Juventude

Sempre me perguntei de onde vinha o dinheiro que chegava em envelopes perfumados. Minha mãe nunca disse de quem era, mas eu imaginava ser do meu pai, um homem forte e trabalhador que nos salvava sempre nos piores momentos.

Eu nunca conheci o meu pai e até aquele dia eu não sabia nem um pouco sequer da verdade, já que descobri que eu não conhecia a minha mãe também. Lembro da sensação como se fosse agora, minhas lágrimas escorrendo misturadas à chuva que banhava meu corpo, o meu coração se apertando como se não houvesse mais sangue para bombear, achei que ele estivesse prestes a explodir, talvez por pouco não tenha sido assim.

– Eu não sou sua mãe, querida.

– Como assim? O que você está me falando? – questionei a mulher que estivera cuidando de mim desde que eu me lembrava, aquela mulher que estava bem na frente de mim padecendo, deitada no seu leito e segurando minhas mãos.

– Já está mais do que na hora de lhe falar a verdade sobre seus pais.

O relâmpago iluminou o céu seguido pelo som do trovão. Meu corpo cada vez mais frio foi lembrado pelo vento de que tampouco estava segura correndo pelas ruas escuras do centro da cidade. Perdida entre os becos e ruelas temendo encontrar alguém que pudesse me fazer mal e, desesperada, comecei finalmente a raciocinar um pouco percebendo o quão tenebrosa estava a noite. Meus ossos sentiram o gélido medo, minha respiração pesada aspirou as gotículas de água e coriza, por fim, observei uma silhueta parada à porta a algumas casas perto de onde estava. Parecia que meus passos sabiam exatamente aonde me levar.

Aproximei-me daquela sombra com forma esbelta e sedutora, cujas curvas deslumbravam a vivacidade de um corpo feminino. À luz do lampião vindo do salão, percebi sua mão estendida a mim, chamando-me para sair daquela tempestade.

Prossegui sem dúvidas e entrei em um estabelecimento de caráter duvidoso, cheirando a tabaco e álcool misturados a um perfume sutil porém luxurioso. A mulher se encaminhou até o corredor, pressentindo que eu a fosse seguir, e foi exatamente o que eu fiz. Persegui aquela alma, desfilando lentamente entre as trevas pouco ameaçadas pela luz das velas. O chão de madeira rangeu a cada passo dado, atemorizando-me o coração e me questionando se deveria realmente estar ali.

A misteriosa mulher abriu a porta de um quarto e apontou para dentro, indicando que era ali que eu deveria entrar. Hesitei em dar o passo seguinte, mas eu não tinha mais nada a perder, não tinha mais ninguém me esperando lá fora, não possuía mais laços com qualquer existência viva na terra.

– Por que os olhos tão vermelhos, criança? – ela perguntou com voz delicada.

Fiquei calada enquanto a água escorria pelo meu corpo, mantendo-o frio.

– Não acho que tenha caído um cisco no seu olho, a chuva teria limpado bem.

– Não dá pra enxergar nada com essa chuva toda lá fora – respondi.

– Ora, você fala… – ela deu um sorriso sarcástico enquanto jogava uma toalha para cima de mim. – Seque-se, ou vai ficar resfriada.

– O que você achou que eu sou, uma ignorante?

– Talvez, você sabe onde está?

Minha inocência e minha ingenuidade me denunciavam. Observei o que havia atrás daquela mulher curiosa. Ali havia uma cama enferrujada cujo colchão fino estava coberto por lençóis rosas, o chão de madeira parecia ter sido recentemente envernizado, juntamente com o criado-mudo ao lado da cama com o lampião aceso. As velas que ficavam por cima dos demais móveis ofertavam ao cômodo uma iluminação terna. Por trás da cama uma janela de madeira cuja frestas permitiam à luz dos relâmpagos invadirem o pequeno quarto, dando uma tonalidade azulada ao ambiente e às paredes descascadas. A lâmpada no teto estava apagada, por causa da chuva a cidade estava às escuras, ainda não tinha entendido como mesmo assim havia chegado até aquele lugar.

– Penso que este é o seu quarto – respondi.

– E sabe o que faço aqui?

– Eu deveria?

– Depende de quantos anos tem você…

– Tenho quinze…

– Então deveria sim, não se pode ser estupidamente ingênua nesta idade. Preservar a inocência e a pureza, tudo bem, mas ser uma idiota é contra as leis da sobrevivência – algo no seu tom de voz me admirou além da sua calma, creio que era uma amostra de autoridade, uma força de alguém experiente.

Olhei para ela sob a luz do lampião, seus olhos amendoados brilhavam como o fogo, tinham cor de mel, eram bonitos, seus cabelos escuros, lisos e compridos chegavam até a cintura, possuía o corpo esbelto, a pele morena. Ela sorriu ao perceber que eu estava admirando a sua beleza.

– Você é uma dama dos prazeres da noite, não é?

Ela sorriu.

– Consigo resumir isso em quatro letras…

– Eu não sou tão ingênua assim – respondi rispidamente. – Não preciso falar dessas coisas, eu até que ouvi falar um pouco sobre vocês.

– E o que dizem sobre mim?

– Procuro não saber.

– Ora, e não tem nada que queira saber? – ela perguntou se aproximando de mim e passando a mão gentilmente pelo meu rosto, sem malícia alguma, puxando-me para longe da porta e trancando-a. – Sente-se.

Ela me levou até uma mesa com alguns livros, envelopes, um frasco de perfume, algumas joias, roupas dobradas sobre as cadeiras e lençóis envelhecidos. Parecia que aquela mulher já estava naquele lugar há muito tempo e que seus visitantes não se importavam muito com o resto do quarto, apenas com a cama. Ela me cobriu com um lençol e secou meu cabelo com a toalha, deixei uma pequena poça e traços de água pelo quarto, mas ela pareceu não ter se importado.

– Eu quero saber de uma coisa – falei.

– Pois não?

– Qual o seu nome? – e antes que ela pudesse responder, complementei: – O seu nome verdadeiro.

Nem o trovão que tremia as janelas tirou do rosto dela o sorriso de satisfação com aquela pergunta ousada.

– Meu nome? E ainda por cima o de verdade? Ora, há quanto tempo já não me perguntam isso…

– E por que você está aqui?

Ela sentou-se à beira da cama e então olhou para o colchão passando a mão por cima do lençol. Captei brevemente a tristeza no seu olhar, apesar do sorriso – poderia dizer que ambos eram sinceros e que naquele momento seu coração injetava nas artérias todo o tipo de emoção que os anos haviam olvidado.

– Meu nome é Giovanna e estou aqui porque quero.

A resposta me surpreendeu. Que pessoa desejava aquela vida para si? Eu não fui capaz de compreender. Ela pegou uma bolsa embaixo da cama e tirou um cigarro de dentro dela, acendeu-o na vela mais próxima a ela e deu o primeiro trago, baforando no ar aquela fumaça que irrita os olhos e dá tosse, mas que lhe davam um ar ainda maior de luxúria.

Das damas dos prazeres da noite que eu já havia escutado falar, jamais imaginei alguma como aquela, talvez por viver entre os pobres e eles jamais terem condições de pagar por uma mulher tão bela quanto Giovanna. Era como um ornamento de luxo, um corpo à venda – era o que eu pensava até me sentar de frente com aquela mulher e perceber que ela era um ser humano com uma história pra contar também.

– E você, doce garota, o que faz aqui e qual o seu nome?

Tossi mais uma vez irritada com aquela fumaça enquanto Giovanna se aproximou da janela e abriu um dos lados para deixar que a fumaça escapasse para fora se possível, arriscando algumas gotas invadindo seu quarto. O vento já cessara sua impetuosidade, mas a chuva ainda mantinha sua densidade.

– Eu sou Rosana, filha de Rosa… – engoli em seco. – Agora já não sei mais quem sou. Eu estou aqui porque…

– O que quer de mim? – ela me interrompeu.

– Não sei, apenas cheguei até aqui. Você parecia que estava me esperando à porta.

– Uma mania péssima que tenho quando estou ansiosa acreditando que é o fim do mundo.

Um silêncio se manteve enquanto eu pensava se devia confiar naquela mulher ou não.

– O que vai fazer da sua vida, garota?

– Eu não sei, talvez procurar um bom senhor e me casar com ele, ter filhos e criá-los com um pai presente.

O olhar daquela mulher a denunciava facilmente, pude sentir uma mágoa nos seus olhos ao ouvir minha declaração.

– Ainda dá tempo de não ser ingênua – falou-me com pena.

– Por que diz isso?

– Porque eu era assim como você, e olhe onde estou hoje… Acha que eu escolhi estar aqui porque sempre foi um sonho meu ser cortesã?

Suas palavras guardavam não apenas mágoa, mas um certo tipo de rancor.

– Todos têm escolhas! – retruquei.

– São poucas as pessoas que sabem escolher aquilo que verdadeiramente querem ser na vida, o restante está preso a circunstâncias e desculpas esfarrapadas.

– E você está presa ao quê? – achei que tinha dado a cartada final.

Giovanna deu mais um trago no cigarro enquanto respirava fundo, parou por um momento, um pouco da fumaça escapava entre seus lábios carnudos enquanto olhava para a rua e via as gotículas invadindo o quarto, então expeliu toda a fumaça pela janela subitamente.

– Ao medo – respondeu.

– Medo de quê?

– Um dia você vai descobrir.

Sua resposta não me satisfez, mas era claro que para mim, só o tempo teria misericórdia suficiente de mim para me amadurecer e de gerar em mim a empatia suficiente para entender que por trás daqueles prazeres da noite existem mulheres com sonhos abandonados, histórias e segredos como em qualquer outro lugar.

– Minha… – ia dizer mãe. – Rosa dizia que o que você faz é vergonhoso e que jamais entenderia os motivos de alguém como você fazer o que faz…

– Sua mãe nunca seria capaz de entender os meus motivos, é? – ela riu.

– Isso tudo é ruim…

Giovanna respirou fundo, então soltou a sentença que jamais esqueci:

– Todos se prostituem um pouco a cada dia quando permitem que alguém roube o seu precioso tempo e o direcione a tudo aquilo que não importa de verdade, a coisas que envenenam a alma, tiram o convívio de sua família e amigos em prol do que é terreno e finito, quando permitem que outras pessoas manipulem suas opiniões achando que elas são donas da razão e do mundo, submetendo-se à vontade delas e sendo infelizes a cada dia que passa.

Engoli em seco sentindo como se uma estaca rasgasse meu peito.

– Não é qualquer um que entende, minha flor – achei que fossem as chamas do lampião escorrendo em forma de líquido pelo seu belo rosto, mas era apenas uma lágrima refletindo a luz da vela.

– Espero entender um dia…

Encarei aquela mulher com pena e levantei da cadeira derrubando alguns lençóis e um frasco de perfume. Senti uma fragrância familiar, um cheiro que a princípio achei ser apenas alucinação. Aos poucos minha razão voltava, juntamente com o luto que bombardeava minhas emoções, tudo aquilo que estava sentindo pela morte de Rosa há pouco mais de duas horas.

Rosa havia se despedido de mim da pior maneira, revelando aquela verdade tão tenebrosa da qual eu já estava remoendo uma espécie de ódio. Senti raiva por ter sido enganada por toda minha vida.

Ia saindo do quarto quando percebi que Giovanna analisava cada expressão no meu rosto e possivelmente entendesse cada sentimento que se passava em minha mente.

– Afinal, o que sua mãe contou pra você? – arriscou ela ao me ver destrancando a porta.

– Ela não era minha mãe.

– Ela cuidou de você desde pequena?

Segurei a maçaneta enquanto pensava na pergunta, então respondi:

– Sim.

– Deu de comer para você quando tinha fome?

– Sim.

– Proveu o dinheiro ou as roupas que você precisava?

– Sim…

– Deu lição de moral por coisas que você achou que fossem injustas mas que mais tarde percebeu que você é que estava errada?

– Sim… – minha voz embargou.

– Sabia quando você estava ruim e dizia pra parar com frescura ou lhe dava um abraço?

– Sim… – solucei.

– Então ela era sua mãe.

Fiquei aos prantos enquanto finalmente percebia que acabara de perder a minha mãe. Aquela mulher tinha razão, Rosa era minha mãe, jamais teria me desamparado e no seu último momento, possivelmente arrependida por nunca ter me contado a verdade, ousou me revelar suas palavras mais obscuras.

Saí daquele quarto sem olhar para trás e desapareci no meio da chuva, em meio às trevas de uma cidade que sofria com o calor absurdo de dia e noite ou com as tormentas da época de chuva.

Já se passaram mais de setenta anos desde o dia da minha conversa com Giovanna, o mesmo dia em que minha querida mãe me revelou a verdade sobre o meu nascimento, o dia em que decidi que eu mesma traçaria meu próprio destino. Ainda lembro claramente da revelação.

– Já está mais que na hora que falar a verdade sobre seus pais – falou Rosa segurando minhas mãos.

– Que verdade? Como assim você não é minha mãe?

Seu sorriso marcou minha memória eternamente. Ela largou minhas mãos e então se preparou para o fim. Minha cuidadora tinha o semblante sereno, como se o único arrependimento que tivesse em sua vida fosse não ter me preparado melhor para aquele momento. Ela começou a balbuciar palavras que para mim não tinham sentido algum.

– Havia um homem que dedicou a vida a se aventurar pelo mundo em busca de relíquias, tesouros, mitos e lendas… um homem que foi amaldiçoado pelo próprio Tempo ao partir o coração de uma mulher. Dizem que ela não envelhecia, pois o Tempo a amava, preservando sua juventude por mais que os anos passassem, até que ela conheceu o aventureiro. – Rosa tossiu e o ar lhe faltou, respirava cada vez mais ofegante. – Aquele homem abandonou aquela mulher grávida sem jamais saber que em suas entranhas havia um filho. Dizem que o Tempo se enfureceu, sentiu-se traído pela sua amante e envergonhado por aquele homem. O Tempo não aceitou aquilo de bom grado e amaldiçoou aquela criança.

– O que você está falando, mãe?

Achei que fosse delírio daquela velha mulher, alucinando em seu leito com fábulas e histórias para dormir – ironicamente contando para si mesma antes do seu último descanso, antes da morte encerrar os seus olhos –, quis que fosse delírio, mas não era.

O espelho só me provou ao longo dos anos que meu corpo não gostava da velhice, que meu rosto quase não mudava. Diante do espelho vejo todos os dias minha pele morena, ainda sem rugas e meus olhos amendoados cor de mel, ainda que tenham se passado mais de setenta anos desde aquele dia.

Seja lá qual for a verdade por trás do meu dom, ou de minha maldição, continuo vivendo dia após dia em busca de uma nova razão para satisfazer minha vida, acreditando que o destino irá aparecer numa esquina como uma dama dos prazeres e me oferecer uma solução por um preço justo. Tempo não me falta, e é exatamente por isso que me sinto tentada a enganar o Tempo, quem sabe eu consiga me libertar disso enganando-o. Quem sabe a velhice me fizesse esquecer da verdade que mudou minha vida e as últimas palavras de minha mãe adotiva, palavras que ainda ecoam na memória.

– Eu não sou sua mãe, Rosana.

– Pare de inventar coisas, eu não sou mais criança! – disse desesperada tentando fugir da verdade iminente.

– Diga a sua mãe que eu sempre serei grata por todo envelope de dinheiro que ela nos mandou, por toda ajuda que nos deu sacrificando o próprio corpo. Diga a ela que jamais serei capaz de compreender os seus motivos e viva sua juventude livre de todo preconceito e medo, minha filha. Rosana, não se envergonhe jamais daquela que escolheu o seu nome. Antes de partir, despeça-se dela, dê um último adeus por mim a sua mãe Giovanna.

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O TEMPO NO CORAÇÃO – CONTOS

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