Pai [Parte Final]

Abri os olhos e continuava escuro, não fazia ideia de onde estava, mas com certeza não era a minha cama. Procurei em vão por um interruptor e sai do colchão derrubando tudo que eu não conseguia ver. Escorreguei em alguma coisa e o tombo fez um estrondo que fez com que minha cabeça ficasse doendo. A porta do quarto se abriu, trazendo luz e uma resposta à minha pergunta.

– O que tá aprontando, pirralho?

Era minha mãe.

– Nada, mãe. Onde é que eu tô?

– Em casa, ora essa.

Olhei ao redor com certa dificuldade de acreditar no que estava vendo. Um quarto maior, com um bom ar condicionado e uma cama duas vezes maior que a minha. Minha mãe vestia uma farda de trabalho.

Tentei me levantar novamente e saí do quarto. Não era a minha casa, mas minha mãe dizia que era. Dois andares, quadros espalhados pelas paredes, uma televisão enorme na sala, um carro na garagem e uma árvore de Natal imensa na sala. Só podia estar sonhando.

– O que foi, filho?

Virei-me para ver aquele garoto transformado em homem, já com alguns de seus cabelos grisalhos.

– Pai! – corri para perto dele e o abracei.

– O que aconteceu, menino? Parece que nunca mais tinha me visto.

– Parecem quase quarenta anos – respondi soltando meu pai. – O senhor parece feliz – sorri, enquanto vi meu pai olhando para mim e respondendo o meu comentário.

– Ora, e por que não estaria?

– Realmente… – olhei para a casa novamente.

– Parece perdido, garoto – comentou minha mãe, indo para a cozinha.

– É que eu tive um sonho muito estranho essa noite…

– Tem que parar de comer antes de dormir – meu pai retrucou.

– Aonde o senhor vai vestido assim? – questionei por fim, tentando mudar de assunto.

– Pro aeroporto, ora essa…

– Como assim?

– Menino, você tá doente? – perguntou ele colocando a mão na minha testa.

– Eu acho que ainda estou dormindo.

Ele deu um breve sorriso e me abraçou se despedindo, parecendo ao mesmo tempo apenas agradecer pela minha existência. Meu pai saiu e eu fui imediatamente até a cozinha para questionar a minha mãe sobre alguma coisa.

– Mãe? – chamei. – Mãe!

– Oi?

– Pra onde o pai tá indo? – perguntei ainda sem acreditar que agora tínhamos um fogão melhor que o de antes e até mesmo uma geladeira maior.

– Vai pro Rio de Janeiro, ué…

– Mas fazer o quê?

– Que bicho te mordeu, menino?

Eu quis me beliscar.

– Por que tá fazendo isso? – disse minha mãe jogando um pano em mim ao me ver beliscando o dorso da mão.

– Eu acho que eu estou sonhando. Mãe, fala, o que o pai tá indo fazer no Rio de Janeiro.

Minha mãe suspirou e, com pena de mim por me ver tão atordoado, decidiu responder:

– Seu pai vai defender o doutorado dele em Astrofísica na Alemanha, mas precisa ir ao Rio de Janeiro antes – ela então fez uma pausa e deu um sorriso tremendo. – E pensar que tudo isso porque alguém um dia disse pra ele sonhar e olhar além das nuvens.

Eu não sabia o que sentia, era um misto de susto com alegria, uma alegria com a vontade de chorar.

Por um momento pensei como gostaria de que uma mudança na minha vida acontecesse assim, foi quando percebi que o momento era agora, que eu não precisava que alguém viesse do futuro me mostrar o caminho, que eu apenas precisava me esforçar e acreditar. Meu pai não sonhador havia tão somente deixado de acreditar ao enfrentar sua maior decepção, mas quando alguém se mostrou compassivo com ele e insistiu que devia acreditar nos sonhos, resistiu, tornando-se ainda mais sonhador do que já era.

Assim são as pessoas que vivem neste mundo, elas precisam apenas de alguém que lhes diga: “acredite, insista, você é capaz”, ainda que o pior aconteça e os bons resultados não venham, o fato de saber que alguém as apoia é o suficiente para enfrentar as maiores tormentas da vida. Para pessoas como meu pai, um abraço é suficiente. Para mim, suficiente foi compreender a história do meu pai.

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O TEMPO NO CORAÇÃO – CONTOS

Pai [III]

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