Areias do Tempo [Parte I]

As árvores dançavam com o vento que vinha vestido de gotas. As nuvens desfilavam no céu, um dia típico de sol com chuva, ou chuva com sol, não importava. O clima do mês de janeiro sempre se confundia por conta própria mais do que qualquer desatento nos estacionamentos dos shoppings de Manaus.

A chuva havia dado uma trégua e um jovem magro, desprevenido para a próxima tempestade que se formava, corria pelas ruas molhadas do centro da cidade procurando por um bom sebo no qual encontraria, por um preço mais em conta, um exemplar de História Geral da Amazônia de Francisco Jorge. Não era uma missão impossível, visto a quantidade de pequenos sebos localizados na Praça da Polícia, mas o garoto era ingênuo o bastante para se distrair com as bugigangas de alguns vendedores ambulantes que percorriam por aquelas ruas.

No bolso, carregava o suficiente apenas para comprar o livro com um desconto chorado e sua passagem de ônibus. Foi tentado inúmeras vezes a comprar algum item de que não precisava e que com certeza era mais interessante do que um velho amontoado de páginas emboloradas. As ruas do centro eram suas velhas conhecidas pois, quando criança, costumava andar por elas sempre que sua mãe ou seu pai decidiam percorrê-las em busca de alguma pechincha ou mesmo presentes de aniversário. Conhecia desde a biblioteca e suas adjacências até o porto, caminhava quase como se desfilasse numa orquestra, repetindo sempre os mesmos passos e captando a mesma essência de toda visita ao lugar, mas havia algo diferente dessa vez.

Localizada em um beco sem nome, rodeada por lojas desconhecidas e coberta pelas telhas de mistério, uma loja cuja vitrine estava bem decorada chamou sua atenção. Algumas luzes brancas do último Natal ainda pendiam sobre o arco da porta. Seu estilo antigo e organização o lembraram aspectos de uma loja londrina antiquada. Quinquilharias preenchiam as prateleiras de vidro que exibiam aquele acervo de objetos intrigantes e curiosos.

Rodolfo viu o reflexo do relâmpago no escaparate à sua frente, encolhendo os ombros ao antecipar o barulho do trovão que viria logo em seguida. Ao se virar, percebeu as nuvens carregadas se desfazendo a algumas ruas dali. Parecia que uma cachoeira se aproximava tamanho o estrondo das gotas caindo sobre os telhados. Ele observou ao redor procurando um lugar para se proteger da chuva, a fachada coberta da loja não seria suficiente para mantê-lo seco. Ainda estava longe do próximo sebo e as pessoas já corriam pelos atalhos do beco que levavam a pequenas lojas que fechavam suas portas. Um vendedor ambulante e oportunista carregava vários guarda-chuvas com o preço da banana mais cara encontrada na feira da Manaus Moderna. Não havia outra saída a não ser correr.

O incauto jovem Rodolfo se preparou para a fuga, mas algo brilhou no canto dos seus olhos e prendeu sua atenção novamente na vitrine, viu então aquilo de que não precisava, mas que naquele momento imediatamente quis.

Era feita toda de vidro e brilhava quando a luz refletia em suas curvas, uma simples ampulheta, mas não era uma ampulheta qualquer, pensou consigo. Aquele enigmático objeto era mais instigante ainda devido a areia que estava dentro dele. Era azul. Não um azul qualquer, mas um azul como a poeira celeste que habita no cosmos, um azul onde se viam pequenos grãos dourados em que se refletiam as estrelas, era como se um pedaço do céu noturno tivesse sido colocado em um triturador e depositado ali. Era simples, chamativa e, embora ele ainda não soubesse, ela também era mágica.

Entrou na loja como se não tivesse mais nada para fazer, ignorando a iminente tempestade. Olhou de soslaio para o resto do estabelecimento, a loja bem iluminada continha várias prateleiras e armários com objetos para decoração e outros utilitários, desde panelas a ventiladores, as paredes cobertas com quadros espalhavam-se até o teto e se confundiam com objetos pendurados no forro, mas sua atenção estava focada naquela ampulheta. Um raio cortou o céu e a energia elétrica do estabelecimento deixou de alimentar as lâmpadas, jogando o recinto às trevas. Em meio à escuridão, aquele azul cintilava dentro do seu recipiente, um brilho sem igual. Um silêncio tomou conta do lugar. Ele se aproximou da ampulheta que o chamava.

– É uma areia que vem das falésias de Morro Branco, no Ceará – comentou o vendedor, surgindo de repente e assustando o rapaz

– Caramba! O senhor quer me matar de susto? – berrou Rodolfo com o coração na boca.

– Claro que não, se eu perco um cliente eu perco dinheiro. Não morra sem comprar nada, por favor.

– Eu quase fiz xixi nas calças.

– Tem um banheiro lá atrás se precisar.

– Acho que já é tarde demais.

– Lamento…

Rodolfo observou o vendedor. Aquele homem alto tinha um cavanhaque grande, maltratado, seus olhos por trás dos óculos denunciavam seu interesse no possível comprador, suas roupas maltrapilhas e o cheiro do álcool figuravam um estado quase decrépito em que aquele homem estava. Percebendo o olhar, o vendedor interveio.

– Acredite ou não, só não tomo banho há dois dias, e o cheiro do álcool é por conta de um mendigo que resolvi ajudar esta madrugada e me deu trabalho até hoje cedo, além do cachorro esfomeado que quase me atacou e me arrancou um pedaço.

Rodolfo olhou incrédulo.

– Eu sou um homem de negócios, caro rapaz, não posso me dar ao luxo de ficar vivendo sujo por aí, tampouco tendo uma vida boêmia. A boa aparência é tudo no mundo dos negócios.

– Percebo…

– Se me der um minuto, já volto para lhe atender com mais calma e lhe mostrar a loja.

– Eu só vou ficar olhando mesmo enquanto a chuva não passa… – comentou Rodolfo observando as gotas pesadas se chocarem contra o chão.

– Não ficou interessado na ampulheta?

– Sim, fiquei.

O vendedor encarou Rodolfo e então ambos olharam para o objeto em questão.

– O senhor disse que as areias vêm das falésias de Morro Branco, não disse?

– Disse – respondeu o vendedor.

– Isso é uma mentira muito descarada.

– Por que seria?

– Porque o azul não é uma cor natural das falésias.

Um sorriso malicioso se desenhou no rosto daquele vendedor, a astúcia do rapaz o convenceu de que aquele moleque não era como qualquer outro visitante.

– Se me permite, garoto, apenas um minuto e eu estarei de volta para lhe mostrar o quanto você está certo e ao mesmo tempo enganado.

O rapaz ficou com a pulga atrás da orelha, sentia que havia algo mais por trás daquele velho vendedor. Seu interesse na ampulheta o fez aceitar a proposta.

– Certo, mas se a chuva cessar antes, vou embora.

– Acredite em mim, eu já vi essa cena antes, e vejo sempre nesta bendita cidade, a chuva só para quando ela precisa parar. Um minuto, meu jovem.

O vendedor tirou do bolso uma pequena ampulheta envolta em um globo de vidro com um chaveiro que se prendia ao meio do conjunto, mantendo as areias sempre iguais em cada canto da ampulheta, como uma balança. A areia branca reluzia na escuridão do ambiente. Rodolfo se maravilhou com aquele pequeno objeto e viu quando o vendedor o posicionou na vertical, fazendo as areias deslizarem e preencher o canto inferior aos poucos.

– Volto em um minuto – disse o vendedor enquanto se dirigia aos fundos da loja.

As areias correram até não restar mais um grão no canto superior. Rodolfo olhou para um relógio de parede e viu que havia transcorrido exatamente trinta segundos até a metade que faltava da areia preencher a ampola inferior. Decidiu voltar a admirar os demais objetos enquanto o vendedor não voltava, foi andando por um corredor até chegar ao final.

– Voltei.

– O quê!? – berrou Rodolfo assustado com um homem surgindo por detrás do balcão. – Quase que o xixi saía dessa vez… espera, quem é você?

– Sou o vendedor que estava falando com você ainda há pouco – respondeu olhando para um relógio de prata que segurava. – Exatamente há um minuto – e fechou o relógio, guardando o no bolso.

Rodolfo olhou assustado aquele homem que exalava uma colônia de rosas, estava de barba feita mas tinha exatamente os mesmos óculos do vendedor, vestia-se com uma camisa polo simples e usava um cordão com um símbolo do infinito.

– Impossível.

– Quando se tem tempo, nada é impossível. Só nos é impossível aquilo que não queremos alcançar ou o que não nos é permitido pelos Céus.

O garoto estava intrigado, ele não conseguia acreditar que aquele vendedor era o mesmo maltrapilho que conversou com ele um minuto atrás. Engoliu em seco e começou a imaginar se aquilo não era um truque barato para fazê-lo comprar algumas de suas bugigangas ou acreditar numa história qualquer de vendedor. Pensou em todas as possibilidades, então preferiu o lado do ceticismo e apenas resolveu desafiar o homem.

– Era uma barba falsa né?

– Claro que não – respondeu o vendedor com um sorriso sincero e malicioso.

Rodolfo franziu o cenho e continuou:

– Você estava me contando sobre a areia da ampulheta.

– Sim.

O homem manteve o silêncio.

– E… – Rodolfo o encarava duvidando de que fosse a mesma pessoa, acreditando ter descoberto a farsa do vendedor.

– Esse azul não é forjado pelo homem.

– Como assim? – perguntou intrigado e esquecendo-se por um momento de que era ele quem estava testando o homem.

– O azul não é uma cor comum que se encontra nas falésias coloridas do Ceará – começou o vendedor –, por isso ele é tingido para parecer assim, mas este azul posso lhe assegurar, é totalmente natural pois não é tirado do mesmo lugar que as demais areias.

O coração do garoto palpitava, aquilo parecia emocionante, mas uma voz de razão brotou em sua consciência por um instante, junto com o furo no bolso que denunciava o limite do seu financeiro.

– Interessante, mas não posso comprar a sua história, a ampulheta quem sabe, ficaria bem na minha estante para decoração do meu quarto.

O vendedor revirou os olhos. Lá fora chovia torrencialmente.

– Escute bem, jovem rapaz, qual seu nome mesmo?

– Rodolfo…

– Jovem Roberto.

– Rodolfo.

– Adolfo…

– Rodolfo!

– Como quiser – disse o vendedor saindo detrás do balcão –, mas antes que você desista desse maravilhoso objeto valiosíssimo sem igual que está com um desconto absurdo, você deve saber que não existe truque algum na venda, apenas ofereço aquilo que você quer.

– O que isso tem a ver?

– Nada, talvez, só estou ocupando seu tempo. O que quero lhe dizer é que seus olhos não negam o quanto essa ampulheta seria preciosa ao seu acervo de objetos inúteis que você compra apenas por comprar e que você lá no fundo quer dar um significado valioso a ela.

– O quê?

– Não importa, meu caro Rodolfo, aliás, devo lhe dizer que você não é o primeiro e nem será o último a contemplar esta joia nesta estante, mas se lhe preza o tempo não deixe escapar este instante.

Sem perceber, Rodolfo havia sido encaminhado por aquele homem de volta a ampulheta. A chuva começava a reduzir e a luz do dia começava a iluminar o ambiente novamente. De repente, a luz voltou.

– Já era hora – comentou o vendedor. –  Agora já aceitamos novamente cartões de débito e crédito, vou colocar a maquineta para carregar.

– Olha, que legal… Espera! Não…

– Não se acanhe, rapaz, pense com calma, a chuva está quase no fim. Deixe-me ir ali que vou pegar a maquineta.

O vendedor se afastou enquanto Rodolfo voltava a admirar a ampulheta. Algo nele dizia que se arrependeria muito se não comprasse aquela ampulheta. Era o livro de história ou aquela quinquilharia.

– Qual a dúvida? – perguntou o vendedor surgindo subitamente pela terceira vez.

– Preciso comprar um livro de história para poder estudar para o vestibular…

O vendedor o olhou intrigado.

– Gosta de história, meu caro rapaz?

– Um pouco, não sei, talvez. Os professores nem sempre são legais.

– Professores de história são seres desprezados no mundo moderno exatamente por deterem as chaves do passado que conduzem à sabedoria que se forja a partir dos erros do grandes homens que já viveram e dos fatos que nos deveriam ensinar lições para vivermos o hoje e o amanhã. São indispensáveis e justamente por isso têm sido tão menosprezados e até mesmo ridicularizados. Uma sociedade doente que não valoriza o passado e não aprende com a própria história está fadada ao fracasso e à ruína.

– Eu acho que deveria comprar o livro de história, não é?

– É você quem decide, pode parcelar o valor da sua culpa também em até três vezes sem juros.

Rodolfo ficou pensativo, ele colocava a mão no bolso e ainda imaginava se aquele objeto ainda estaria ali caso perdesse aquela oportunidade de compra. Ele tinha muito azar com relação a comprar objetos depois, pois sempre que voltava com o dinheiro no cofrinho alguém já havia feito a compra daquilo que ele queria, por isso não gostava de retardar as suas recompensas, isso o tornava um tanto impaciente, e ele sabia que aquilo era ruim. Como seria bom se ele visse ou futuro ou se pudesse voltar atrás, pensava.

– Gostei do que disse sobre o professor de história, foi bonito…

– Minha mãe era professora de história, ou devo dizer, ainda é – respondeu o vendedor olhando para alguns quadros na parede.

Rodolfo percebeu que o sorriso do vendedor esboçava uma certa tristeza, que logo desapareceu quando ele voltou a tentar Rodolfo.

– Então, o que vai ser? Dinheiro ou cartão?

– Vou comprar o livro de história – respondeu com certa tristeza, ainda olhando para a ampulheta.

– Tudo bem.

O vendedor se aproximou de Rodolfo enquanto contemplava o objeto e então o pegou com delicadeza e tirou da estante.

– Você fez uma sábia escolha, meu caro Rodolfo.

– É Rodolfo… Espera, você acertou.

O homem ergueu a ampulheta na frente do rapaz.

– Quando eu vi esta ampulheta pela primeira vez, um amor da minha vida disse que ela era a minha cara, que eu devia comprá-la pois tinha tudo a ver comigo e com minha obsessão pelo tempo. Quando eu a comprei, a vendedora não achou a caixa da ampulheta e muito menos o registro dela, era como se ela não existisse e tivesse aparecido por acaso. Desde então ela é minha e por ser minha, eu decidi lhe presentear devido a sua sábia escolha, garoto – o vendedor encarou Rodolfo. – Use com prudência, é só o que precisa saber.

O vendedor estendeu a ampulheta na direção de Rodolfo, boquiaberto, sem acreditar no que estava acontecendo. Naquele exato momento, ainda chuviscava.

– Que prejuízo você está me dando, hein, garoto, vê se não vai quebrar.

– Obrigado, senhor.

– Tiago, pode me chamar de Tiago, rapaz.

A chuva cessou.

– Agora, vá lá comprar seu livro – falou Tiago.

– Não consegui achar em nenhum canto.

– Foi no Edipoeira?

– Na Praça da Polícia? – retrucou Rodolfo. – Estava fechado.

– Eles sempre fecham pro almoço, tenho certeza que vai estar aberto agora. Se não tiver nesse recomendo o que fica escondido num beco próximo ao Teatro Amazonas.

– Certo! Vou procurar! Obrigado.

– Cuide-se.

– Até mais.

Rodolfo deixou Tiago olhando para os quadros e uma prateleira cheia de livros. O vendedor comentou baixinho:

– A quem o Tempo dará uma nova oportunidade desta vez?

O garoto partiu pelas ruas úmidas e o cheiro do asfalto molhado tomava conta do ambiente. Havia esfriado significativamente. Ele foi até o sebo e comprou seu livro com um bom desconto, já que havia nascido em Janeiro e a loja oferecia cinquenta por cento de desconto aos aniversariantes do mês. Correu até a parada de ônibus na avenida Floriano Peixoto e partiu para casa.

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O TEMPO NO CORAÇÃO – CONTOS

Areias do Tempo [I]

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