A Primavera da Vida

Se alguém lhe dissesse que você encontraria o amor da sua vida na Primavera, qual seria sua reação? Ficaria ansioso? Bastante talvez, depende do quanto você espera por alguém, do quanto quer conhecer alguém que some junto à você e torne a vida mais colorida.

Seria muito fácil se soubéssemos quando vamos encontrar o amor das nossas vidas, seria até bom descobrir quem é, porque assim daríamos tudo de nós para manter aquela pessoa por perto, insistiríamos em permanecer na companhia dela, iríamos nos preparar para quando a hora de conhecer essa pessoa chegasse e nos doaríamos totalmente para esse amor sem duvidar.

Ah, se fosse fácil assim! Eu também achei que saber quando esse amor chegaria seria fácil. O problema é que as aparências enganam. Foi minha mãe quem disse pra mim que eu iria conhecer o amor da minha vida durante a Primavera. E eu gostaria que fosse simples como a troca das estações.

Meu nome é Fabiano, eu trabalho numa pequena banca de revistas em um shopping durante a tarde, enquanto de manhã estudo em um curso técnico. Eu aproveito para ler alguns quadrinhos, livros e revistas enquanto não aparecem clientes; agradeço ao meu chefe por essa oportunidade.

Minha rotina é calma e entediante, muitas das vezes deparo-me com a frustração de um futuro incerto e o medo de as coisas estagnarem em algum ponto da vida no qual eu não consiga seguir adiante, onde parece que tudo vai acabar do jeito que é e que por isso a vida não irá mais fazer sentido algum.

Em um dia quente e ensolarado, eu estava admirando algumas garotas bem bonitas enquanto saía do serviço e ficava pensando especialmente naquela morena que trabalhava numa loja de roupas e calçados. Ela podia ser o amor da vida, eu pensava enquanto admirava seus cabelos cacheados escuros e o delineado do seu quadril. Podia ser o par perfeito para ela, mas descobri que ela tinha namorado.

– Por que é tão difícil achar um amor que dure mais que uma estação? – reclamei ao chegar em casa.

– Ora, ora, você fala como se tivesse tido mais de uma namorada – minha mãe falou. – Espera aí, você nunca teve uma namorada.

– Não precisa me lembrar disso – eu reclamei fazendo bico.

– Por que se importa tanto com isso? A vida é mais do que isso! – ela replicou.

– Você não é feliz com o papai? – ousei perguntar.

– Claro que sou, pirralho – ela revirou os olhos.

Ela se aproximou e sentou do meu lado no sofá, encarou a mim e senti o seu olhar tentando adivinhar os meus pensamentos mais profundos.

– Vou te dizer uma coisa, meu filho, se você quer tanto assim um amor pra sua vida, não tenha dúvidas de que ele vai aparecer.

Engoli em seco e balancei a cabeça tentando acreditar nas suas palavras.

– Você vai encontrar o amor na Primavera da Vida – minha mãe disse. – Espere e verá, na estação em que desabrocham o amor e a alegria, as flores e pássaros vão colorir o céu e você vai encontrar no rastro de um perfume aquela moça que tanto deseja.

Suas palavras me deixaram um pouco menos aflito, senti uma breve calma inundando meu corpo, até que percebi um pequeno detalhe.

– Mãe…

– O que foi?

– Nós moramos em Manaus.

– E daí? – ela perguntou.

– Aqui só faz sol ou chove o ano todo – respondi.

– Não entendo o que quer dizer…

– Aqui não existe Primavera.

Um silêncio se fez presente na sala.

Alguns segundos de silêncio, então minha mãe suspirou.

– Boa sorte, então – ela disse saindo da sala.

Fiquei plantado no sofá por um instante, pasmo com aquela reação que acabou me desanimando.

– Como assim “boa sorte, então”? – eu gritei sozinho.

Você deve estar se pensando: mas, Fabiano, como pode acreditar em algo como isso? É só algo que sua mãe estava dizendo pra tentar te animar. E eu lhe respondo: sim, verdade, só tem outro problema, minha mãe nunca erra nas suas palavras e apostas. É como se ela fosse uma vidente ou algo do gênero. Ela sempre sabe onde achar as coisas que eu perdi, sempre tem os conselhos exatos para cada momento e meu pai só falta dizer “sim, senhora” toda vez que ela manda ele comprar algo pra comer quando ela não quer cozinhar mais. Ela é mãe, não tenho mais argumentos do que isso pra justificar sua sabedoria.

Bem, tudo isso não importava mais, naquele momento eu só queria lamentar sobre a sentença que foi lançada sobre minha vida.

– Não tem Primavera aqui, e agora, como vou encontrar o amor da minha vida? – eu bradei choroso.

O preço da Primavera é o Inverno, uma vez me disseram. Quando criança, assistia aos especiais de Natal na televisão e reclamava pros meus pais sobre a falta de neve na nossa cidade, entre outros detalhes norte-americanos.

– Por que não neva aqui? Por que não temos uma chaminé também? Como o Papai Noel entra se não for pela chaminé?

– Ora, meu filho, os presentes sempre chegam no Natal, né?

– Sim, mas eu queria criar um boneco de neve.

Quando criança, era com o Inverno que eu me importava, mas agora, a Primavera se tornara algo extremamente valioso.

Eu sempre achei a ausência das estações bem definidas um tanto injusta até crescer e parar de me importar com isso. Até começar a amadurecer, apesar da minha ingenuidade constante. Entretanto, ali estava eu de novo reclamando e tentando me lembrar de algo que eu já tinha aprendido antes.

Um dia qualquer simplesmente percebi que o que torna a Natureza tão peculiar são os seus diversos biomas pelo mundo, e que o ecossistema da Floresta Amazônica é único. Não existe uma Primavera bem definida, mas em determinada época do ano as flores do jambeiro surgem deixando os pátios e calçadas cheios do rosa em um espetáculo que atrai os beija-flores para suas pequenas e delicadas pétalas escondidas entre o verde escuro da árvore. Algumas flores duram quase o ano inteiro independente da época, elas só não são valorizadas como tal porque temos mania de valorizar o produto importado e não o natural do Brasil.

Mas pensar nisso não me ajudava nem um pouco. Se a Primavera não chegasse, eu corria o risco do amor da minha vida nunca chegar também.

– Céus! Raios e demônios! – eu bradava sozinho na sala enquanto ficava pensando em maneiras de trazer a Primavera pra minha cidade.

– O que tá resmungando, menino? – meu pai perguntou entrando em cena.

– Pai, como trazer alguma coisa pro Norte se nem o frete pra cá é de graça? – perguntei diretamente sem rodeios.

– Parece que quer trazer algo difícil pra cá… – meu pai respondeu.

– Quase isso.

– Ora essa, curumim, se é tão difícil assim trazer isso, por que não vai atrás então?

Foi quando uma lâmpada se acendeu sobre minha cabeça.

– Caramba, é isso mesmo!

– Isso o quê?

– O amor da minha vida não está em Manaus.

– É isso que você quer encomendar?

– Por que não tinha pensado nisso antes?

– Sabe que mulheres não são objetos pra serem compradas, né?

– Valeu, pai! – eu respondi correndo pro meu quarto.

– Parece que a puberdade finalmente atingiu o menino… – meu pai resmungou enquanto eu mudava de cenário.

Fui pro computador e comecei a procurar passagens para qualquer lugar que tivesse a Primavera. Mas era julho, é Inverno no hemisfério sul e Verão no hemisfério norte. A sorte conspirava contra o meu favor.

Comecei a procurar meios de conseguir uma passagem para o sul do país por volta do final de setembro, mas os preços estavam absurdos para um pé-rapado como eu. Mais uma vez, a sorte não conspirava para eu encontrar o meu amor.

– Preciso lutar por ele!

Decidi que iria arranjar um outro emprego para cobrir o horário da noite e poder arranjar as passagens para setembro. Levei quase dois meses procurando esse outro emprego e estava prestes a desistir quando uma oportunidade de viajar surgiu.

Era um sorteio anual para todos os funcionários do shopping com uma passagem garantida para qualquer lugar do Brasil com hospedagem inclusa durante uma semana. Era a minha chance! Tudo o que eu precisava fazer era baixar o formulário autenticado pela internet, preenchê-lo e levá-lo até a urna na gerência. O fato de autenticá-lo impedia cópias excessivas e fraude no sorteio, portanto, eu só tinha aquele único papel e uma única chance.

Baixei o formulário e o preenchi, mas justo no caminho para o trabalho, o ônibus entrou em pane e ficou parado bem no meio da avenida Djalma Batista. Não bastasse a pane, o céu começou a anunciar uma tempestade tropical e as pessoas já corriam pelas ruas fugindo dos ventos. Eu segurava na mão a pasta que continha meus cadernos de faculdade e o formulário.

Calculei quanto tempo levaria para chegar ao shopping se fosse a pé ou se arriscaria esperar outro ônibus, nenhuma das duas opções era boa o suficiente. Um homem andava na rua entregando folhetos de uma denominação religiosa e falando em voz alta:

– Quando o frio do desânimo e da frustração tomarem conta, não desista, existe sempre uma esperança!

Aquilo me aqueceu o coração e decidi que iria a pé e arriscaria pegar outro ônibus tão logo o trânsito fluísse.

Mas começou a chover assim que dei o primeiro passo. A chuva se intensificou mais e mais e minha pasta ficou ensopada e rasgou, deixando todos os papeis caírem na calçada molhada.

Chovia torrencialmente e parecia que não havia mais esperança, a minha última oportunidade de conseguir aquela viagem havia ido literalmente por água abaixo.

– Que esperança que existe num momento como esse? – perguntei com os olhos cheios de água.

Fiquei alguns minutos ali e decidi sentar no chão, eu estava desolado. A chuva começou a amenizar e um raio de sol saiu por entre as nuvens, refratando a luz num magnífico arco-íris. Olhei para o céu entre as árvores da avenida Djalma Batista e fiquei boquiaberto ao contemplar os ipês florescendo e os pássaros voando ao redor deles.

“Na Primavera da Vida”, lembrei minha mãe falando. E então, percebi que ela não estava se referindo literalmente à Primavera, mas sim à estação da vida em que descobrimos o que é o amor e procuramos sinceramente por ele.

Uma garota que passava com um guarda-chuva amarelo parou e me perguntou se estava tudo bem. Olhei para ela que parecia assustada comigo ali no chão, mas então ela deu um sorriso como nenhum outro.

Minha mãe estava certa, eu ia encontrar o amor na Primavera, mas não era na estação do tempo propriamente dita, mas na estação da vida, da juventude.

– Você tá bem? – a moça perguntou novamente.

– Estou – respondi serenamente. – Agora estou…

O amor é a Primavera da Vida, ela despede o inverno da solidão e anuncia as flores de uma nova estação. Foi no dia em que percebi que era meu coração que devia florescer que encontrei a chave para encontrar alguém que tanto iria amar.

 

cherry blossoms

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