Eternidade

O que é a eternidade? Sempre me perguntei desde tenra idade. Parece um monte de tempo, lento, que não acaba nem se esvai, uma ampulheta infinita cujas areias parecem não se esgotar nunca, uma noção de tempo que um finito ser humano tampouco de entender não tem intento. Mas por algum motivo vivo pensando que a eternidade parece um sonho intrínseco ao coração humano, tal como se Deus houvesse colocado em nossa alma um desejo de continuar amando.

– Você tem medo de morrer?

Será se tenho? E se? A pergunta ecoa na minha mente enquanto me distraio com meus próprios pensamentos. Concentre-se.

Ergo a cabeça e observo a luz invadindo o palco. Sinto que meu olhar está perdido em meio ao público oculto na escuridão, aquelas pessoas invisíveis que observam cada ato, cada passo, cada ação.

O vestido vermelho paira no ar, já não estou usando o salto, sinto o caminhar leve, algo escorregadio, sinto-me afogada, mas não há mar, nem rio, apenas um sorriso sufocado. A coreografia em passos e compassos numa dança embalada por um ritmo arrítmico segue com cada tentativa de acerto e cada erro planejado.

– O que é a morte? – soa minha voz. – Como entender o que é a eternidade sem compreender o fim da nossa sorte?

– Por que labutar a mente sobre o fim quando já é curto viver o ínterim?

– Ora, Abelardo, por que incomodas uma princesa com tamanho enfado?

– Temo pelo seu fim, sei que falar disso não é do seu agrado.

Eis que entra um jovem a contracenar. Tem nas roupas as cores de um sabiá.

– Não desejo morrer, mas não entendo por que é tão errado filosofar sobre o contrário do nascer.

– Princesa, falar dos sortilégios não é um bom agouro.

– Cale-se e volte ao campo curtir o couro.

– Senhorita?

– Chega, Godofredo, saia daqui antes que eu lhe imponha o medo.

– De que me chamou, cara dama?

– Desculpe, Abelardo.

– Ainda o ama?

Permaneço em silêncio. Olho para o palco e entre a ficção e a realidade me questiono se ele está lá.

– Perdão, senhorita.

– Não há pelo quê.

– Sigo em meu caminho, comadre, mas não se esqueça de ir ver o padre.

– Considera-me ainda assim a amizade?

– Com certeza.

– E por que o padre?

– Para que não pereça no inferno sua beleza.

– Que contraditório.

– O quê?

– Perecer para morrer no inferno.

– Exagero de minha parte.

– Deus é bom demais para que permita sofrimento eterno.

– Mas é justo.

– E é compassivo.

– E o diabo é astuto.

– Tanto que vive de mentiras.

– Da eternidade do inferno duvidas?

– Puro embuste! Duvido que um Deus tão bom mantenha em castigo infinito seus filhos desobedientes.

– Mas não é Deus o responsável por isso, é o diabo.

– Pare de dar mais valor ao inferno do que o céu.

– Apenas não quero lhe ver no lugar errado.

– Pelos céus, saia daqui, insolente!

Abelardo meneia a cabeça em sinal de reprovação e se afasta, deixando-me sozinha com meus questionamentos.

– Por que tão tolo é o homem em acreditar em vãs filosofias? Oh, Deus, não permita que eu caia no engano nem nesta moléstia também, revela-me sempre a verdade e salve-me da falsa modéstia, livra-me da falta de empatia, amém.

O espetáculo se dissolve nas palmas dos espectadores com emoção. Nunca é fácil falar sobre a morte, a vida e as crenças, mesmo na ficção. Às vezes queria que minhas dúvidas e anseios fossem só uma ilusão.

As luzes se acendem, apenas gatos pingados, amigos e familiares que desfrutam de um entretenimento tão breve quanto a vida.

Prefiro seguir a sina, penso que chega de rima. As cortinas se fecham, os atores se juntam com alento, aguardam a ascensão dos panos que nos revelam aos aplausos dos poucos que ainda nos contemplam mesmo sem acreditar em nosso talento.

Ali ficam a sorrir e aplaudir. Sustento minha máscara invisível enquanto espero o momento certo de evadir.

Os minutos se passam enquanto os atores trocam o figurino, fico ali tentando ver algum menino franzino, aliás, que de franzino nada tem, já é na verdade um homem. Sinto a pontada na têmpora, que péssima hora.

– Maldita dor de cabeça, acho que é enxaqueca.

– Ele veio?

– Não sei.

O lugar é pequeno, minha vista ainda está turva, além da falta dos óculos minha dor me perturba. Lá do fundo não vejo o aceno. Apenas percebo o tamanho do lugar, e vejo o quanto estou longe dos meus sonhos verdadeiros. Almejo o dia em que me apresentarei no Teatro Amazonas, mas no momento me contento apenas com o Teatro Gebes de Medeiros.

– Sempre me pergunto o que um pássaro faz tão longe do ninho – é a voz dele, tenho certeza.

– É difícil viver da arte – respondo com firmeza.

– Não vale o sonho?

– Mais do que ser inerte.

– Verdade.

Surgindo das escadas ele vem, alto, bonito, com um sorriso no rosto e a simpatia no olhar, uma possível paixão palpitando no peito – não sei se no meu ou no dele.

– Achei que não viria.

– E perder mais um espetáculo da grande bailarina?

– Não sou tão boa dançando.

– Mas é perfeita atuando.

Sinto meu rosto enrubescer. Minha branca tez não me permite o rubor esconder. Percebo um sorriso se formando no seu rosto e vejo agora tão de perto aquele que confunde minhas emoções, também não compreendo suas intenções.

– Vamos sair para comer alguma coisa? – ele pergunta.

– Sim! – concordo com um sorriso meio falso.

Volto para o pequeno camarim para me trocar. Infelizmente ali ela me aguardava, bem em frente da porta, minha rival e inimiga a me esperar.

– Até que se saiu bem, Simone – percebi o sarcasmo em sua voz.

– Obrigada – sorri enquanto ficava bem em frente a ela tentando entrar no camarim. – Posso?

– Como pode?

– O quê? – pergunto sem entender.

– Querer largar sua profissão para ser uma atora amadora – tentou me ofender.

– Luciana… – começo a falar bufando. – Acho que de falsos julgamentos já bastam os do nosso dia-a-dia, não seja mais uma nessa banca julgadora.

– Simone, você é uma estúpida.

– Posso entrar no camarim? – pergunto tentando manter a calma.

– Pare de se fazer de fingida. Para que demônio você vendeu a alma?

– Com certeza não foi para você.

– Ora, sua…

Um som abafado no corredor impede o tapa que eu estava para receber. Alguns colegas ouvindo a pequena confusão que iniciava surgiram para interceder. O demônio que tinha rosto de um anjo saiu da frente da porta. Senti no seu olhar que por ela eu já devia estar morta.

Respirei fundo, nas costas o peso do mundo e as lembranças tatuadas sobre a escápula na forma de flores de cerejeira. Fiquei em frente ao espelho, observei o colar com o símbolo do infinito, da eternidade, lembrança de uma amizade. Contemplei meu semblante e tudo que vi foi uma garota que quer alcançar seus sonhos de alguma maneira.

Meus olhos represam as lágrimas.

Troco de roupa e apenas sigo a sugestão do meu irmão, chega de problemas neste mundo cão. Como ele diz, na vida algumas pessoas são apenas pedras, nunca sairão do seu lugar, ficarão para trás quando por elas passarmos e de nada mais importarão na história, serão apenas uma breve memória.

Suspiro.

O meu reflexo me pergunta:

– Do que você tem tanto medo, Simone?

E eu mesma respondo:

– De que me esqueçam. De ser apenas mais uma pedra. De não ser de nada útil.

Ao passo que meu eu do espelho replica:

– Triste pensamento fútil.

À meia luz do ambiente, troco de roupas e passo a maquiagem me preparando para um encontro. Quem sabe não seja uma noite quente? Por que sinto que hoje ele está pronto? Pronto para quê? Para me dizer que eu deva desistir dos meus sonhos e deixar de seguir em frente? Que ele não me quer? Quem é capaz de entender uma mente tão confusa quanto a minha, cheia de indecisões, medos e mesquinha?

Respire, Simone, concentre-se.

Deixo a noite seguir seu roteiro, do teatro até a lanchonete, do imprevisto até o previsível, de cada palavra sem sentido até o sanduíche misto. Até que as palavras vêm, rápidas, perspicazes, como um personagem de um livro desvendando um mistério do além.

– Simone, o que esconde detrás dessa máscara?

Fico chocada, ele percebeu.

– Que máscara? – minha voz falha.

– Essa que você vem usando a noite toda, desde que acabou o espetáculo – seu sorriso desapareceu.

Não consigo mais me conter, a máscara cai.

 – Ando tão triste, Lucas!

– Por quê?

Meus olhos vazam as lágrimas.

– Temo em ficar doente, temo em não alcançar meus sonhos, temo em decepcionar meus pais, tudo aquilo que a sociedade me cobra.

Despejo nele toda a minha incerteza, tudo aquilo que me atormenta, tudo aquilo que consome nossa alma e nos devora por dentro todos os dias e nos impede de dar o passo seguinte rumo à nobreza.

– Primeiro – começou ele –, mande a sociedade à merda.

Olhei para ele com a mente ainda lerda.

– Simone, das pessoas não existe ninguém mais preocupado com você do que seus pais e seus amigos mais próximos, se quiser dar satisfação a eles é compreensível, mas agradar a expectativas de pessoas que não pagam suas contas e não se preocupam com seu bem-estar é de uma burrice tremenda.

Lucas falou tudo o que os nossos melhores amigos costumam nos falar quando precisamos ouvir, junto com a paz que ele traz, e como eu realmente precisava aquilo sentir. Suas palavras que mais guardei naquele dia:

– O que tiver de acontecer vai acontecer, independente do que você quiser, não coloque todo o peso da vida nos seus anseios para não esmorecer. Deixe fluir, deixe seguir, viva como se fosse o último dia, mas não acredite que é o último dia, sempre há um novo alvorecer.

– E se eu não estiver viva amanhã?

-Tenha certeza de aproveitar o agora sem afã.

Meu coração ficou apertado, uma sensação estranha de que ele parece tão pequeno e fútil. Outra emoção inútil. Continuo a chorar. São lágrimas de alívio, elas levam embora tudo aquilo que havia de ruim no meu coração, apenas para o vazio das incertezas receber um golpe duro e seco.

– Eu vim me despedir.

– Como assim?

– Vou voltar ao serviço militar.

– Outra vez?

– Só um ano, já vai passar.

– Vai embora?

– Fim do mundo.

– De novo?

– Há um propósito para tudo.

Mal havia me livrado do que de ruim carregava e a dor toma conta do meu peito como um estranho invadindo meu espaço e roubando de mim a tranquilidade. Além do mais, seria aquilo já um princípio da saudade?

– Não acredito que vai para tão longe.

– Preciso…

– Tolo, imbecil, estúpido! Você mexe com meus sentimentos.

– Seria eu egocêntrico e manipulador então? – ele diz enquanto dá aquele sorriso típico de personagem, ninguém melhor do que ele atuava na hora de tentar passar uma boa imagem.

– Idiota! Como pode confundir tanto meus pensamentos?

Meus punhos encontram o peito de Lucas com raiva, mas sem força. Tive o desejo de gritar, parecia tudo piada sem graça. Não era. Minha voz embargou antes mesmo de ter oportunidade de continuar xingando meu tolo amigo. Homens, que maldita raça. Por que fazia de meu sentimento seu inimigo?

– E se você morrer?

– Ora essa, pare de se preocupar com isso.

– Lucas, qual a necessidade disso?

Ele olha para o céu, vejo nos seus olhos um brilho, é aquele mesmo olhar que vejo no espelho quando parece que tudo vai dar certo, aquele mesmo olhar de quem mesmo caindo quer levantar de novo e seguir em frente, vivendo histórias que um dia serão contadas aos seus filhos.

– Quero ser lembrado, quero fazer algo de importante na vida, ir além das expectativas…

– Por quê?

– Porque só se vive uma vez.

– Mas da vida não se leva nada.

– Mas na vida se deixa tudo, minha amada.

Corei.

– Simone, não acredita na eternidade?

– Nela pensei desde tenra idade. Mas em que sentido, Lucas?

– No espiritual ou no físico. Independente de suas crenças, do que seja o paraíso ou o Céu para você, eternidade é ter suas lembranças e sonhos vivos nos corações daqueles que você inspirou ou cujo coração você tocou.

Parei para medir suas palavras. Ele continuou.

– Um momento pode ser eterno, pode ser pleno, pode refletir e defletir ações por muito tempo.

– Então, independente do que aconteça…

– Em meu coração quero que sempre permaneça.

– Toquei seu coração?

– Apaixonou-me também na razão.

Eu sabia que para ele, a eternidade era baseada num único caminho, numa verdade, na vida. Como aquela criatura conseguia ultrapassar as barreiras de nossas crenças, conseguia me amar apesar de nossas diferenças? Meu coração enterneceu, eu sabia que ele não falava só de salvação, falava também da minha atuação. Indiferente aos próprios sentimentos, eu sabia também que ele falava dos seus sonhos, de sua decisão.

Havia algo de diferente nele, algo que me repelia, mas que me atraía. Éramos diferentes e ao mesmo tempo semelhantes. Foi assim que surgiu aquele desejo intrigante.

Entreguei-me aos seus braços e o beijei. Faltou-me o ar, o coração palpitou, dominou-me o arrepio, a alegria e o calor. Não soube dizer se naquela noite predominou o amor. Apenas sei que nossos corpos atuaram em um espetáculo, soltaram as amarras da vergonha e se permitiram possuir um ao outro em um magnífico ato.

Foi romântico, foi intenso, foi único, que momento!

Foi a última vez que o vi, deixou-me uma carta de despedida e outras reflexões. Foi ali que compreendi o tamanho das minhas frustrações.

A arte não é apenas o desejo de reconhecimento, de revelar o belo, é o almejo mais sincero do coração de permanecer entre aqueles que tanto amamos, um raio fúlgido do brilho da criatividade que nos vem do divino. Era o que ambicionava aquele calmo menino.

Enquanto o amanhã não vem, vivo hoje com a certeza de que o tiver que acontecer, vai acontecer, sigo o fluxo da vida, navegando nas águas desse rio, tornando-me um com ele em suas águas escuras avermelhadas. Senti nelas as feridas sanadas.

Eterno pode ser um momento. É naquele que nos falta o ar, o coração bate mais rápido, que a alegria preenche cada lacuna do ser. Porém, enquanto permanece finita nossa existência, enquanto a morte fizer parte desta vivência, lembre-se, vive em nosso coração cada lembrança adquirida e uma parte de nós permanece em tudo aquilo que fizermos com dedicação e empenho. Viva intensamente, viva e não desista de fazer sempre o seu melhor, faça isso por você mesmo. Seja eterno e não tenha medo do amanhã. Jamais deixe de ter fé.

Tantos pensamentos e lembranças vagam pela minha mente. Agora novamente estava ali no presente, relembrando aquela noite em que estive com Lucas quando vi nos telejornais a notícia de que o posto militar em que ele estava na fronteira havia sido totalmente destruído e que não se sabia ao certo se alguém havia ao atentado sobrevivido.

Gritei, chorei por aquele que me fez pensar que a eternidade tinha tudo a ver com os sonhos e os desejos do nosso coração.

Enquanto eu existisse, saberia que ele seria uma lembrança eterna de um idiota cheio de defeitos que se apaixonou por mim e dividiu seus sonhos comigo. Por isso mesmo, eu sabia que a cada dia deveria seguir em frente sempre lembrando do apoio do meu amigo.

Assim como minha personagem, desde a tenra idade sempre acreditei que não havia inferno eterno, mas aquele momento de dor me pareceu uma eternidade.

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O TEMPO NO CORAÇÃO – CONTOS

Eternidade

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