A garota que insistiu no seu sonho – parte 2

O setor de Emergência não estava tão lotado, mas ainda havia uma boa quantidade de pacientes.

– Doutora… – alguém chamou Alexa.

Alexa olhou para as portas esperando o que viria por ali, então olhou para Emília.

– Pode ir ver seu paciente, Alexa, eu vejo o que vem aí – falou Emília. – Se for algo muito ruim eu prometo pedir sua ajuda.

Alexa deu um sorriso nervoso e foi ver seu paciente.

As portas da emergência se abriram e um médico do SAMU entrou junto com o enfermeiro empurrando uma maca. Alexa tentou ver o que era, mas justamente naquele momento seu paciente estava com muita dor e vomitando bastante. Emília se dirigiu para avaliar o paciente recém-chegado, ele respirava com muita dificuldade e puxava o ar como se ele não existisse no ambiente.

Alexa reavaliou seu paciente com dor e constatou que sua dor abdominal havia piorado.

– Vou precisar de uma tomografia pra avaliar seu abdome, meu caro – ela falou para seu paciente.

– E essa dor? O que pode ser, doutora? – perguntava o rapaz pálido e com a pele fria.

– Apendicite – respondeu Alexa diretamente, tentado voltar sua atenção para o paciente que havia acabado de entrar. Emília o estava conduzindo a Sala de Reanimação.

– É absurda essa dor…

– Eu vou prescrever um remédio mais forte, não se preocupe.

Alexa pediu licença e foi diretamente para o computador prescrever a medicação e entregou a prescrição na mão do técnico de enfermagem. Ela estava com um pressentimento bem ruim e se dirigiu diretamente para a Sala de Reanimação.

Ao entrar na sala, viu Emília examinando o paciente em cima da maca e se aproximou. O homem era um completo estranho, estava queixando de dores no peito e falta de ar, mas o real problema estava nas pernas e na cabeça.

– Acidente de carro – Emília falou. – Ele tentou desviar de um cachorro no meio da avenida e acabou se chocando com outro carro e capotando.

– Ele está muito dispneico… – comentou Alexa.

– Ele não estava assim ainda agora – falou o médico da equipe de resgate que pegou o estetoscópio e se aproximou para ouvir o peito do paciente. – O som está abolido do lado esquerdo…

– Pneumotórax – cochichou Alexa.

– Tragam o dreno de tórax! – ordenou Emília.

– A saturação está caindo – comentou Alexa.

A equipe começou a preparar o material para um procedimento de urgência. Emília e Alexa colocavam luvas e máscaras, preparando-se rapidamente. De repente, um grito do lado de fora preencheu o ambiente. Alexa sentiu um calafrio percorrer por todo o seu corpo, sua respiração se aprofundou.

– Alguém ajuda a gente, por favor! – uma mulher berrava do lado de fora da sala.

Um dos enfermeiros saiu correndo para ver o que era. Emília olhou para Alexa e falou:

– Deixa esse aqui comigo, pode ir lá!

Alexa balançou a cabeça e começou a andar até a porta com uma certa hesitação, com medo do que sua intuição lhe dizia. Um estrondo do lado de fora se seguiu ao som de bandejas caindo no chão.

– Gaspar! – gritou a mulher.

O coração de Alexa acelerou e a hesitação desapareceu. Ela empurrou a porta às pressas e saiu da sala vendo um homem alto e um tanto gordo caído no chão totalmente imóvel, era o Gaspar do Sushi Bar. Uma mulher de certa idade estava do lado dele e chorava muito.

– Alguém salva meu irmão, pelo amor de Deus! – a mulher implorava agachada ao lado dele.

Alexa respirava fundo. Não acreditava no que estava acontecendo, a tensão tomou conta do seu corpo, mas não havia momento para dúvidas.

– Gaspar… – ela cochichou correndo para perto dele.

Ela tentou chamá-lo. Gritou pelo seu nome e apertou seu peito tentando ter alguma resposta, então verificou o pulso no pescoço.

– Não! – berrou Alexa. – Sem pulso!

A mulher chorava ao lado de Gaspar. Cícero se aproximou com alguns técnicos e junto com outro enfermeiro para tentar carregar Gaspar para a Sala de Reanimação. Um deles puxou a mulher pela mão e pediu para que ela se retirasse naquele momento.

– Gaspar! Gaspar! – Alexa gritava enquanto começava a fazer a massagem cardíaca. – Pessoal, peguem um acesso e adrenalina, uma ampola agora! Alguém no relógio contando o tempo das compressões cardíacas e alguém pegue o desfibrilador! Temos uma parada cardíaca aqui! Não dá tempo de levar pra Sala de Reanimação.

– Vai precisar intubar ele, Alexa – comentou Cícero.

– Eu sei! Quem tá contando o tempo?

– Eu! – comentou um dos alunos de Cícero.

– O próximo nas compressões cardíacas se prepare! – ordenou Alexa.

A equipe prontamente se mobilizou. Os materiais estavam separados, a equipe posicionada.

– Acesso realizado!

– Dois minutos, doutora! Verificando o pulso e o ritmo no desfibrilador… Sem pulso! Assistolia. Revezando para as compressões!

Durante a emergência, cada um assume seu papel, seu posto específico, sua função. Acontece tanta coisa simultaneamente que é difícil dizer o que cada um está fazendo, exceto a própria pessoa que conduz sua função, mas cada um sabe exatamente o que fazer. Enquanto uma ampola de adrenalina é infundida pela veia do paciente com o coração parado, a adrenalina corre pelo corpo de cada um da equipe de emergência e os faz lutar pela vida daquela pessoa a todo custo.

– Vamos, Gaspar! – comentou Alexa trocando a luva e preparando o material de intubação. O medo a acompanhava, mas não era o medo que a dominava, era o desejo de salvar uma vida. Eram a coragem e a frieza de pensar independente do caos da situação e persistir lutando contra a morte que a dominavam.

Os minutos se passavam e os ciclos de massagem chegaram a exatos 10 minutos. Alexa conseguiu colocar o tubo para que Gaspar pudesse respirar melhor.

– Via aérea garantida! – Alexa disse após conferir os pulmões e enquanto se preparava para voltar para as compressões.

– Ok! Verificando pulso – gritou o rapaz que controlava o relógio.

Alexa decidiu verificar. Seus dedos estavam um pouco trêmulos devido a adrenalina, mas ela sentiu suavemente o pulso da artéria no pescoço.

– Temos um ritmo no monitor, parece sinusal… – comentou Cícero.

Alexa verificou o ritmo no desfibrilador e pediu que monitorizassem Gaspar e o levassem para Sala de Reanimação.

– Vamos fazer um eletrocardiograma e coletar sangue para exames laboratoriais – pediu Alexa. – Alguém ligue pro médico do CTI e peça pra entrar em contato comigo, por favor. Conectem um soro ringer no acesso, coletem uma gasometria arterial e meçam a glicemia capilar, preparem a sedação pra ontem!

Cada um se dirigiu às suas funções. Alexa olhou para Gaspar e segurou na sua mão.

– Eu tô aqui, não se preocupa – ela respirou fundo. Não podia chorar naquele momento. – Jamais desista da sua luta! Vai dar certo, Gaspar.

Aquela hora passou rapidamente e o fim do plantão era iminente.

– Alexa.

Ela se virou e viu Cícero na porta.

– A irmã dele quer ter notícias…

– Eu tinha esquecido dela, desculpa – Alexa respirou fundo.

– Pode deixar que eu fico aqui de olho e qualquer coisa te aviso.

– Obrigada.

Alexa saiu da sala, pegou o celular por um instante e mandou uma mensagem, então foi até a recepção. Ela viu uma mulher totalmente encharcada e tremendo sentada em um banco e chorando muito. Com certeza era a irmã de Gaspar, mas ela não a conhecia. Assim que a mulher a viu, aproximou-se com os olhos vermelhos e as lágrimas ainda escorrendo.

– Eu sou Alexa, a médica que atendeu seu irmão Gaspar…

– Como ele está? – perguntou nervosa.

– Numa situação bem grave – Alexa pigarreou. – Eu preciso saber o que aconteceu pra ter ideia do que ele precisa agora…

– Ele me ligou dizendo que sentiu uma forte dor no peito… Ele também tem um aneurisma de aorta e…

Alexa percebeu naquele momento que a situação era mais grave do que imaginava.

– Ele disse se a dor dele ia pra barriga ou algo do tipo? – Alexa inquiriu nervosa.

– Sim! – respondeu a irmã chorando.

– Eu preciso ir vê-lo de novo, eu volto assim que tiver novidades, está bem? – falou Alexa.

– Por favor, doutora, salve ele! – a irmã de Gaspar continuava chorando.

Alexa correu para a sala onde encontrou Cícero verificando a pressão de Gaspar. Ela estava baixa.

– Eu espero que não seja o aneurisma que tenha se rompido… – Alexa pegou o ultrassom e levou até Gaspar. – Que não tenha sangue no abdome, por favor…

Enquanto passava o ultrassom no abdome de Gaspar, Alexa verificava por possível sangramento, torcendo pra que aquele quadro não fosse pior do que imaginava. Se o aneurisma de aorta dele se rompesse, suas chances de sobrevivência seriam mínimas.

– Não tem sangue… – Alexa suspirou.

– Alexa, o resultado do eletrocardiograma… – Cícero se aproximou com o papel.

Ela observou as linhas e o ritmo que formavam.

– É grave, né? – perguntou Cícero.

– Ele infartou…

As 19 horas logo chegaram. A equipe da noite chegava e assumia o plantão. Alexa passou o caso do rapaz que estava com dor abdominal e constatou a apendicite, encaminhando ele para o cirurgião. Seu plantão acabava ali, ela bateu o ponto e voltou para a Sala de Reanimação junto de Gaspar. O paciente do acidente de carro estava sendo encaminhado para o centro cirúrgico, onde teria que passar por uma cirurgia de emergência por conta das lesões do acidente. O médico intensivista apareceu para avaliar Gaspar e disse que ele precisava ir para a hemodinâmica realizar um cateterismo de urgência. Alexa agradeceu pela ajuda e sabia que já estava tudo encaminhado, o que poderia ter feito ela fez.

Ela viu Gaspar naquela situação e lembrou que tinha que contar para a irmã o que estava acontecendo. Encontrou com ela ainda apreensiva na recepção do hospital e decidiu dar um abraço nela.

– Qual seu nome? – perguntou Alexa.

– Meu nome? – a irmã de Gaspar se assustou. – Meu nome é Marília.

– Marília, eu sou amiga do Gaspar há quase nove anos – ela tentou sorrir. – Eu fiz o que podia aqui e o que estava ao meu alcance, mas o estado dele é realmente grave… – Alexa soluçou. Ela queria chorar, mas sabia que ainda não podia. – Mas agora ele vai ficar aos cuidados de um cardiologista… Vamos estar rezando por ele aqui enquanto vou acompanhar ele até ficar mais estável, ok?

Marília abraçou Alexa com força e começou a chorar.

– Obrigada, doutora! Muito obrigada! Você é um anjo que Deus mandou, com certeza…

Uma lágrima escorreu pelo rosto de Alexa, mas ainda assim ela conteve o choro.

– Eu preciso ir vê-lo – Alexa disse. – Qualquer coisa eu venho te avisar.

– Por favor…

Alexa ia se retirando quando sentiu o celular tremendo no bolso. Ela viu uma mensagem e se dirigiu até o estacionamento por uma das saídas alternativas.

De longe, ela viu uma silhueta saindo de um carro acompanhada de outra saindo do lado do passageiro.

– Alexa?

Ao ouvir a voz de Tiago, Alexa não conteve mais o choro. Ela correu em direção a ele e o abraçou aos prantos. O que havia escondido de emoção fluiu junto com as lágrimas.

Médicos são frios, médicos são arrogantes, médicos não se importam com as dores dos outros e são gananciosos, são deuses que nem encostam no chão, só que não. Não é nada disso. Médicos não podem chorar na frente de seus pacientes ou serão considerados fracos, mas eles choram. Não deveriam se envolver demais porque podem tomar aquela dor para si mesmos e sofrer com ela também, mas eles se envolvem. Não deveriam ficar sem dormir direito pela própria saúde, mas passam noites acordados resolvendo problemas que às vezes nem são tão urgentes. Tantos problemas vividos, tantas situações, que alguns se fecham para os outros, fecham-se para si mesmos. A responsabilidade do tal sonho chega a ser tão absurda em alguns momentos, que se não houver válvula de escape, ela explode de dentro pra fora.

Mas Alexa não era só médica, antes de tudo ela era uma pessoa sensível também, sujeita aos erros, medos e fracassos inerentes a qualquer um, porque não existem deuses na medicina, existem bons e maus profissionais, e mesmo o melhor pode errar algum dia, e mesmo o melhor chora diante das dores que lhe afligem, porque já dizia um homem sábio: ainda que você conheça todos os mistérios e toda a ciência, se não tiver amor, você nada será.

De nada adianta insistir em um sonho se você não tiver amor pelo que faz, se não se dedica por aquilo com carinho e paixão. A garota que insistiu no seu sonho tinha tanto amor pelo que fazia sem nem saber que fazia aquilo instintivamente.

– Alexa?

Alexa ergueu os olhos pelo ombro de Tiago por um instante e viu de quem era a outra silhueta.

– Isabella?

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man pushing hospital bed

A Vida de Alexa e Tiago

A garota que insistiu no seu sonho (parte 2)

Capítulo anterior: Parte 1

Toda semana um novo capítulo!

 

 

two man and woman wooden couple keychains hanging on rope overlooking bokeh lights

 

Acesse aqui a lista completa de capítulos:

A Vida de Alexa e Tiago

Fatos de Alexa e Tiago

 

 

NA PRÓXIMA QUINTA-FEIRA, O DESFECHO DO ARCO “A GAROTA QUE VIROU MÉDICA”

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