Pai [Parte II]

Pisquei por um segundo e me vi em uma Ponta Negra antiga, com lojas que me eram estranhas, sem os mirantes e com alguns prédios em construção. Olhava para cada detalhe sem saber como descrever com exatidão. Vi um fusca branco ostentando sua buzina com alguns rapazes paquerando algumas moças. A música alegre vinda de um bar nem se comparava com as músicas que eu escutava na minha rua vindas do barzinho do seu João. Deduzi imediatamente que havia voltado no tempo.

– Como você fez isso? – perguntei.

– Apenas as perguntas certas.

– Quando?

– 1979 – ele respondeu olhando ao redor admirado. – Já estive aqui, mas é sempre surpreendente.

– O que fazer?

– Não é complicado, o mais difícil vai ser encontrar seu pai.

– Eu acho que sei onde encontrá-lo – dei um palpite.

– Sabe não.

– O que você sabe? – perguntei já me irritando.

– Mais do que você.

– Então, por que não me responde? – repliquei.

– Já disse, apenas as perguntas certas.

Suspirei e olhei ao redor, pensando nas perguntas que formular.

– Voltamos no tempo, certo?

Ele apenas virou as costas e começou a andar assobiando.

– Se eu encontrar meu pai aqui, posso mudar a vida dele?

– Será que é tão fácil mudar assim? – ele questionou.

– Se eu mexer algo aqui pode dar certo, não é?

– Tão certo que seu pai pode deixar de ser seu pai.

Engoli em seco. Eu queria mudar a vida do meu velho, mas eu não fazia ideia de como o tempo fluía, tampouco tinha parado pra pensar nas teorias do tempo-espaço que existem e naquelas ideias bizarras que fogem a todas as teorias, nem tinha cogitado em como uma mudança no passado poderia interferir na vida futura, até mesmo na minha. Eu comecei a ter medo de fazer alguma besteira.

Enquanto andávamos, observei um pouco mais sobre o estranho e percebi que usava um colar dourado com o símbolo do infinito nele. Ele tirou o capuz da cabeça, tinha os cabelos castanhos curtos e um topete, andava de modo esnobe, como se fosse o rei da cocada preta, mas a impressão que eu tinha era que tudo aquilo era atuação dele, como se fingisse ser quem não era.

Andamos bastante, o suficiente para aceitar que precisávamos pedir carona para ir até o centro da cidade. Ao chegar no nosso destino, pude perceber as decorações de Natal nas lojas do Centro. Não era tão sujo quanto nos dias atuais, as pessoas pareciam alegres e o tempo era algo que não preocupava tanto.

– Você não é um desses espíritos do Natal, né?

– Se eu fosse, estaríamos andando tudo isso? – ele me respondeu.

– Foi exatamente o que eu pensei – retruquei lamentando a sorte da caminhada. – Os espíritos do Natal com certeza já teriam me levado aonde eu precisaria ir.

Era tudo longe e ao mesmo tempo tudo pequeno. Tentava imaginar que meu avô e meu pai estariam por ali, mas só então percebi a falta de detalhes das histórias que eu não havia guardado na memória.

– Por que não pensou em ir direto para a casa onde ele morava? – perguntou o estranho.

Parei de caminhar por um instante, assustado com minha sutil ignorância. Estava tão perplexo com a viagem no tempo, que não havia cogitado o mais óbvio.

– Por que você não sugeriu isso antes? – questionei.

– Porque você disse que sabia onde encontrá-lo.

– Verdade… e sei!

– Então onde? – questionou ele de novo.

– Será que conseguimos alguma outra carona? – falei sem jeito.

O calor aos poucos transformava-se em ventania e as nuvens escuras tomavam conta do céu. Dezembro é o mês das chuvas, a qualquer momento poderia chover, era o que anunciavam os céus.

Chegamos à rua onde meu pai morava já no fim da tarde.

– O que pretende fazer? – perguntou o estranho.

– Eu não sei.

Olhava para o bairro imaginando todas as mudanças que o tempo fizera nele, todas as casas que iriam surgir, o trânsito ruim que se apossaria dali e o calor do asfalto que dominaria os dias de verão. Já estava escurecendo e alguns relâmpagos cortavam o céu.

Fiquei de longe olhando a casa do meu pai, esperando que algo acontecesse. Não imaginava que presenciaria exatamente aquela cena que marcou sua vida.

Um homem saiu pelo portão com uma maleta e vestindo sua melhor roupa, usava um chapéu para esconder parte do rosto e dirigia-se até nós. Ele passou por nós e pude perceber que era o meu avô bem mais novo.

– É ele… Espera… – engoli em seco. – Será que…

De repente, um garoto magrelo saiu pelo portão com o rosto cheio de lágrimas.

– Espera! – o garoto gritou para o homem. – Não vai embora.

Contemplei o garoto magrelo e moreno, cabelos enrolados, olhos avermelhados de tanto chorar, os braços vermelhos com marcas de mãos que o tentaram prender ali naquele lugar.

– Pai… – eu disse ao mesmo tempo que o garoto.

Fiquei paralisado. O garoto correu e passou pelo meu lado e se agarrou no velho homem com a maleta.

– É quase Natal… não vai embora.

O homem não disse nada, eu não conseguia ver suas expressões. Apenas o vi balbuciando algumas palavras que os trovões encobriram de mim. Ele partiu.

O garoto correu na direção oposta. Cerrei os punhos e encarei o estranho que me acompanhava.

– Eu vou lá.

Corri atrás daquele garoto. Já estava escurecendo e ventava ainda mais, até que de repente, o vento cessou. Eu parei bem ali, em frente a um campinho de futebol, olhando aquele garoto ajoelhado e com o rosto no chão, nas mãos tinha uma bola de futebol totalmente surrada.

Era quase Natal, mas aquele garoto chorava. O estranho se aproximou de mim e eu apenas o encarei.

– Chegamos tarde demais…

– É exatamente onde devemos estar.

– Mas o pior já aconteceu.

– Nem sempre podemos impedir o pior de acontecer.

– Não… Voltamos no tempo, mas pra quê?

– Sua resposta está logo ali – ele apontou para o garoto que chorava. – Algumas mudanças só acontecem por causa das dores que vivemos.

Ouvi as palavras do estranho e me aproximei daquele garoto magrelo. Sentei ao lado dele na areia e deixei que ele percebesse minha presença. Ele apenas chorava. Olhou por um momento para mim com os olhos vermelhos que denunciavam sua torrente de lágrimas.

Por um minuto, percebi que toda a raiva que sentia do meu pai era por causa daquele momento, por não entender a dor que ele sentira por todos aqueles anos sem poder jamais dizer a alguém. Meu pai havia lutado por anos contra a dor da perda e do abandono, mágoas que destruíram as emoções de uma criança sensível. Entendi meu pai e, no meu coração, perdoei todas as palavras de censura que ele já havia me lançado e pedi perdão por todos os momentos em que não entendi seus motivos.

– Por que você está chorando? – perguntei ao garoto.

– Meu pai foi embora…

– Você gostava muito do seu pai?

Ao que ele balançou a cabeça e me respondeu:

– Ele era tudo pra mim… – de repente ele parou de chorar e franziu o cenho. – Eu… Eu nunca vou perdoá-lo…

Observei que era exatamente aquilo que marcava meu pai.

– Você pode perdoar ele, sabia? – comentei. – E você vai poder seguir em frente de cabeça erguida. Não vai precisar machucar ninguém pra fazê-los entender que você sofreu pelo abandono do seu pai nos dias mais duros de sua vida. Não há necessidade nenhuma disso, apenas perdoe.

– Eu não sei se sou capaz… – ele me respondeu.

– Eu sei, é difícil…

Engoli em seco, não contive as lágrimas e o abracei.

O garoto se sentiu acolhido de tal maneira que permitiu que suas lágrimas voltassem a transbordar. Nossa dor era só uma, nossa maior tormenta havia nascido naquele momento. E nem podia culpar totalmente meu avô, ele era vítima das circunstâncias também, sofrendo com traumas de outros tempos, um ciclo sem fim que atravessa gerações até que haja alguém com coragem o suficiente para enfrentar a superfície de tensão.

Eu achei que eu fosse esse alguém, até entender que na verdade era meu pai, mesmo sendo o homem que era, cheio de defeitos, ele que foi o diferencial, o ponto de quebra desse ciclo, não desistindo jamais da sua própria família, criando seus filhos para respeitarem as mulheres, a estudar e trabalhar e buscar uma vida digna.

Olhei para a versão mais nova do meu pai e sorri.

– Moleque, nunca desista dos seus sonhos, a vida às vezes pode ser amarga e certamente existem muitas decepções, não esqueça dos momentos que teve com seu pai. Se um dia o vir de novo, abrace-o mesmo que ele diga que não quer um abraço e se algum dia alguma coisa ruim acontecer, saiba que você vai conseguir superar todas as suas dificuldades.

– Por que está me dizendo isso? – ele me perguntou.

– Porque sei como é quando ninguém acredita nos seus sonhos, mas você pode acreditar e insistir nisso. Peça para sua mãe lhe matricular numa escola, sei que não tem muito dinheiro e que alguém precisa trabalhar, mas você pode ser alguém melhor se estudar.

– Mas e se eu não conseguir? – questionou ainda desiludido.

– Ora essa, quando desanimar, apenas olhe para o céu estrelado.

– Mas está nublado.

– Não complica, pirralho – falei puxando a orelha dele.

– Ai… E vai chover.

– Ótimo, assim você percebe que chovendo ou não, as estrelas sempre vão estar lá, não esqueça disso jamais.

– Começou a chuviscar…

– E eu preciso ir.

Meu misterioso companheiro anunciou com o olhar que era hora de partir. Foi quando me afastei do meu pai, temendo nunca mais vê-lo, apenas desejando que ele pudesse ter tudo do bom e do melhor, tal como ele fez pra mim apesar de tudo.

Dei adeus enquanto meu novo amigo estalava os dedos e eu fechava os olhos para o futuro misterioso.

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O TEMPO NO CORAÇÃO – CONTOS

Pai [II]

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>>>>>>>>>Parte Final

selective focus photography of child s hand on person s palm

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