Prisioneira do Tempo

Eu acho que ela via o futuro, mas talvez seu segredo fosse outro, talvez ela brincasse com o tempo do jeito que quisesse ou, quem sabe, eram apenas as suas apostas que costumavam se acertar com muita precisão. Nas noites estreladas ou nubladas tinha sonhos em que se perdia através de inúmeras portas, quase sempre nos mesmos lugares, com pessoas muito parecidas, porém em situações diversas – foi o que me confessou uma única vez. Naquele dia, olhava para uma borboleta com asas azuis, de um azul intenso e vibrante.

– É linda, não é? – perguntei enquanto admirava seu rosto gentil com traços tão suaves que lhe davam um semblante de inocência.

– Maravilhosa – disse sorrindo.

Tive a impressão de ter me perdido em alguns pensamentos sobre a sua beleza, até que ela me trouxe de volta à realidade.

– No que está pensando? – ela me perguntou.

– Em nada… – engasguei com as palavras.

– Alguém já te disse que seus diálogos são um pouco mortos?

Fiquei perplexo com aquela indagação.

– O quê!?

– Sim, parece que você tem uma relativa dificuldade em criar uma boa conversa ou prender a atenção durante um diálogo, sabe? – ela explanava gesticulando com as mãos e me olhando com aqueles olhos de cor âmbar. – Acho que você precisa ler menos e tentar conversar mais com as pessoas, ser menos um personagem de livro e ser mais humano, assim nunca vai encontrar uma namorada.

– Eu gosto de imaginar que sou um personagem… – retruquei sem jeito e sem ter ouvido muito bem a parte de arranjar uma namorada.

– Sim, sim, eu sei! Eu também amo ler e viver inúmeras aventuras, mas também quero viver as minhas próprias de vez em quando – suas palavras não foram tão convincentes. – Quem sabe quando passe no vestibular e enfie menos a cabeça nos livros do cursinho você tenha mais tempo para si e possa me ensinar a viver aventuras por aí – percebi seus olhos se esquivando e o tom hesitante naquela afirmação.

– Por que não consigo acreditar na sua sinceridade? – encarei desconfiado enquanto ela engolia em seco. – Você acha que quando eu passar na faculdade eu vou continuar do mesmo jeito?

– Eu tenho uma certeza sobre isso…

– Como pode ter tanta certeza?

Ficou em silêncio momentaneamente e tentou mudar de assunto.

– Ah, sabe, eu me perco lendo também, mas às vezes me sinto como se fosse prisioneira do tempo.

– Entendo, o tempo passa e é impossível fazer tudo ao mesmo tempo – concordei. – Mas, Leca, como pode ter tanta certeza sobre coisas que você ainda nem viu acontecer?

Ela ficou calada por um instante e voltou a olhar para a borboleta. Comecei a admirá-la também, batendo suas asas e dançando no ar entre as árvores a alguns metros de onde estávamos sentados.

– Em alguns momentos eu apenas queria o significado deste lugar em meus pensamentos, a paz – disse ela olhando para um pequeno obelisco com os dizeres Praça da Paz em mais de um idioma.

A Praça da Paz no Parque do Mindu é um dos lugares que eu menos frequentava, chegava a ser uma raridade adentrar naquele espaço que sempre tentou preservar a natureza no meio urbano da grande Manaus. Mas ali eu estava naquela manhã de domingo, sentindo a temperatura amena dentro do bosque e vendo as nuvens cobrindo o céu azul além das árvores – com certeza faria muito calor mais tarde. Eu e Leca contemplávamos o cenário. Leca era uma garota cheia de mistérios e que tinha uma peculiaridade única, ela supostamente podia ver o futuro. Era no que eu acreditava às vezes, mesmo ela nunca tendo dito uma única palavra concreta sobre isso antes.

– Por que acha que meus diálogos serão sempre mortos?

– É porque você tem medo das outras pessoas.

– Mas eu não tenho medo de você.

– Claro, nem devia, somos amigos.

Não achei que aquelas palavras fossem me machucar, foi aí que percebi que um amor platônico havia se formado naquela relação e que tudo que talvez ela estivesse tentando fazer fosse me dar um fora.

– Sim, nós somos – concordei enquanto pensava que essa história toda de ver o futuro era uma besteira só, que ela era apenas muito sortuda e por isso acertava todas as apostas que fazíamos sobre qualquer coisa do dia a dia.

Percebi que ela perdeu de vista a borboleta e que seus olhos se movimentavam muito rápido em várias direções, sua respiração se tornou ofegante e por um momento pareceu que ela não estivesse ali, como se alucinasse.

– Leca… – chamei por ela. – Leca!

Ela respirou fundo assim que coloquei minhas mãos em seus ombros. Estava de frente para ela e seu olhar parou diretamente no meu. Nunca tinha visto um olhar tão perturbado em toda a minha vida.

– O que aconteceu? – perguntei preocupado.

Ela respirava com certa dificuldade.

– Eu acho que é só minha asma, sinto uma falta de ar e uma pressão no peito…

– Não é sobre isso que eu perguntei… – parei para pensar por um minuto e acrescentei: – E desde quando você é asmática?

– Eu não sei – ela hesitava em olhar nos meus olhos.

– Leca, eu achei que eu estivesse ficando doido, mas essa não é a primeira vez que percebo você olhando pro nada ou para algum lugar como se estivesse fora de si, mas eram momentos tão simples que eu sempre ignorei – fiz uma pausa e tentei encontrar os seus olhos novamente. – Mas dessa vez foi diferente.

Ela começou a chorar.

– O que está acontecendo? – ela perguntou desesperada.

– Quer que eu lhe leve a um médico? – perguntei.

– Não! – respondeu ela ofegante.

– Então respira fundo e devagar, do contrário eu vou acreditar nessa sua asma e ter que lhe levar imediatamente ao pronto-socorro!

Ela tentou se acalmar, inspirou bem fundo e logo foi voltando a respirar numa frequência que julguei adequada para me tranquilizar também. Podia ter o pior diálogo de todos e demorar a reconhecer sinais de um fora vindo de uma garota, mas eu sabia reconhecer um problema quando via.

– Vem, vamos sair daqui – concluí.

Levantei e estendi a mão a ela, que com um olhar entre a tristeza e a indiferença aceitou o convite para se retirar dali. Fomos andando pela trilha, contemplando a flora exuberante que se erguia ao nosso redor, até chegarmos perto do chapéu de palha que servia o café regional e estava com pouco movimento naquele dia.

Ao perceber que ela estava melhor, fomos andando em direção à saída, sem deixar de ver uma cotia e alguns lagartos correndo pelas folhas secas no chão do matagal que circundava a pista principal do parque. O sol começava a esquentar e, na famosa Bola do Mindu, o movimento se concentrava no pequeno comércio circular e composto de prédios antigos, tudo para providenciar o frango assado ou o peixe para o almoço em família típicos do domingo.

– Minha parada fica por ali, tem certeza que não quer que eu vá ao hospital com você? – perguntei insistindo em acompanhá-la.

Percebi pela primeira vez minhas segundas intenções com ela. Talvez por ver aquele rosto tão delicado triste julguei erroneamente que o que ela precisava era de um homem forte ao seu lado, quando o que ela realmente precisava era apenas um amigo. O momentâneo desejo de acariciar seus lábios e tocar sua pele passou. Por um milagre da maturidade surgindo na minha juventude, ainda fugindo da adolescência, decidi levá-la até a sua casa.

– Quer saber, vou deixar você em casa e daí volto para a minha.

– Não precisa… – ela desviou o olhar desconcertada.

– Vamos, se pegarmos o 427 eu posso deixar você no Centro e ainda voltar pro Parque das Laranjeiras no mesmo ônibus, se não perder muito tempo…

Ela me olhou surpresa e então sorriu. Foi a expressão mais sincera dela naquele dia.

Após uma hora esperando o ônibus de domingo na parada em frente ao Buracão, conseguimos embarcar. Estava um tanto cheio para um domingo e o cobrador era mais engraçado do que qualquer pessoa que eu tivesse visto naquela semana e não parava de contar piadas ou falar sobre a disputa para as eleições para prefeito, às vezes misturando os dois assuntos.

– Tem tanto buraco na rua que já tem fila de buracos nas calçadas esperando pra ir pro asfalto, mas nosso futuro prefeito irá melhorar isso, com certeza – ele falava com uma entonação que fazia o motorista do ônibus, um gordinho com bigode, cair na gargalhada.

– Acho que a gente devia apostar quem vai ser o novo prefeito – retrucou o motorista.

– Pois eu não aposto é nada, sempre perco essas apostas – desanimou o cobrador. – Mas se o presidente escolhe um favorito, vai que…

Faltavam duas semanas para o tão esperado segundo turno das eleições de 2008, a ansiedade tomava conta mais pela curiosidade do que pela preocupação em melhorar a cidade, cada qual mais preocupado com seus próprios interesses do que com os da maioria e escolhendo os candidatos com os quais mais se identificassem.

Naquele vai e vem de perguntas, olhei para Leca e perguntei:

– E aí, se você apostar com esses caras com certeza ganha, né?

– Hum-rum! – respondeu um pouco mais animada. – Eu sei exatamente quem vai ganhar.

Senti a convicção na sua afirmação e então não me contive.

– Leca, você pode ver o futuro?

– Como assim? – ela desviou olhar para fora enquanto passávamos pela Bola do Eldorado. – Ninguém pode ver o futuro, ficar fazendo prognósticos é um tipo de pecado, sabia?

– Então por que fica apostando em jogos de azar? – encarei ela com a cara mais feia que pude fazer.

– Porque… – ela corou e então me olhou com raiva. – Ai, seu idiota.

Sorri com o gosto de uma falsa vitória. Ela revirou os olhos e então ficou triste novamente. Respirou fundo e então confessou algo que queria ter esquecido para sempre.

– Eu sonhei que morria.

O sorriso sumiu do meu rosto tão rápido quanto veio.

– Mas é só um sonho…

– Naquela hora no parque, eu vi um lugar bem diferente e pessoas correndo – ela respirou fundo.

– Como era esse lugar?

– Era uma avenida separada por um canteiro cheio de árvores bem grandes e densas que se espalhavam por toda a rua, fazendo sombra durante todo o dia, havia prédios bem altos de um dos lados e outros menores do outro, um colégio em uma esquina, muitos ônibus fluindo e várias pessoas caminhando, indo e vindo de escolas e empregos, alguns vendedores e pedintes ambulantes, parados nos semáforos das ruas adjacentes e perpendiculares a essa avenida.

– O que acontecia? – perguntei mais curioso.

Ela baixou o olhar e ficou olhando para os próprios pés na barra de ferro do banco da frente do ônibus.

– Havia um tiroteio e muitas pessoas estavam feridas, muita confusão no local e muita gente gritando – uma lágrima escorreu pelo seu olho esquerdo enquanto ela descrevia o que parecia ser uma visão ou uma espécie de lembrança. – Era tão vívido quanto o dia em que perdi minha mãe, João.

– Não precisa falar disso.

Ela olhou para mim e deu um sorriso.

– Por que tenho a impressão de que meus diálogos com você estão começando a se tornar mais fluidos?

– Talvez porque você não possa ver meu futuro – ri enquanto puxava a orelha dela com carinho.

Ela ficou surpresa, como se tivesse visto um fantasma.

Naquele dia descobri que Leca tinha perdido a mãe durante um assalto no qual ela havia reagido para proteger a filha e então levou um tiro à queima-roupa enquanto aquela menininha corria desesperada a procurar ajuda. Por algum motivo, Leca acreditou ter visto o seu próprio destino naquele dia, um futuro incerto a se concretizar em alguns anos mais, sem saber a hora e o momento exatos, mas possivelmente da mesma maneira que sua mãe. Antes de se despedir, disse que já não via mais o mesmo futuro para mim e pela primeira vez disse algo parecido como ver o amanhã que ninguém mais podia ver. Comentou suas apostas para os resultados da prefeitura e até mesmo sobre alguns resultados das Copas do Mundo de 2014 e 2018. Nada do Hexa ainda, comentou triste.

Ao descer do ônibus se virou para me agradecer pela companhia.

– Agora já pode entrar na comunidade “Eu já peguei o 427” – disse me despedindo.

– Desculpa, eu já apaguei meu Orkut – ela respondeu sorrindo dando tchau enquanto a porta do ônibus se fechava e eu me aproximava da janela para vê-la. – Mas eu prometo te agradecer com um presente depois.

Creio que a maioria de suas apostas se provaram verdadeiras, apostas do último dia em que vi Leca totalmente bem, pois daí em diante tudo o que vi foram crises de dor e agonia, lembranças de remorso e culpa pela morte de sua mãe e o medo da própria morte. Não durou muito tempo da minha convivência com ela, até que sua irmã decidiu levá-la misteriosamente para São Paulo.

Quase dez anos se passaram e eu nunca mais tive notícias sobre ela, até que recebi uma ligação de telefone misteriosa que me perguntou se eu conhecia Alessandra Cristina Cordeiro e se a tinha visto nos últimos dias. A voz do outro lado referia seu retorno a Manaus e que estava envolvida em um incidente ocorrido há alguns dias e logo havia desaparecido.

Ela estava desaparecida após ter sido vista uma última vez em um tiroteio na avenida Getúlio Vargas no Centro, um lugar muito arborizado, onde a sombra dura o dia inteiro e o fluxo de pessoas e veículos é intenso.

Olhei tão somente para o presente que ela me dera antes de desaparecer de minha vida, brilhando na estante, reluzindo sob a luz da lâmpada a sua areia dourada, semelhante à cor âmbar dos olhos dela, uma maldita ampulheta que me lembrava os efeitos do tempo na vida de Leca e o mistério que nunca me fora revelado sobre ela ver ou não o futuro.

Foi quando recordei subitamente que em uma de suas crises ela simplesmente balbuciou palavras que eu achei ter esquecido. O tempo é multiforme, é linear, é cíclico, às vezes é como uma pirâmide, outras vezes como uma teia de aranha, mas seja qual a forma que ele tome sempre permanecerá como um eterno mistério.

A verdade é que ela viveu e reviveu aqueles momentos tantas vezes em sua mente que já confundia o próprio passado, o presente e o sabe se lá o futuro. Mesclava a depressão e a ansiedade que já machucavam além do plano mental, já davam marcas de cortes em seus punhos e inclinava as pessoas a acreditarem que estava plenamente louca. Sua maldição era igual a de muitos, o efeito do tempo sobre aqueles que não aprenderam a lidar consigo e tampouco com ele.

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