Pai [Parte I]

– Natal era sempre o dia mais feliz do ano. Vocês não sabem dar valor ao que têm – começou o sermão do meu pai na hora do almoço, sempre no mesmo dia, no mesmo local. – Antes do papai ir embora a vida já era difícil. Nós não tínhamos para comer todos os dias e algumas vezes era só a farinha d’água frita na frigideira, o pirão sem tempero algum.

Pronto, ele já tinha a atenção da família inteira e havia conseguido silenciar a discussão. Meu irmão mais velho suspirou, mas parou para ouvir o que viria pela frente já que aquele tom de voz significava que éramos ouvintes em primeira mão de uma velha história não contada do meu pai.

– O avô de vocês me levava todo Natal ao centro e comprava um brinquedo novo para mim com o que ele juntava, especialmente com o que sobrava, o que já não era muito. Eram míseras moedas, troco de compras do mercadinho e uma renda extra que vinha com o trabalho.

Tentei imaginar meu velho em suas primeiras primaveras, um garoto com suas roupas maltrapilhas que eram trocadas uma vez a cada seis meses porque já não tinham mais como serem usadas, roupas costuradas pela própria mãe, que comprava o tecido e depois ia apenas reaproveitando e modelando o mesmo pedaço de pano para cada filho. Era aquela roupa cujas bermudas não tinham elástico e que rasgavam na primeira partida de futebol na rua, camisas do material mais simples, que deviam servir para a maior parte da semana, o melhor que o pouco dinheiro podia comprar.

– Depois que ele comprava um brinquedo novo, o que geralmente era uma bola de futebol que durava um mês de tanto ser usada, ele me levava para comprar um salgado e tomar refrigerante num saquinho e com canudinho.

Meu pai contava sobre sua infância com certa nostalgia. Por mais que ele tivesse tido uma vida difícil nos seus primeiros anos de sua existência, recordava com certa gratidão e sem muita mágoa – aparente – sobre o que ele havia vivido. Entretanto, eu percebia que naquelas palavras havia um tom melancólico, eram memórias de um período de pobreza e alguns dias de fome que, graças a ele e a Deus, jamais poderei compreender. Nenhum de nós consegue entender aquilo que nossos pais viveram, por isso somos diferentes deles apesar de tão parecidos, são genes semelhantes, mas épocas e experiências distintas.

Apesar da sensação de gratidão, sempre percebi que o passado havia marcado meu pai de alguma maneira, tornando-o em alguém que criou seu modo de lidar com a vida. No fundo eu sentia que ele nunca havia perdoado seu próprio pai totalmente.

Teve um tempo em que criticar meu pai era a forma concreta de criticar os medos que ele colocou na minha cabeça quando criança. Meu pai quase nunca me bateu, mas as marcas mais profundas que existem em mim são as emocionais. Preferia que ele me batesse a que desacreditasse dos meus sonhos, preferia que ele sonhasse mais ao invés de pensar que o mundo é tão cruel que eu não pudesse ousar voar alto. É impossível ter isso ou aquilo, dizia para mim, sempre colocando o problema à frente da solução.

Com o tempo, eu descobri que tinha medo de ser como ele, que eu herdasse a chatice e a arrogância dele, tendo o mesmo destino. Entretanto, por mais que eu brigasse muito com ele, tinha uma consideração tremenda pelo meu pai. Ele é o tipo de pessoa que não ri por qualquer coisa, mas que chora em filmes baseados em histórias reais com finais emocionantes ou de superação. Costuma acreditar que a água da chuva é a culpada pelo resfriado, mas que tomar banho de água gelada resolve os males do corpo, que andar descalço baixa a imunidade e que saliva de cachorro sara feridas, mas cachorro só no quintal, não importa o tamanho. Tem uma personalidade tão forte que em alguns momentos eu não suporto e, por ter herdado algumas características que me tornam do mesmo jeito que ele, acabo enfrentando certos diálogos ou opiniões divergentes, criando um conflito cósmico do tamanho de casa por conta disso.

Naquele dia em que ele me dava um sermão sobre a importância de agradecer pelas coisas que conquistamos, pelas bênçãos recebidas e todo o blá-blá-blá de um velho pedreiro, eu senti um desejo de dar ao meu pai um presente único: mudar seu passado para melhor. Não foi um desejo puramente egoísta, eu queria mesmo que meu pai pudesse superar todos os traumas que marcaram sua infância e o fizeram abrir mão de certos aspectos emocionais – que qualquer adulto tem dificuldade em lidar às vezes.

Consertar o passado é algo fora da razão. Tudo bem, é algo impossível, mas justamente naquela hora me veio à tona a lembrança de um rapaz usando um capuz e roupas de corrida que esbarrou em mim na orla da Ponta Negra no dia anterior. Enquanto pedia desculpas pela minha distração, ele sem rodeios disse:

– Sei que não vai parecer fazer nenhum sentido o que vou te dizer, e talvez nem precise fazer tanto agora, mas se por acaso amanhã você decidir ajudar alguma pessoa muito importante para você, mande uma mensagem – disse estendendo um pequeno cartão com um número de telefone. – Você tem o que precisa, um coração generoso. Lembre-se disso, é o suficiente.

Sem que eu pudesse questionar, ele se virou e continuou correndo como se nada tivesse acontecido. Fiquei sem reação, mas guardei aquele cartão, sem imaginar que a pessoa a quem gostaria de ajudar fosse o meu pai.

Considerei ligar para o rapaz que parecia saber da minha vontade e, mais estranho ainda, que sabia que ela surgiria exatamente no dia após o inesperado encontro na orla. Não era coincidência, pensei, mas por um momento voltei à realidade e me permiti desfrutar do almoço em família com um sorriso sereno, já desarmado de argumentos ao poder ouvir meu pai contando sobre suas histórias e dificuldades que tornaram ele na pessoa que é hoje.

Alguns traumas de infância são capazes de destruir sonhos e moldar negativamente a personalidade de uma pessoa, que se não for guiada ou não buscar saídas, fechará as portas do próprio coração para aquilo que ainda existe de bom por aí.

Pode não parecer, mas quando meu avô abandonou a sua família, meu pai foi um dos que mais sofreu com a perda. Os natais já não seriam mais os mesmos, e tenho certeza de que nunca mais foram. Não consigo exprimir em palavras a sensação que deve ter tomado conta de sua pequena existência naquele momento frio da vida e quando a escuridão tomou conta de seu coração como se não fosse mais haver amanhã.

Dizem que para você se tornar forte você deve passar pelos piores sofrimentos existentes e pelas provas mais difíceis. Acho que todos devemos passar por provas para nos tornarmos melhores, mas jamais deveríamos vivenciar a dor e o sofrimento que marcam e deixam feridas que não cicatrizarão nunca – é cruel pensar que sofrimento é força e justificar sua existência como necessidade.

Queria dar uma nova história ao meu pai, uma história digna de ser contada nos filmes de superação que ele mesmo tanto ama. Gostaria de que ao menos ele tivesse tido a oportunidade de estudar, como ele tanto sonhou.

Quando o almoço acabou e cada um tomou seu canto da casa para dormir, decidi sair para pensar se ligaria ou não para aquele número no estranho cartão, em cujo verso havia um símbolo do infinito desenhado. Fui até a Ponta Negra novamente para caminhar e pensar na história que meu pai havia contado.

Após alguns instantes de meditação, peguei o meu celular e o cartão, digitei os números e me preparei para ligar.

– Acho que se você não colocar créditos no seu celular você não vai conseguir ligar para esse número.

Um arrepio percorreu pela minha espinha e se difundiu pelo meu corpo todo, deixando os pelos dos meus braços eriçados enquanto eu me virava para trás assustado por ver o rapaz de capuz a apenas alguns metros distante.

– Oi de novo! – comentou ele levantando a mão e acenando com um sorriso simpático. – Achei que o encontraria aqui.

– Como sabia que eu estaria aqui? – perguntei enquanto ouvia a mensagem eletrônica pedindo para colocar créditos no celular.

– Não sabia – ele mentiu descaradamente enquanto esboçava um sorriso forçado.

Fiquei pensando se deveria ou não aceitar a ajuda daquele estranho. Minha intuição dizia que o que estava acontecendo tinha um propósito, não era mera coincidência. Encarei ele e então disse:

– Você não é uma pessoa comum…

– Então, quem você quer ajudar? – ele me cortou as palavras e seu olhar se tornou sério o suficiente para assustar.

Tentei me manter firme, sem demonstrar medo e, ao mesmo tempo que a curiosidade me invadia, decidi expor minha ideia.

– Quero ajudar meu pai.

– Como?

Hesitei.

– Como quer ajudar seu velho pai e por que quer fazer isso se você discute tanto com ele e tem até medo de se parecer com ele? – ele se aproximou e então falou o que eu menos esperava ouvir: – O tempo pode parecer amargo, mas nós podemos torná-lo doce e suave.

Paralisei por completo. Quem era essa pessoa tão intrigante e que ao mesmo tempo conhecia todas as intenções do meu ser.

– Como assim?

Sem mais delongas e parecendo estar perdendo tempo comigo como se tivesse mais problemas para resolver, ele retrucou:

– Meu trabalho é fiscalizar o bem-estar de algumas pessoas neste mundo. Contemplar suas ações e dar uma nova chance a elas. Acredite, o seu eu futuro estaria pedindo pra isso estar acontecendo hoje.

– Qual o preço? – perguntei atônito.

– Apesar de seu inestimável valor, não existe preço para o tempo, existem consequências. O tempo perdido jamais pode ser recuperado, mas existe um poder capaz de mudar isso.

– Quem é você exatamente?

– Ouça, quem sou ou o que sou não importa agora, é algo para ser discutido em algum outro momento se assim for preciso. Você não precisa entender tudo o que acontece de bom ou ruim na sua vida ou atribuir culpa a algo ou alguém para continuar vivendo e fazendo aquilo que deve fazer.

Suas palavras começavam a me convencer de que ele poderia me ajudar.

Respirei fundo enquanto decidia se aceitaria sua ajuda ou não, até que num ímpeto, encarei o estranho e perguntei:

– Quando começamos?

Seu sorriso foi de uma orelha a outra.

– Essa sim é uma boa pergunta.

Ele estalou os dedos e aquele momento já não existia mais.

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O TEMPO NO CORAÇÃO – CONTOS

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