A Garota na Livraria

Comecei a ler um livro enquanto esperava o tempo passar e aguardava minha irmã Joana desbravar a imensa livraria que amávamos visitar. Aos poucos fui mergulhando cada vez mais na história até que me distraí.

Então, vi aquela garota na livraria. Que visão estonteante! Comecei a idealizar e imaginar como ela seria. Talvez sua música favorita fosse a melosa e sonora Vienna de Billy Joel, que a ouvia enquanto rabiscava ideias e enquanto escrevia roteiros para suas sonhadas peças que ficavam trancados em sua gaveta. Apesar de amar a letra daquela canção, ela vivia com pressa e achava que o dia tinha menos horas para ela do que para os demais, era ambiciosa demais para uma jovem garota que já cursava inclusive uma faculdade. “Devagar, criança”, talvez dissesse para si mesma.

Sentada em um dos estofados, o destino me revelou essa moça cuja pele branca e delicada era coberta por um vestido azul marinho bordado com detalhes em um tom mais claro, enfeitado com pequenas lantejoulas que brilhavam como estrelas em um céu numa noite de verão. Não pude deixar de notar seu liso cabelo castanho que caía sobre os ombros e corria pelas belas curvas dos seios. Ela estava sobre uma das poltronas lendo um livro enquanto eu lia os contornos de seu quadril, contemplando os limites daquela saia até a metade da coxa, imaginando além. Os braços descobertos e o sapato alto negro completavam os detalhes que mais captaram minha atenção.

Não fosse pelo breve momento que meus olhos captaram todos esses detalhes, teria passado por ela como mais uma pessoa qualquer naquela imensa livraria. Não me contentei em guardar a imagem na minha mente com as memórias cinzentas de dias já passados, então foi aí que fiz algo que nem eu mesmo me imaginei fazendo.

– Com licença – arrisquei –, meu nome é Bernardo, e sou um fotógrafo em desenvolvimento profissional – uma meia mentira bem esfarrapada que inventei.

A moça tirou os olhos das páginas e aos poucos parecia estar voltando à realidade como se tivesse sido arrebatada pelos contos daquele exemplar. Seus olhos escuros fitaram os meus.

– Perdão, fazia tempo que eu não lia algo tão bom – sorriu para mim. – O que você estava dizendo?

– Eu queria pedir de você uma foto – eu estava nervoso.

– Uma foto? – questionou ela aproximando a mão da boca e ficando corada.

Que criatura magnífica, pensei. Seu rosto ruborizado e sua timidez aceleraram meu coração. Eu tirei o celular do bolso, já que estava sem minha câmera. Afastei-me um pouco e pedi novamente.

– Eu gostaria de tirar uma foto para registrar este momento único.

– O que tem de tão especial neste momento? Tem tanta gente lendo aqui…

– Ora, não é todo dia que uma moça tão bela num vestido tão gracioso senta em uma poltrona de uma livraria e se aventura dentro de um livro com tanto interesse e gosto durante a leitura, é inspirador.

Ela corou novamente. Algo me dizia que ela não iria permitir, então apenas coloquei o celular no bolso. Ela olhou para o livro e meneou a cabeça.

– Você pode tirar, mas sua foto só terá o mesmo valor do que você viu se ela for espontânea, não é?

As formalidades da vida, formulários e burocracias impedem o ser humano de ser tão espontâneo, chega a ser um crime impedir a existência de ser tão vívida. Percebi imediatamente que minha interrupção retirara a magia inicial da leitura, que por mais que ainda permanecesse toda sua formosura, o que havia me encantado mesmo era aquele ato insignificante a qualquer outro consumidor.

– Prometo que vou sair e deixar você voltar à sua leitura.

– Tudo bem, apenas quero pedir algo em troca.

– Diga.

– Se algum dia conhecer algum escritor, peça a ele que eternize esta imagem em um texto, seja uma crônica, um conto ou até mesmo um romance.

Achei o pedido um tanto inusitado, mas quem seria eu para questionar diante do que eu mesmo estava fazendo.

– Não conheço pessoalmente nenhum escritor além de Tenório Telles, e não faço nem ideia de onde encontrá-los pois só o vi uma única vez – retruquei.

– Então publique em uma rede social contando tudo aquilo que sentiu e o que lhe inspirou a tirar tal foto.

– Certo, farei o meu melhor – concordei ainda achando aquilo bem esquisito.

Ia me afastando quando decidi perguntar seu nome.

– Gabriela – ela me respondeu voltando a mergulhar no livro de contos que tinha nas mãos e eu tirava minha foto, dando um adeus silencioso àquela moça.

Nunca mais encontrei Gabriela, mas a sua história rendeu tantos compartilhamentos em minhas redes sociais, que vários escritores, poetas e romancistas, arriscaram descrever a imagem com suas próprias palavras. Nenhum deles foi bem sucedido, exceto por um usuário nas redes sociais que se denominava Gabo, que alegou que minha foto o inspirou tanto a escrever que acreditava que contar sua história poderia mudar o mundo.

O tempo passou sem pedir licença e eu envelheci alguns anos, o suficiente para voltar àquela livraria com meus filhos já grandes. Adentrei pelos portões e contemplei a estrutura com livros espalhados do chão ao teto e inúmeras prateleiras recheadas por memórias e sonhos, pelo passado e pelo presente, um guia para o que há de vir.

Decidi fazer como o costume que adquiri desde o dia que tirei aquela foto, andar pela livraria aleatoriamente procurando por algo ou algum livro que me chamasse a atenção. Deslizei a mão pelas lombadas dos livros nas prateleiras e fui investigando de um por um até que terminei uma seção inteira. O ar me faltou quando saí daquele corredor e me deparei com aquela cena.

– Como é possível? – exclamei em voz baixa.

Uma moça vestida de azul estava sentada na poltrona lendo um livro com um sorriso de imensa satisfação no rosto. Seus cabelos castanhos caiam sobre os ombros e seus olhos escuros brilhavam. Era idêntica à moça da foto. Hesitei em me aproximar e esfreguei as mãos nos olhos tentando ver se não era minha vista que me pregava uma peça ou se estava delirando.

Fiquei dividido entre a curiosidade e o descaso. Pensei em me virar e ir embora, mas isso não daria sentido nenhum a tudo aquilo que já havia feito em relação a isso. Aproximei-me dela, que desta vez se distraiu e me observou chegando perto.

– Boa noite, por acaso seu nome é Gabriela?

– Sim – desconfiou de minha pergunta e se ajeitou na poltrona, ficando séria. – Por quê?

– Como é possível?

– O quê?

– Permanecer tão jovem, ou melhor, igual há tantos anos!

– O que está dizendo, senhor?

– Desculpe – abaixei a cabeça pensando que era loucura de minha parte e um breve delírio da idade –, devo ter lhe confundido com outra pessoa que conheci aqui mesmo há muito tempo.

Virei as costas envergonhado e fui procurar algum de meus filhos para pedir para ir embora dali. Fui andando bem devagar e fiquei esperando no Café. Pedi um café bem forte e me sentei enquanto tentava entender o que estava acontecendo quando alguém me cutucou o ombro.

– Licença, senhor.

– Pois não?

Era Gabriela com um livro dentro de uma sacola.

– Eu realmente não sei dizer quem é o senhor, mas…

Ela tirou o livro e o apresentou a mim. O título obviamente era uma homenagem que qualquer fã dos quadrinhos reconheceria.

– Memórias de um Futuro Esquecido, de Elaine Brito “Gabo” Tavares – li o título enquanto percebi o nome de Gabriela escondido no pseudônimo. – Não estou entendendo mais nada, mas com certeza percebo o nome Gabriela escondido nesse nome.

– Sim, meu nome é Gabriela Tavares também, apesar de eu não lembrar de ter escrito esse livro e não encontrar mais nada relacionado a quem realmente o escreveu.

– Estou delirando?

– Talvez.

– Você é real? O que foi esse tempo todo que passou? – perguntei, confuso.

– Não, eu sou tão real quanto o tempo – ela retrucou.

– O tempo é um conceito abstrato.

– Mas se torna seu escravo quem não sonha, diz um filósofo italiano – Gabriela, ou sua cópia, tinha uma agilidade impressionante com as respostas.

– Diga isso às suas rugas e seus cabelos ficando branco, não há sonhos que os impeçam.

Fiquei admirando aquela garota enquanto o café irritava o cérebro e ligava seus disjuntores.

– Você não mudou nada – comentei.

– Porque tenho apenas 19 anos!

– Inacreditável!

Eu já não sabia no que acreditar. Encarei aquele livro de capa dura e então decidi folheá-lo para ter uma noção do que se tratava. Passei alguns minutos examinando-o, enquanto Gabriela puxava a cadeira e pedia um café para ela também. Não havia descrição na contracapa tampouco orelhas ou marcadores de páginas com sinopse, apenas o conteúdo bruto de vários relatos escritos em primeira pessoa acerca de um lugar assolado pelo caos e destruído por uma guerra.

– Do que se trata este livro exatamente? – perguntei.

– De algo que eu e você possivelmente escapamos – respondeu Gabriela sorvendo o café lentamente para não queimar a língua.

– Parece apenas mais uma distopia entre tantas outras.

– Talvez seja, e possivelmente este seja o final feliz que vivemos.

– O que quer dizer? – parei de folhear o livro e a encarei. – O nosso mundo é quase tão caótico quanto as primeiras descrições deste livro.

– Talvez não seja um final feliz, quem sabe o prólogo.

– A continuação não seria nada boa.

– Sim, exatamente.

– O que quer que eu faça? – perguntei desconfiado.

– Leia este livro. Por alguma razão ele data de 2017.

– Mesmo ano em que tirei a sua foto.

– Que foto? – Gabriela perguntou desconfiada.

– Continue, depois eu lhe mostro, se eu achar em algum lugar dos meus arquivos, afinal, são mais de vinte anos de fotografias salvas.

Ela respirou fundo e então explicou:

– Recebi o livro em uma encomenda sem remetente. Achei intrigante e comecei a ler. Fiquei perturbada com o relato e me identifiquei demais com a personalidade da escritora, como se houvesse sido uma versão alternativa de mim mesma escrevendo.

– Caramba…

– Apenas leia.

Guardei o livro e me despedi de Gabriela mais uma vez, imaginando que não a veria uma terceira vez.

Fui para casa. Comecei a ler alguns trechos.

“De onde eu venho não existem mais páginas para contar histórias. De onde eu venho, o passado é uma palavra esquecida, pois não existem mais livros para contar nossa história e nossa memória padece no esquecimento, nas chamas das páginas que foram queimadas.

“De onde eu venho a vida secou e aquele lugar, que outrora alguns consideravam ser apenas mais um dentre tantos, se tornou a causa da maior fonte de disputas no mundo.

“De onde eu venho, a nação foi destruída por si mesma, julgou-se conhecedora e sábia ao escolher aquele que, no fim, trouxe-lhe sofrimento e amargura, desde os mais ricos até os mais pobres.

“Era o salvador, diziam, a lenda que tornaria a trazer paz e glória ao povo, que levaria o país ao patamar de destaque entre as gloriosas potências, emergindo do caos e da corrupção, sendo referência a qualquer filho dessa geração.
Não foi o que ocorreu, nossas reservas foram vendidas, nossos rios foram condenados, nossa floresta foi explorada até não sobrar nada, nossos minérios extraviados e ai daqueles que se opuseram. O ‘herói’ do país foi aquele quem destruiu o nosso maior tesouro, que na época não se sabia ser o maior, pois era apenas considerado mato e bicho, não era valorizado como devia.

“Percebeu-se o real valor quando se cumpriu a profecia de um sábio que dizia que não se come o dinheiro, e já não havia mais o que comprar, pois a água que restara se tornou luxo de poucos[…].

“A água se tornou escassa mundo afora e nossas bacias hidrográficas se tornaram alvo da cobiça das grandes nações. Assim como o petróleo fora a causa de tantos conflitos décadas atrás, a água se tornou o bem mais valioso da humanidade e a maior causa de conflitos também. Foi se tornando artigo de luxo, até que nem mesmo os mais ricos podiam usufruir dela. Um litro de água se tornou o salário de uma semana inteira de trabalho. Foi aí que sucumbimos à guerra.

“Fugir para outro planeta? Tola ingenuidade[…].

“Houve luta para saciar a sede, para saciar a fome, para tentar redimir a humanidade e se livrar do excesso de contingente de almas viventes. Foi trágico[…].

“O pior disso tudo é que não é do Apocalipse que estou falando, antes fosse, pois é um livro que no seu fim traz esperança, e esperança é o que quase não existe mais de onde venho. Tudo isso porque fomos teimosos em não ouvir aqueles que alertavam os sinais do caos, aqueles que eram sábios de verdade e foram tratados como loucos.

“Eles queriam dizer: ‘avisamos’! Mas estavam tão desolados que apenas se juntaram aos que ainda queriam sobreviver.

“O futuro que nos espera é sombrio e nossa única esperança se tornou voltar ao passado. Parecia impossível, mas nos apareceu uma solução[…].

“Neste exato momento, estar sentada em um banco de madeira bem trabalhado, com a parte lateral desenhada para servir de prateleira é algo tão fantástico para mim quanto a esse estranho objeto que tem um cheiro suave e mágico que possivelmente deva ser derivado de algo orgânico ou vivo, pois apenas a vida tem em si o mistério do mecanismo que nos mantém funcionando frente a todo um caos químico que poderia nos destruir em um minuto.

“Leio e escrevo simultaneamente para aproveitar o pouco tempo que me resta em paz. Não ouso beber muita água, por medo de a estar desperdiçando, tamanho luxo que meus compatriotas já não têm mais no tempo que há de vir, apesar de já ter sido alertada que posso ter pedras nos rins se não me hidratar adequadamente. Talvez seja por isso que, tão nova, já tenha dores nos flancos como se uma faca estivesse me perfurando e torcendo minhas vísceras sempre que tenho uma crise.

“Disseram-me que para cumprir minha missão eu não deveria entrar em contato com ninguém, tampouco registrar o que vivi, mas a humanidade deveria saber o que vai acontecer com cada ser humano se nada for feito de urgente para mudar o mundo, para salvá-lo.

“Meu chefe diz que a humanidade tem que aprender com os erros do passado. Não discordei dele quando me falou isso, exatamente por isso escrevo este livro, para contar o que já aconteceu no futuro, um futuro que quero que não exista, mas também que jamais seja esquecido. Não sei qual será o meu próprio destino, mas deixarei estas páginas escritas e revisadas para que, caso eu tenha sucesso, o mundo não esqueça que ainda pode cometer erros mais absurdos do que duas grandes guerras, mas que principalmente tem a capacidade de evitar algo pior.

“Volta e revolta, é como será pago o preço da ignorância humana diante da Natureza[…].

“Meu superior diz que mexer com o fluxo do tempo é arriscado, pois ele não tem uma forma definida, é irregular, múltiplo, filosoficamente misterioso e suas consequências são imprecisas, mas eu sou capaz de sacrificar a mim mesma em prol daquilo que acredito, é por isso que sou uma Pacificadora.

“É por isso que se precisar, voltarei no tempo quantas vezes for preciso para tentar salvar o mundo”.

Ao terminar de ler, senti o desespero da escritora, de uma Gabriela que viveu em um inferno criado pela própria raça humana e que viajava no tempo para desfrutar de um tempo de paz, de uma época onde o destino da humanidade ainda era incerto, um tempo onde ainda podia viver um dia normal, uma vida corriqueira e tranquila enquanto se preparava para tentar reescrever as páginas de um romance mais amplo, cheio de mistérios, intrigas, amores e sonhos, a própria história da humanidade.

– Bê, você ficou lindo!

– O quê?

Levantei a cabeça e vi Joana, minha irmã com o celular na mão e dando gritinhos de alegria. Aos poucos a realidade tomou conta de mim, percebi que eu estive na livraria lendo um conjunto de contos de um escritor desconhecido durante horas. Joana se aproximou e me mostrou uma foto minha devorando com prazer aquela literatura. Sorri para ela.

– Eu já vou indo, você vem? – ela perguntou.

– Só um momento. Vou comprar este livro.

– Tudo bem.

Minha irmã se retirou e eu fiquei no estofado encarando aqueles papeis à minha frente tentando imaginar se estava vivendo um prólogo ou um final feliz de uma distopia. Balancei a cabeça tentando voltar a realidade e fui em direção ao caixa para comprar o livro. Guardei o embrulho na minha mochila e fui em direção à saída.

Foi quando eu percebi em um pequeno sofá, magnífica, sentada e lendo um livro, trajando um vestido azul belíssimo que valorizava suas curvas, deixando o cabelo castanho cair sobre o ombro e delineando o contorno dos seios, sorrindo estonteante e a atenção totalmente fixada no livro que lia, alguém que roubou meu coração, uma garota na livraria.

_____________________________________________________________________

selective focus photography of hour glass

O TEMPO NO CORAÇÃO – CONTOS

A Garota na Livraria

Não esqueça de deixar seu comentário e compartilhar com os amigos

woman wearing blue jacket sitting on chair near table reading books

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Anúncios
Follow Escrito Por André Basualto on WordPress.com
Anúncios
%d blogueiros gostam disto: