O Tempo no Coração

– O Tempo é injusto.

Felícia ouviu aquela afirmação com certa constrição no coração.

– Por que seria? – questionou ela.

– Porque as pessoas morrem – respondeu o homem de óculos escuros.

– Morrer faz parte da vida – ela retrucou.

– Diz isso como se a morte fosse sua amiga.

Felícia respirou fundo.

– Digamos que eu já tenha encontrado com ela algumas vezes e até a tenha abraçado uma vez, ainda assim, isso não torna o Tempo injusto.

– Você é muito ingênua.

– Então diga para mim o que preciso entender.

– O mistério é apenas seu, senhorita – ele levantou-se do degrau onde estava sentado e começou a subir as escadas.

Felícia se irritou com a oportunidade que estava perdendo de provar seu palpite naquele mistério. Ela tinha um caso para resolver e não sairia dali sem revelar o segredo daquele estranho, não deixaria que nada a detivesse, nem mesmo o próprio suspeito de jaqueta de couro e óculos escuros.

O ambiente estava frio, úmido, mas não havia caído uma gota de chuva sequer do céu, era apenas o orvalho da madrugada disperso pelo ar que causava aquela sensação. Felícia estava com seu casaco fechado e em seus olhos prateados salpicava a luz morna de um velho lustre no salão.

– Por que os óculos escuros? – a voz de Felícia ecoou pela nave do edifício.

O homem se deteve no topo da escada.

– Uma pergunta tão simples que ninguém nunca me fez…

– Você é cego?

O homem se virou para ela e sorriu.

– Todo aquele que vacila na fé perde um pouco da luz que existe para a alma sedenta.

Felícia era cautelosa, ela sabia que se tentasse subir aquelas escadas, jamais conseguiria alcançar aquele homem, porém sabia que havia sido uma péssima ideia ter prosseguido com as investigações sozinha.

– Você é muito corajosa, detetive – admirou-se o homem. Ele decidiu sentar no topo da escada e lançou sua proposta. – Pergunte o que quiser de mim e eu lhe direi o que sei. Não precisa atirar contra mim.

O silêncio se fez presente por um instante. Felícia tinha uma das mãos dentro do casaco. Sutilmente, ela tirou a mão de dentro da jaqueta e disfarçou.

– Estou com frio…

– Apenas na mão direita – rebateu o estranho com um sorriso singelo.

Felícia devolveu o sorriso um pouco nervosa, mas permitiu-se prosseguir com as perguntas.

– Você parece ser muito religioso, mas ainda não consegui discernir no que você acredita. Por acaso você pertence a alguma seita?

– Posso lhe assegurar que seu caso não tem nada a ver com seitas ou com qualquer suposição sobrenatural que as fofocas da comunidade vem lançando sobre o caso.

– Você acredita que o homem realmente morreu? – contestou ela.

– É o que espero.

O homem suspirou e olhou para um relógio de pulso. Ele se ergueu novamente, deixando seu colar sair de dentro da blusa com uma pequena cruz junto de um pequeno símbolo de dois círculos ou algo semelhante que Felícia conseguiu distinguir a olho nu da distância que estava dele.

– Detetive, o que é o Tempo para você?

Felícia ficou levemente boquiaberta com a pergunta, fazia muito  tempo que alguém havia lhe perguntado sobre isso, mas nunca tivera essa conversa a fundo com ninguém.

– Eu não sei lhe dizer com toda a certeza, mas sei que ele determina as estações da vida, da natureza, ele é o começo e o fim de cada existência.

– Uma resposta plausível – o homem bateu palmas. – O Tempo cura as feridas?

– Sim.

– E cura a morte também?

– Não há como curar a morte, ela faz parte da vida.

O homem começou a descer as escadas novamente até parar no meio e perguntar a Felícia.

– Você acredita na Bíblia?

– Houve um momento da minha vida em que duvidava de tudo ali…

– Muitas perguntas, não é? – o homem sentou-se novamente.

– Ou apenas negação minha por não conciliar meus pensamentos às ideias contidas ali. Tem muita gente querendo adequar à Bíblia as suas próprias suposições.

– Verdade… – o homem respirou fundo e prosseguiu. – A morte é ou não é misericórdia?

– Diga o que quer dizer de uma vez – Felícia pressentia algo estranho no ar e estava começando a entender que havia algo naquele homem que lhe era familiar.

– Por que um Deus tão bondoso permitiria ao Tempo trazer a morte sobre a raça humana e finalizar algo tão belo e perfeito? O Tempo devia trazer a cura para as nossas feridas e dores e não trazer o fim.

Felícia colocou a mão no centro do peito, espalmada, como se quisesse tocar o próprio coração. Ninguém melhor do que ela entendia a dor que perscrutava sua existência. Ela encarou o homem e viu um pequeno brilho percorrendo por baixo dos óculos até a curva da mandíbula.

– Não tem resposta pra me dar?

Felícia meneou a cabeça.

– Você já viu alguém em seu leito de morte padecendo de dor? – ela perguntou. – A morte é misericordiosa em um mundo de sofrimentos, mas se você acredita em Deus, então deve conhecer suas promessas…

– Vida eterna em um mundo com sofrimentos…

Felícia percebeu a peça que faltava ao quebra-cabeça.

– Errado… Não haverá mais dor, nem pranto… – então Felícia aumentou o tom de sua voz. – Ora, essa, não me faça soletrar a Bíblia inteira pra você, padre Tito!

O homem sorriu suavemente.

– Você descobriu…

– Li seus livretos quando criança, quando não tinha mais esperança para minha própria vida, ali você me mostrou um Deus de amor e misericórdia, alguém que seria bom demais para manter um inferno eterno. – Felícia decidiu seguir em frente, seus passos soavam abafados sobre o carpete que cobria o piso de mármore e ia em direção às escadas. – Foi por alguns pensamentos divergentes que você foi excomungado, não foi? Por começar a acreditar em sola scriptura, por questionar o céu e o inferno e não achar as próprias respostas. Apesar de tudo, um autor sempre deixa suas impressões no texto e você ainda reflete bem seus questionamentos e pensamentos. Quem ou o que você perdeu?

Tito não quis responder e começou a rir, estava surpreso com a inteligência daquela garota.

– Fiel é a palavra, aplique-se às boas obras, os debates loucos são vãos, disseram para mim parafraseando São Paulo – o padre riu com suas lembranças. – Sabe há quanto tempo visito esta catedral na esperança de morrer e encarar o julgamento divino pelas minhas obras? Já faz dez anos.

– O que um homem que foi tão influente um dia veio fazer neste fim de mundo?

– Quis fugir de tudo, inclusive do Tempo.

– Inclusive de Deus?

Ele manteve-se calado por um minuto, porém prosseguiu.

– E descobri ser impossível…

De repente, os fatos estavam todos encaixados na mente de Felícia como um quebra-cabeça formando a imagem e lhe mostrando a solução do caso.

Felícia investigava o desaparecimento de Nicolás Gonzalo, ocorrido três dias antes. Ela estava de férias e mal havia sido promovida a tenente dentro do seu esquadrão de investigação em Bogotá quando se deparou com o caso que deixou um pequeno povoado atordoado. Ela queria respostas e não sairia dali satisfeita sem descobrir o verdadeiro paradeiro daquele homem tão querido pela comunidade. Deparou-se com uma misteriosa sombra que pairava todas as noites sobre a catedral do vilarejo. Diziam ser o espírito de Nicolás pedindo perdão por algum pecado antes de ir para o purgatório, mas Felícia não acreditava nisso. Ela investigou cada pessoa próxima a Nicolás e descobriu que ninguém o conhecia tão bem, que ele era apenas um velho homem que chegou no vilarejo sem ter o que comer.

Felícia sentou-se ao lado dele nas escadas.

– Por que Felícia?

– Porque você permitiu ao Tempo levar tudo que estava ao seu redor, mas não adotou a atitude mais simples que um ser humano deve fazer.

– E o que seria?

– Coloque o Tempo no coração.

O padre olhou nos olhos dela.

– Confesse para mim, você é Nicolás Gonzalo, não é?

Tito começou a rir.

– Você é realmente esperta, não me impressiona que mesmo neste fim de mundo tenha ouvido falar da detetive Felícia – o padre suspirou. – O que mais concluiu, detetive?

– Excomungado, nunca aceitou sua expulsão, nunca quis se afastar, mas sua dor lhe traziam sofrimento constante, tanto que a morte era a solução mais simples, mas não podia cometer esse pecado. Mudou-se da capital para esta cidadezinha onde havia esta catedral, um lugar o qual sempre tivera o desejo de conhecer, mas nunca a coragem para fazê-lo. Por sorte nunca divulgou suas imagens e não se deixava fotografar por ninguém, por isso era difícil achar alguma foto sua mesmo nos seus livros…

Enquanto Felícia explanava como havia resolvido o caso, Tito refletia sobre sua decisão.

– Ninguém se importaria com o sumiço de Nicolás Gonzalo, a polícia ignoraria o caso como um simples desaparecimento ou até algo mais, abandonando as expectativas em pouco tempo – disse Tito que olhava para a cruz no teto da catedral. – Porém você estava lá.

– Apenas uma coincidência com a minha agenda de férias.

– Não, detetive, há um motivo para tudo nesta vida, até nos detalhes que muita das vezes deixamos passar despercebidos, tenham eles grandes propósitos ou sejam apenas enfeites de uma obra maior.

Felícia contemplava o teto da catedral e percebia o quanto aquele local era majestoso. Lembrou por um instante dos dias em que quase deixou de ter fé e procurava entender seus sofrimentos em todos os lugares possíveis. Encontrou um pequeno livreto do padre Tito, que tivera poucos exemplares pelo mesmo estar sendo expulso da igreja. Ali encontrou questionamentos filosóficos que a fizeram se voltar novamente para suas orações e meditações. E agora, havia encontrado aquele homem que fugia de si mesmo, do passado, e talvez estivesse tão desorientado quanto ela já estivera.

– O que vai fazer comigo agora que descobriu minha farsa?

– Que farsa? Você mente mais para si do que para a polícia. Padre Tito já foi considerado morto pelo Estado e pela Igreja, mas Nicolás é apenas um desaparecido, um homem de novo nome que aguarda pacientemente pelo dia em que entenderá que o Tempo ainda cura, que tudo o que ele precisa é colocar o Tempo no coração.

Felícia ergueu-se com dificuldade sobre o joelho sentindo um leve ardor na articulação, porém ignorando totalmente aquela sensação. Deteve-se a olhar por um instante o homem que julgava ter mentido mais para si mesmo durante a vida toda do que para ela; ela teve compaixão e tirou de dentro do bolso direito do casaco uma pequena Bíblia, entregando-a a Nicolás.

– Abandone essa mentira e seja um novo homem, não importa com que nome. Vá, eu me resolvo com a polícia…

Ela desceu as escadas sob a cruz no teto e foi em direção às portas, os raios da alvorada já penetravam os mosaicos de vidro, dando inúmeras cores ao lugar, abençoando com luz o caminho para aquela alma que já havia aceitado o Tempo no coração.

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O TEMPO NO CORAÇÃO – CONTOS

O Tempo no Coração

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