Prima Vera

Eu detesto dias cinzentos, parece que a luz é tão fraca que não existe cor suficiente para preencher a existência. Antes fosse um dia chuvoso, frio, em que eu pudesse pegar uma xícara de chá preto e degustar de seu sabor com a quantidade de açúcar que me apraz. Mas não é um dia assim, é um dia cinzento. É sempre um dia triste, exceto por um única vez.

Era a reunião anual da família, que costumava acontecer no final do Inverno. Não era uma festa exclusiva dos membros do que meu avô chamava de clã, também participavam sócios, amigos e convidados da família.

Naquele dia eu a conheci.

– Você parece perdido – disse a garota que me cumprimentava. – Meu nome é Vera Verônica, e o seu?

– Boa noite, olá, oi, quero dizer, meu nome é Omar – eu respondi um tanto nervoso com aquela garota. Aos doze anos, eu era uma pedra para conhecer outras pessoas.

– Você parece legal – ela disse com um tremendo sorriso.

– Eu? Não, não, eu sou um banana – respondi sem pensar nas palavras que estavam saindo da minha boca. Vera Verônica começou a rir de mim ali mesmo.

Na época, ela tinha treze anos, tinha sardas que pareciam pequenas estrelinhas na sua pele cor de leite que facilmente ficava rosada, seu cabelo era laranja e os olhos pareciam duas esmeraldas cintilantes que iluminavam a alma de quem os visse. Usava um vestido vermelho e era muito animada. Impetuosa e sagaz, ela brincava com as outras crianças como se fosse a líder delas, criando inúmeras fantasias e jogos que simplesmente adoramos participar. Ela me cativou tão logo havia sorrido para mim.

Tudo isso naquele dia que deixou de ser cinzento. Infelizmente, aquele dia acabou.

Na volta para casa, não conseguia parar de falar para os meus pais o quanto aquela garota era incrível. Meus pais apenas riam me ouvindo e comentavam sobre as brincadeiras com ânimo, sem deixar de me ouvir um instante sequer. Quando terminei de contar toda a minha alegria, voltei a perceber que era um dia cinzento e a realidade prontamente voltou.

– Quando será que vou vê-la de novo? – cochichei comigo mesmo.

– Assim que acabarem as férias de Inverno – respondeu meu pai olhando pelo retrovisor do carro com a sobrancelha erguida curioso com a minha reação ao ouvir aquilo.

Algo brotou no meu peito, eu não sabia explicar o que era, mas meu coração palpitava.

– Sério? – perguntei.

– Sim, senhor! – meu pai enfatizou.

– Mas ela disse que ia embora.

– Pelo que os pais dela me falaram, ela viaja amanhã e volta na Primavera para estudar no mesmo colégio que você.

– Que demais! – eu comemorei sem parecer aquele garoto tímido de algumas horas atrás.

Descobrir que ela iria estudar na mesma escola que eu me deixou ansioso pelo fim das férias. Cada dia gerava uma nova expectativa e eu já sonhava com a volta às aulas, fosse com o reencontro dos meus amigos, a chance de falar novamente com Vera Verônica, até mesmo com pesadelos em que esquecia as calças em casa ou ia de pijama para a sala de aula. Aqueles dias passaram até rápido demais para mim.

O novo semestre letivo estava começando, e junto com ele, a Primavera.

Nada mais de dias cinzentos, dali em diante seriam apenas o Sol, o céu azul, uma eventual chuva ou outra e a Natureza remodelando todo seu layout para um tom mais alegre e aconchegante, onde não fazia nem muito frio nem muito calor, onde o vento na pele acaricia e te faz inspirar para senti-lo entrando e preenchendo seu peito, é quando o perfume das rosas começa a tomar conta dos parques e possui o olfato, a imaginação ganha asas ao contemplar todas as vívidas cores possíveis existentes e o canto dos pássaros se transforma em música. Que mudança incrível!

Atravessar as ruas floridas da cidade me fazia lembrar daquela garota tão intensa, pois as flores me lembravam a cor do seu cabelo. Conforme eu me aproximava da escola, aumentava no meu peito a expectativa por achá-la. Mal me despedi do meu pai e já fui correndo para o pátio, olhando para todos os lados esperando encontrá-la.

– Ei, Omar!

Eu rapidamente virei para ver quem me chamava. Não era ela.

– Oi, Tomás – respondi brevemente.

– Parece que tem mais flores esse ano por aqui não é?

– Mais flores?

– Sim! – ele respondeu com um tom malicioso e apontou para um grupo de garotas que se aproximava. Cada uma mais angelical do que a outra, mas nenhuma delas era aquela que eu procurava.

– Ah, é verdade – respondi brevemente.

Tomás ficou me olhando como se houvesse algo de errado comigo.

– Fala!

– O quê? – repliquei sem jeito e começando a andar em direção ao portão.

– O que tá escondendo?

– Nada, ora essa.

– Você olhar para as garotas novatas e não soltar nenhum comentário romântico é muito estranho! – Tomás exagerava.

– Não tem nada de estranho, é só que…

Parei de respirar naquele instante em que a vi sob as flores da cerejeira. Algumas pétalas caíam sobre ela, que lia sob a árvore mais bela do pátio da escola. Os raios de sol que atravessavam pelas folhas tocavam sua pele e reluziam junto com ela.

– Que anjo – falou Tomás.

– Perfeita – comentei.

Tomás me encarou e percebi que ele franzia a testa mesmo sem olhar para ele.

– É ela, não é? – ele inquiriu.

– Sim…

Meu melhor amigo me conhecia bem, ele sabia que uma vez por ano eu me apaixonava por uma garota nova a qual tinha o azar de nunca mais encontrar no ano seguinte ou mesmo nem conseguir dirigir uma palavra sequer a ela durante o ano inteiro, o que me fazia ser apenas um fantasma no encalço delas. Mas Vera Verônica era a primeira garota por quem eu havia me apaixonado que eu conhecia pessoalmente, com quem já tinha brincado e conversado mesmo que gaguejando algumas palavras, talvez fosse diferente com ela.

– Ela parece ser do nono ano.

– Ela faz catorze anos esse mês – comentei.

– Como você sabe disso? – Tomás ficou assustado. – Desde quando você fala com as garotas por quem se apaixona?

– Algum dia eu preciso falar, não é? – falei como se fosse alguém corajoso.

– Sim, mas você acabou de chegar, eu vi quando você passou pelo portão e parou aqui no pátio da escola. Desde quando você a conhece?

– Eu a conheci nas férias – respondi começando a corar. – Eu a vi uma única vez na festa anual da minha família.

– Ela não é sua prima?

– Não mesmo.

Por um momento considerei a possibilidade, porém logo a ignorei ao considerar que se ela fosse, seria de algum ramo distante da linhagem.

– Você bem que podia ter me chamado pra essa festa anual, já que é meu amigo – Tomás reclamou.

– Desculpa, Tomás, só os adultos podem convidar quem eles quiserem. Prometo que quando eu completar vinte e um anos eu chamo você pra uma das festas.

– Vou cobrar isso, hein? – ele me deu um soco leve no braço e voltou a encarar Vera Verônica junto comigo. – E aí, você vai lá falar com ela ou não?

Ela estava sozinha, o pátio era imenso, talvez ela fosse uma estranha para todas aquelas crianças e adolescentes e precisasse de uma companhia, eu poderia ir lá, eu devia ir lá, mas eu não fui. Um grupo de garotas logo se aproximou dela e todas conversavam rindo como se já fossem amigas dela há muito tempo. Fiquei observando aquilo por um momento, resolvi criar coragem e tentar de novo ir.

– Eu não consigo! – berrei ao lado de Tomás.

– Outra vez não… – Tomás colocou a mão no rosto lamentando.

Fiquei olhando para ele tentando dizer com o olhar de que eu ia lá de qualquer jeito, mas o sino da escola tocou e uma gritaria típica começou com todos correndo para dentro da escola. Observei Vera Verônica andando junto com aquelas garotas na direção oposta e então a perdi de vista.

– Você é um tonto, Omar – comentou Tomás.

– Você acha mesmo que uma garota um ano mais velha vai querer papo comigo?

– Por que não?

– Porque elas só gostam de caras mais velhos.

– Não, meu amigo – Tomás colocou as mãos sobre meus ombros e me encarou. – Elas não gostam de namorar com criança boba.

– Então eu nunca vou namorar com ninguém, porque eu adoro jogar videogame, jogar cartas e inventar jogos.

– Pelo amor da mãe do guarda! – Tomás revirou os olhos. – Não se trata disso.

– Do que se trata então?

– Quando você amadurecer talvez você entenda.

Tomás me deixou ali plantado e foi em direção a sala de aula.

Levei muito tempo para entender que era o agir como homem que definia o que elas gostavam, que meus passatempos não tinham nada a ver com isso, mas o modo como eu as tratava que importava. O problema é que eu demorei demais pra entender isso.

Aquele dia de Primavera no colégio foi o único que eu consegui encontrar Vera Verônica. Tentei descobrir por onde ela andava, com quem falava, mas cada vez que eu a procurava mais parecia que ela não existia e eu me sentia perdido de certa forma.

Nunca mais a vi depois daquele primeiro dia de aula.

Esperei reencontrá-la por acaso na festa anual da família, torcendo para que quem fosse que tivesse convidado ela e sua família no ano anterior tivesse lembrado de chamá-los novamente. Infelizmente não aconteceu nem aquele ano, nem no próximo, nem dali em diante.

A família fez um voto de mudar a festa do Inverno para a Primavera para que os mais idosos que vinham dos outros cantos do país não sofressem com o frio e aproveitassem mais aquela época tão especial do ano, pra mim uma das melhores e mais marcantes – tudo de bom acontece durante a Primavera.

Os anos se passaram e os dias cinzentos se tornaram raros, ainda assim eu os detestava com todas as minhas forças quando eles surgiam. Porém, o último que me recordo foi aquele maldito dia em que acreditei que não me apaixonaria por mais ninguém, que eu poderia ter todo o sucesso do mundo nos negócios mas não no amor. Um dia que se desvaneceu no momento em que eu vi aquele cabelo laranja passando por entre as pessoas da festa anual da família quando eu tinha vinte e um anos.

– Vera?

Eu tentei me desvencilhar da conversa que estava tendo com Tomás e um grande empresário que não parava de falar de si mesmo e já estava me irritando. Consegui após fingir que precisava ir ao banheiro – um truque que sempre dá certo – e saí pelo pátio procurando por aquela mulher de cabelos laranja.

Pela primeira vez desde que eu me entendia por gente, a festa da família estava sendo realizada a céu aberto no sítio do meu avô. Era impressionante como a luz verde e os holofotes sobre as árvores davam um aspecto mágico ao local. A relva era como um carpete e mesmo à noite, misturado ao vento gelado, a essência das flores perfumava o ambiente. Luzes amarelas, vermelhas, azuis e verdes em tubos de vidro decoravam o lugar como se as estrelas do céu infinito tivessem decidido passar a noite junto aos mortais.

– Você parece perdido – soou a sua voz delicada.

Olhei para trás e vi uma mulher de beleza estonteante usando um vestido vermelho que abraçava cada curva de seu corpo, um sorriso magnífico e um olhar que parecia invadir a minha alma. Ela parecia impetuosa e sagaz, tinha a impressão de que ela brincava no mundo dos negócios como se fosse um jogo para ela. Ela havia criado em mim inúmeras fantasias e sonhos e ainda me lembrava dos jogos de criança que havia gostado de brincar com ela quando eu tinha doze anos.

Uma alegria tomou conta de mim ao ouvir sua doce voz.

– Estive perdido procurando alguém por aí… – eu disse me aproximando dela.

– E você achou?

Cheguei perto o suficiente dela para poder contemplar seu rosto cheio das estrelinhas na sua pele, a boca vermelha, o cabelo caindo pelos ombros, seus olhos brilhando.

– Sim, eu finalmente te achei.

 

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