uma mensagem para seus pais para saber se estava tudo bem e se precisavam de alguma coisa.

O trabalho começava exatamente às 13 horas. Ela batia o ponto e ia até seu posto de trabalho, onde ficava até às 19 horas, quando não se estendia pela noite, e então voltava para casa para estudar ou fazer mais alguma coisa que achasse útil para seu dia, inclusive relaxar lendo o que lhe fosse agradável ou que chamasse sua atenção.

Em geral, a rotina de Alexa era assim. Às vezes passava em frente ao cursinho onde passou seus dias de estudante se esforçando para alcançar seus sonhos, e agora, ali estava, formada. Alexa Silves era médica.

A garota que insistiu no seu sonho tinha uma rotina totalmente diferente de quando era estudante. Era uma rotina mais leve, uma vida com portas mais abertas e maiores possibilidades. O que não mudavam eram as preocupações e ansiedades. Alexa por sorte era uma pessoa otimista, mas eventualmente ansiosa, uma essência que poderia se moldar ao longo do tempo mas da qual ela era formada, e isso refletia na sua vida independente da época em que vivia.

Alexa era agradecida pelas bênçãos daquilo que tinha e pelas conquistas que havia adquirido, mas algo lhe faltava e ela não sabia dizer bem o que seria, e isso a deixava ansiosa.

Naquele dia, logo após mais uma noite no Sushi Bar com os amigos, Alexa estava se preparando para ir trabalhar, um dia em que esperava estar de folga. Infelizmente a escala havia mudado de última hora e ela precisava estar no hospital naquela tarde.

Olhou para o céu pela janela e viu as nuvens se formando.

– Vai cair uma chuva daquelas…

Ela começou a arrumar suas coisas e parou em frente ao espelho ainda de camisola. Ficou olhando para o seu corpo. Não o achava tão esbelto mas gostava das curvas que se formavam na sua cintura com o quadril. Os cabelos estavam bem compridos e estavam desarrumados.

– Olhe pra você, Alexa, acho que precisa voltar pra academia e ir no salão arrumar esse cabelo. Não vai arranjar nenhum pretendente nem contatinho desse jeito – Alexa riu consigo mesma. – Mas agora é hora de ir trabalhar e ajudar as pessoas.

Ela tirou a roupa e foi para o chuveiro. Passou alguns minutos embaixo da água morna e logo se retirou. Alexa olhou para o relógio para garantir que ainda teria tempo de ir almoçar com Isabella. A ousada Isabella, a garota de quem Alexa havia salvo a vida fora de um hospital, a garota que era muito grata pela sua ajuda em um momento muito difícil de sua vida.

Terminou de guardar seus pertences e estava pronta para sair. Deu uma última olhada no céu, agora cinza e pesado. Ligou para Isabella e pediu para que esperasse na frente do seu condomínio que logo ela estaria saindo para buscá-la.

Não demorou muito para que se encontrassem e Isabella entrasse no carro de Alexa, feliz por reencontrá-la.

Alexa olhou Isabella de cima a baixo. Usava um tênis branco, vestia um short curto com as barras desgastadas e uma parte rasgada, uma blusa de manga comprida preta bem decotada e os cabelos amarrados estilo Maria Chiquinha. A maquiagem um tanto pesada destoava ainda mais aquele estilo esquisito – uma sombra azul escura sobre os olhos e o batom vermelho carmesim.

– Por que o estilo meio gótico meio sei lá? – perguntou Alexa.

– Vou encontrar com um roqueiro no shopping depois que almoçar com você…

– Um roqueiro?

– Um velho amigo – Isabella respondeu piscando.

– E o que isso tem a ver com a roupa?

– Por que está me julgando? – questionou Isabella. – Parece minha mãe perguntando…

– É que você ainda não recuperou toda a minha confiança ainda, cheirosa – respondeu Alexa. – Tudo o que você faz pra mim ainda é suspeito.

Isabella puxou um pequeno espelho da bolsa e ficou se encarando.

– Eu não tô gótica, eu tô? – questionou Isabella.

– Não – respondeu Alexa. – Eu só achei o estilo ousado.

– Você sabe que eu gosto de provocar.

– Por isso seus peitos dizem: olhem pra mim!

– Isso mesmo! – disse Isabella ajeitando a altura do decote. – Gostou, Alexa?

– Acho que está bom pra quem vai se encontrar com um velho amigo.

– Vulgar?

– Você está pelada fazendo coisas imorais?

– Não.

– Isso responde a sua pergunta – Alexa aproveitou o sinal vermelho para olhar para Isabella e dar um sorriso. – Você tá arrasando, garota!

– Obrigada! Já pode parar de olhar pros meus peitos e olhar pro semáforo.

– Mas ainda tá fechado e melhor par que eles só os meus… – Alexa começou a rir, estava de ótimo humor e feliz por estar indo almoçar com sua amiga.

Chegaram ao shopping e procuraram um restaurante para almoçar.

Enquanto esperavam a comida ficar pronta, Isabella foi direta na pergunta.

– Então, quer dizer que a senhorita Alexa passou um ano de cursinho ralando muito?

Alexa ficou desconcertada com a pergunta abrupta, mas decidiu responder e contar a história brevemente.

– Eu fiquei aquele ano inteiro evitando saídas desnecessárias, mas em episódios extremos de estresse e em alguns sábados à noite eu saía um pouco pra respirar, pra espairecer a mente e relaxar um pouco, eu sabia que não era tão saudável ficar trancada tanto tempo dentro de casa… – Alexa fez uma pausa e por um instante, Alexa ficou intrigada com uma coisa. – Isabella, quem é esse roqueiro?

Isabella bebia água quando ouviu a pergunta e quase se engasgou.

– Eu não sei se você conhece ele…

– É o que eu estive me perguntando até ainda agora.

Alexa ficou encarando Isabella, que foi salva pelo garçom chegando com a comida.

– Olha que rápidos que foram! – comentou Isabella desviando o assunto.

Alexa olhou para o relógio e viu que não tinha muito tempo para interrogar Isabella naquele almoço, ela ainda precisava trabalhar. Por dentro amaldiçoou o relógio e o responsável pela escala.

As duas degustaram a comida e o celular de Alexa notificou com um lembrete que faltavam quinze minutos para começar o plantão.

– Eu conheço o dono do shopping – Alexa ameaçou – e vou pedir as gravações das câmeras pra ver se você se comportou…

Isabella riu alto.

– Se eu quisesse aprontar iria pra outro lugar e estaria com menos roupa com certeza.

Alexa a encarou.

– Tudo bem – continuou Isabella. – Ele não é roqueiro, e eu confesso que não sei como impressionar ele, mas eu achei que devia me encontrar com ele ou tentar impressioná-lo pelo menos um pouco.

– Quem é afinal? – Alexa insistiu.

– Você está atrasada. Foi bom te ver! – Isabella abraçou Alexa. – E obrigada pela carona – e deu um beijo no rosto dela e se despediu.

– Essa garota não tem jeito…

Dali, Alexa foi até o hospital. O céu já estava completamente carregado e começava a precipitar pequenas gotículas. Quase se atrasou por causa do trânsito, mas conseguiu bater o ponto a tempo de se arrumar para ir até o pronto-atendimento do hospital. Chegou no setor e cumprimentou os enfermeiros e técnicos presentes e deu um olá bem humorado para os colegas de plantão que estavam saindo do turno da manhã. Eles passaram para ela os casos que estavam em observação ou aguardando internação. Conforme a equipe da tarde chegava, Alexa repassava para os demais colegas os casos que deveriam assumir.

Alexa viu Cícero passando pelo corredor com alguns de seus alunos de Enfermagem e o cumprimentou por detrás do balcão.

– Esse é um de nossos melhores enfermeiros da equipe, pessoal – falou ela. – Aproveitem e aprendam bastante com ele. Se tiverem pelo menos metade do amor que ele tem para com a Enfermagem vão ser ótimos profissionais.

– Deixe disso, Alexa – replicou Cícero rindo. – Exagerada.

– Não estou mentindo.

Alexa passou para avaliar alguns de seus pacientes antes de começar a ver os pacientes da tarde que chegavam ao hospital e organizou uma lista de prioridades e pendências para definir as condutas mais apropriadas e urgentes para o plantão. Viu o seu papel e respirou fundo.

– Ok, vamos ver como podemos ajudar esse povo!

Algumas suturas para se fazer, pacientes com suspeita de infarto, infecções generalizadas, crises asmáticas das mais intensas, reações alérgicas. A tarde ia se desenrolando de maneira típica até que a chuva começou a tomar conta da cidade lá fora e o céu se desfez pelas ruas, inundando-as. Logo, o fluxo de pacientes começou a diminuir, chegando apenas aqueles que realmente não podiam esperar para que a chuva se acalmasse.

Foi durante a chuva que uma ambulância chegou às pressas, com as sirenes cantando durante o trajeto inteiro e os pneus atritando com a água tentando não derrapar com o veículo. Ela parou bem na frente da Emergência e logo a equipe percebeu a movimentação do lado de fora.

– Parece que aí vem algo ruim – comentou Emília, uma das médicas que estavam de plantão com Alexa.

– O que será que é? – Alexa cochichou com um mau pressentimento.

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person using stethoscope on bear plush toy

 

A Vida de Alexa e Tiago

A garota que insistiu no seu sonho (parte 1)

Capítulo anterior: A garota que sonhava em ser médica

Toda semana um novo capítulo!

 

 

Link para a parte 2! Clique aqui!

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