Areias do Tempo [Partes II e III]

Rodolfo contemplava a ampulheta ainda na caixa quando seu irmão entrou no quarto gritando e jogando uma bolinha de plástico nele.

– Vamos jantar!

– Gabriel! Já disse pra não jogar essas bolinhas em mim.

Gabriel saiu rindo do quarto, era um menino de apenas sete anos, muito hiperativo.

– Vamos comer, Rodolfo! – gritou a irmã mais velha na sala.

Rodolfo se irritou. Queria poder contemplar com calma seu novo pertence, descobrir por quanto tempo corriam as areias de uma ampola a outra e tirar uma foto para postar nas suas redes sociais o presente que havia ganho naquele dia. Ele tirou a ampulheta da caixa e a virou, contemplando as areias caindo.

– Vamos, a comida vai esfriar! – gritou a irmã entrando no quarto.

– Já tô indo, Rebeca.

– Eu vou contar pra mamãe que você gastou o dinheiro dela comprando besteiras.

– É uma ampulheta! E eu ganhei de presente.

– Quem daria um presente pra um inútil como você? – perguntou Rebeca debochando dele.

– Sai daqui, idiota! – retrucou jogando o travesseiro nela.

Rebeca saiu do quarto rindo.

Rodolfo viu que as areias haviam escoado até o fim, então suspirou.

– Eu só queria um minuto em paz e aproveitar esse momento do jeito certo – cochichou enquanto virava novamente a ampulheta e via a areia cair como inúmeras estrelas cadentes brilhando.

Pegou o relógio e iniciou o cronômetro, mas o relógio estava parado.

– Ué, acabou a bateria?

As areias escorreram lentamente, pareciam cair mais devagar do que antes. Rodolfo estranhou aquilo e pensou que havia algo de errado com ela também, contemplou aquele espetáculo pelo vidro da ampulheta como se fosse o objeto mais precioso que já tivera na vida. A areia terminou de cair.

– Vamos jantar!

Gabriel entrou no quarto gritando e jogando uma bolinha de plástico nele.

– Gabriel! Já disse pra não jogar essas bolinhas em mim.

Gabriel saiu rindo do quarto, hiperativo como sempre.

– Vamos comer, Rodolfo! – gritou a irmã mais velha na sala.

De repente, um calafrio percorreu pela espinha de Rodolfo.

– O que está acontecendo? – Rodolfo se perguntou olhando a porta aberta e já antecipando que a irmã entraria logo em seguida, olhou para o relógio e percebeu que estava exatamente um minuto atrasado. Ouviu os passos da irmã no corredor e correu para fechar a porta.

– A comida vai esfriar!

Rodolfo respirou fundo, pensou que estivesse ficando louco, então guardou a ampulheta e decidiu ir jantar.

Ele foi até a sala, que era de estar, de janta, a cozinha e parte do corredor que dava para os três cubículos que chamavam de quarto. Rebeca já havia terminado de comer e lia Um Conto de Natal de Charles Dickens no sofá; Gabriel rabiscava no caderno de desenhos uma árvore imensa com vários personagens de palito espalhados ao redor. A única cadeira de balanço que cabia na sala estava vazia.

– Mamãe ainda não chegou? – observou Rodolfo.

– Ainda não – retrucou Gabriel. – Por que mamãe trabalha tanto?

– Pra poder termos dinheiro pra comer e pagar as contas, Gabriel – explicou Rebeca.

– Que coisa chata, eu quero ser rico quando eu crescer. Já sei, vou inventar uma árvore que dê dinheiro.

– Por que isso? – perguntou Rodolfo.

– A professora disse hoje que dinheiro não dá em árvore, eu vou provar pra ela que eu posso fazer isso acontecer.

– Quando isso acontecer me avise – cochichou Rebeca.

Rodolfo riu e percebeu o livro na mão da irmã.

– O Natal não foi mês passado?

– E daí? Daqui a onze meses tem natal de novo! Dã! – replicou ela.

– Lesa! – reclamou ele de volta, olhando para a cadeira vazia e lamentando a ausência da mãe.

Rodolfo ficou triste pela mãe, quase sempre ela estivera trabalhando até tarde, ainda mais agora. A mesma nunca mais havia tido o privilégio de desfrutar as noites com os filhos desde que o pai abandonara a família alguns meses antes de descobrir que Gabriel estava dentro da barriga dela. Mesmo durante a gestação, passou a trabalhar algumas horas a mais para compensar os meses que ficaria sem trabalhar para amamentar o pequeno recém-nascido, porém tão logo as contas apertaram, ela teve que deixar Rebeca e Rodolfo responsáveis pelo pequeno e torcer para que ninguém a denunciasse por abandono de incapaz – não tinha família em Manaus, já que havia vindo com o marido do interior, ele de uma comunidade no município de Japurá e ela de Tabatinga, tampouco confiava nos vizinhos, já que uma vez, quando pediu ajuda à vizinha, algumas latas de leite e achocolatado sumiram. Rodolfo ainda estava no ensino médio e Rebeca estava desempregada e estudava pedagogia na Universidade Federal do Amazonas. Ambos tinham o desejo sincero de ajudar a mãe, mas ela dizia que antes de qualquer coisa eles deviam estudar ou que virassem donos do próprio negócio – talvez Gabriel adotasse esta alternativa criando as árvores de dinheiro.

A janta não estava fria, mas a noite sim. Gabriel logo cochilou no chão da sala e Rebeca o levou para o quarto. O relógio anunciava as nove da noite.

– Boa noite, Rodolfo – falou baixinho.

– Boa noite.

Rodolfo ainda permaneceu por um tempo na sala, pensando em quanto tempo já fazia que não conversava direito com sua mãe. Quis pegar o livro de história para ter algo com o que conversar com ela quando pudesse. Sua mãe adorava ouvir o que ele tinha a dizer, fosse uma coisa qualquer ou um assunto novo que ele havia aprendido por conta própria. Pensou em contar sobre como havia encontrado uma loja que eles nunca haviam visto e que já parecia estar por lá há anos. Foi quando pulou do sofá subitamente e foi até o quarto.

– A ampulheta!

Ele encontrou o misterioso objeto ainda no mesmo lugar e ficou receoso de encostar nele. Tinha certeza de que algo de estranho havia acontecido momentos atrás, mas que era tão impressionante que não soube dizer se era mesmo real.

– Se aquilo aconteceu de verdade, o que será que…

Ele se aproximou dela e a girou.

Nada aconteceu.

Esperou mais alguns minutos e tentou novamente. Nada.

O que havia de errado? Perguntava-se enquanto a areia caía.

– Eu só queria que mamãe estivesse aqui… – falou encostando a cabeça sobre a mesa onde estava a ampulheta.

De repente as areias escoaram mais rápido do que o normal.

Rodolfo ouviu a voz doce e terna de sua mãe atrás dele.

– O que faz acordado tão tarde? Não tem escola amanhã cedo, meu filho?

Ele quis esconder as lágrimas, mas apenas abraçou sua mãe.

– Você que chegou cedo!

– Desde quando meia-noite é cedo?

– Meia-noite?

Rodolfo olhou para o relógio na parede.

– O que foi, meu filho? Parece que viu um fantasma.

Rodolfo apelou novamente para o seu ceticismo. Cogitou ter cochilado enquanto esperava a mãe e despertara tão logo havia ouvido ela chegar, afinal, o tempo costuma passar rápido eventualmente e é muito fácil desperdiçá-lo.

– Gostaria de conversar com a senhora, mas deve estar cansada demais…

– Tudo bem, meu filho, amanhã terei uma folga à noite, por que não fazemos um jantar especial?

O susto que havia tomado conta de Rodolfo deu lugar a uma alegria e um sorriso tremendos.

– Mas é claro!

– Combinado – retrucou ela dando um beijo na testa dele. – Vou deixar um dinheiro separado para isso.

A mãe pegou a carteira e separou algumas notas envelhecidas de dinheiro. Contou pacientemente enquanto Rodolfo pensava no quanto ela havia trabalhado para conseguir aquilo. Ele encarou a ampulheta de lado e desejou poder resolver todos os problemas da sua vida, e Rodolfo acreditava que o maior problema era o abandono do seu pai. Chegou a cogitar que sua mãe fosse feliz caso impedisse a partida do pai.

– Aqui está! – falou a sua mãe interrompendo seus pensamentos. – Agora vamos dormir! Boa noite, meu filho, até amanhã.

– Até…

Rodolfo trancou a porta do seu quarto e ficou encarando a ampulheta novamente. Questionou-se como havia funcionado ou se não era apenas ele que havia dormido mesmo. Percebeu rapidamente que nas duas ocasiões, havia desejado sinceramente que algo relacionado ao tempo acontecesse.

– Será que tem um gênio aí dentro? Será que ela concede desejos? – perguntou a si mesmo. – Será que o velho da loja não me enganou de novo? Se bem que agora faz sentido ele ter se arrumado tão rápido.

Rodolfo matutava teorias e criava suposições. Foi quando resolveu experimentar algumas hipóteses. Escreveu numa folha em branco algumas frases e girou a ampulheta desejando que elas não tivessem sido escritas. Nada. Molhou o cabelo e decidiu ficar seco mais rapidamente. Nada – secou-se com a toalha mesmo. Inventou outras teses e, por fim, concluiu que ele estava ficando louco.

– Ai au! Desgraça!

Levantou-se da cadeira e foi até a sala buscar água. Estava tão intrigado e era tão teimoso que insistiu em suas teorias. Voltou até o quarto e deixou o copo em cima da mesa. Virou a ampulheta mais uma vez, porém distraiu-se e acabou derrubando o copo no chão, quebrando-o.

– Não, não, não, não, não! Mamãe acabou de comprar esse conjunto de copos, isso não pode estar acontecendo.

Um frio passou pelo seu corpo. Ele olhou para as janelas e o ventilador, mas elas estavam fechadas e o mesmo desligado. Rodolfo sentiu que havia algo de errado, contemplou o relógio na parede e percebeu que ele estava parado, até que o ponteiro dos segundos regrediu um segundo, dois, três. Rodolfo olhou para o chão e percebeu a magia ou o tempo brincando com ele. Os cacos de vidro e a água dispersos no chão voltavam a se aproximar, até que o copo ficou inteiro e voltou para cima da mesa.

O medo tomou conta dele. Não sabia o que fazer, não sabia como proceder. Pensou em tudo o que poderia fazer, voltar no tempo, ver o futuro, consertar problemas, ajudar sua mãe, sua irmã, seu irmão, mas acreditando ser muito esperto, temeu pelas consequências de seus atos, ponderou o que suas ações poderiam fazer, aonde lhe levariam suas escolhas e os perigos de brincar com o tempo. Não dava conta nem do tempo do dia-a-dia, quanto mais de uma magia tão imensa quanto aquela.

Temeu perder tudo, temeu não saber lidar com aquilo e se desesperou diante daquele poder, um poder semelhante a que todos os seres humanos estão sujeitos, o poder do tempo.

– Preciso devolver esse negócio imediatamente! Preciso! – disse enquanto girava a ampulheta, usando seu poder e ao mesmo tempo desejando se livrar dela.

**

O raiar do dia anunciava o calor iminente. No beco sem nome, na loja de aspecto londrino cheia de quinquilharias, Rodolfo encarava Tiago como se houvesse sido enganado.

– Eu tenho milhares de perguntas, mas a que mais tem me afligido é: por que eu?

Tiago ficou em silêncio enquanto lamentava-se pela covardia do rapaz.

– Achei que tivesse potencial, garoto – respondeu.

– Como assim potencial? – retrucou Rodolfo. – Quem é você?

– Quem eu sou não importa.

– O que tem essa ampulheta então? – Rodolfo questionava nervoso, mas estava mais calmo do que antes.

– Essa ampulheta é a segunda chance que todos nós queremos na vida, mas que nem sempre podemos obter, porque arrependimento nenhum nos faz voltar no tempo.

– E o que fazemos se nos arrependermos e não quisermos voltar no tempo?

– Aceitamos e nos perdoamos. O perdão é a chave que abre as portas do futuro e joga o passado para trás – Tiago olhou para ele compassivamente –, e então seguimos em frente.

– Você seguiu em frente?

A pergunta parecia haver pego Tiago de cheio. Com um sorriso discreto ele respondeu:

– Tento até hoje, não é fácil, mas é preciso.

– É muita responsabilidade – a voz de Rodolfo quase havia falhado. – Como pode guardar um objeto tão… tão…?

– Mágico?

– Cósmico… como pode guardar algo que Neil deGrasse Tyson e Stephen Hawking teriam em sua coleção se possível?

Tiago deu uma gargalhada.

– As oportunidades surgem em nossas vidas diariamente, cabe a nós escolhermos se vamos aproveitá-las ou não. Perder oportunidades também significa abrir mão de novas histórias, imagine o que você poderia ter feito com tal poder! – Tiago lamentou novamente e então com uma expressão bem séria afirmou: – Eu decidi aceitar minha missão como guardião das ampulhetas.

– Como assim das ampulhetas? Existem outras?

– Várias! De cores diferentes, com propriedades variadas e capacidades diversas, cada qual majestosa como pode.

– Loucura.

– Loucura é querer passar a vida inteira sem admirar o novo, sem contemplar as possibilidades e sem arriscar uma fórmula nova.

Rodolfo ficou pensativo, entretanto seu medo persistiu.

– Viverei de outra maneira então…

– Como queira.

– Há alguma maneira de reverter o que aconteceu? De eu não ter pego essa ampulheta e esquecer tudo isso?

– Há sim.

Tiago pegou a ampulheta das mãos de Rodolfo calmamente.

– Espero que dê tudo certo para você, jovem.

As areias azuis começaram a cair bem lentamente.

As árvores começaram a dançar com o vento que vinha vestido de gotas. As nuvens desfilavam no céu, um dia típico de sol com chuva. Um jovem magro corria pelas ruas molhadas do centro da cidade procurando por um livro de história do Amazonas. No bolso, carregava o suficiente apenas para comprar o livro com um desconto chorado e sua passagem de ônibus. As ruas do centro eram suas velhas conhecidas, conhecia desde o Paço da Liberdade ao Teatro Amazonas, caminhava repetindo sempre os mesmos passos e captando a mesma essência de toda visita ao lugar, preso numa rotina incessante da qual jamais escaparia.

Correu em um beco sem nome, e se deparou com uma loja cuja vitrine estava bem decorada com luzes brancas do último Natal que ainda pendiam sobre o arco da porta. Quinquilharias preenchiam as prateleiras de vidro que exibiam aquele acervo de objetos intrigantes e curiosos. Um homem de óculos arrumava alguns livros dentro da loja e acenou para Rodolfo quando o viu, fazendo-o se sentir estranho, como se o conhecesse, apesar de nunca tê-lo visto. O reflexo do relâmpago se destacou no escaparate à sua frente, a chuva vinha como uma cachoeira pelo beco, perseguindo o incauto Rodolfo pelas ruas do Centro enquanto procurava por um bendito livro de história, condenado às consequências de sua escolha de abandonar a própria história que jamais seria escrita, sentença semelhante a de muitos que desistem de escrever o próprio destino por se prenderem ao medo. Uma das inúmeras histórias desfeitas nas areias do tempo.

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O TEMPO NO CORAÇÃO – CONTOS

Areias do Tempo [Partes II e III]

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