Dias Melhores

A ambição era uma de suas principais características. Egocêntrico, arrogante e maldito eram algumas das palavras que os estranhos lhe dirigiam – era difícil dizer o quanto estavam certos, visto que não escondiam a inveja que sentiam. Quem não lhe conhecia acreditava nas palavras alheias, pois assim é o triste humano que não se dispõe a conhecer a verdade por si mesmo e se submete às fofocas ou afirmações de terceiros.

Francisco Jorge da Silva Dias, conhecido como Chico da Farinha, era o dono de uma empresa revolucionária de serviços com sede na Zona Franca de Manaus. Havia começado a vida de maneira sofrida, cheia de dificuldades e labutando diariamente para garantir o pão que alimentasse ele e a sua família. Cresceu providenciando contatos entre vendedores e compradores de farinha no centro de Manaus, o que lhe garantiu o suficiente para iniciar os próprios investimentos. Seu slogan remetia ao nome da imensa família Dias e era uma alegoria que muitos passaram a ostentar em orgulho do nome: “Dias melhores virão”.

Odiava burocracia, entendia que esta era necessária para se prevenirem erros e até mesmo fraudes, ainda assim queria melhorar a vida das pessoas que compartilhavam de seu desgosto pela papelada inútil. Desenvolveu uma operadora de telefonia móvel que ofertava pacotes a preço popular, permitia gerenciar a conta e administrar pagamentos e serviços consumidos diretamente por um aplicativo, sem ter que ficar horas tentando falar com um atendente e sem perder as fronteiras da paciência. A cada cliente novo do negócio, garantia a distribuição ou plantação de uma muda de árvore em agradecimento, além de manter a imagem do negócio de descartar a necessidade do uso de tantos papeis. Era um homem visionário.

O potencial de sua empresa ainda era inestimado, ainda mais desprezado pelas grandes companhias de telefonia que viam no negócio dele uma ameaça, já que nunca ousavam melhorar seus serviços em prol do cliente. Os que odiavam só sabiam criticar, só sabiam reclamar como sempre fazem os tolos e invejosos, mas ele não se importava. Ele apenas queria expandir seu negócio.

Sua ambição o levou a inúmeras viagens e negociações ao longo dos estados do Brasil, remeteu-lhe a viagens em outras capitais da América Latina e ao longo da Ásia. Encontrou por dificuldades a manutenção e a gestão da rede, mas sempre que lidava com um problema novo, desenrolava uma solução quase que imediata.

– Dias melhores virão – repetia para si mesmo.

Desenvolvendo novas relações com amigos e empresários de Roraima, Chico da Farinha foi até Boa Vista para encontros e reuniões que poderiam lhe render no estado o primeiro lugar na telefonia móvel, superando todas as antigas operadoras. Apresentou suas ideias em um evento que ocorria na cidade e, como esperado, obteve ampla aprovação de seus vizinhos do Norte.

Comemorando o sucesso da empreitada, decidiu permanecer o final de semana e só retornar a Manaus na segunda-feira, aproveitando a principal estrada que lhe trazia lembranças de um tempo em que migrava de cidade em cidade procurando por um lugar que lhe trouxesse melhores condições de vida, a imensa BR-174.

Aquela estrada era fascinante, pelos lados cercada da misteriosa floresta tropical, sustentada pelo solo instável que lhe dava buracos ou crateras que causavam eventuais acidentes e tomada pelo mormaço que esfriava ao cair da noite. Um rolo de pergaminho extenso, cheio de marcas, histórias, sonhos e cicatrizes – representando por vezes a nossa própria vida.

Ali, Francisco enfrentou uma das suas piores lutas, a contra a morte.

Enquanto ia para Manaus, reduziu drasticamente a velocidade ao observar alguns cones dispostos à margem da rodovia e uma pequena barreira. Dois homens fardados se aproximaram e solicitaram seus documentos. Francisco estranhou a presença daqueles homens e, mesmo não podendo reconhecer a farda, quis fugir. Pressentiu que era uma armadilha, mas entregou os documentos assim mesmo.

Enquanto um dos homens rodeava o carro verificando se não havia mais ninguém dentro, o outro que verificava os documentos conferia no celular se os dados batiam.

– Seu Francisco, tenho que lhe pedir que saia do carro.

– Ora, mas… – retrucou enquanto descia do carro.

– Não desacate uma autoridade – falou o outro homem.

– Não vejo suas credenciais, não sei nem se vocês são da Polícia mesmo.

Percebendo o desconforto dos homens com a afirmação, Francisco tentou voltar ao carro quando sentiu o puxão que o jogou contra o asfalto. Já não havia como reagir. Os dois homens davam pontapés contínuos pelo seu esquálido corpo até que Chico parou de reagir. Prepararam-se para se livrar do corpo porém viram que uma carreta se aproximava, então o esconderam por baixo do carro até o caminhão passar. Decidiram jogá-lo ali mesmo no canteiro da estrada com medo de que a polícia ou o exército passassem por aquele fim de mundo.

Levaram o carro, os documentos, o dinheiro e a esperança de seu Francisco.

Seu corpo jazia no asfalto, porém ele ainda não havia desistido, ainda respirava pesadamente e seu coração batia. As horas foram passando e não havia uma viva alma a passar pela estrada. Até que próximo ao cair da noite, um médico passava com seu carro e viu seu corpo. Seria a salvação de Francisco, mas o bom profissional temeu pela própria vida e passando de largo, julgou aquele homem como morto. Partiu sem nem olhar para trás.

Francisco lutava pela própria vida. Gritaria por socorro se possível, mas quase não conseguia respirar de dor. Ali, fechou os olhos.

Já estava na penumbra do dia, aquela hora em que é impossível distinguir os objetos com certa definição, e eis que passou um soldado do exército indo a Manaus de férias. Ele estranhou aquele corpo em meio a estrada, percebeu que ainda se movia e, temendo pela própria vida ou que fosse um golpe, jurou a si mesmo que não estaria fazendo nada demais pois não estava de serviço, não era hora de servir a ninguém muito menos a Pátria, pensara. Assim como surgiu, desapareceu.

E ali ficou Francisco, já sem esperanças, temendo pelo frio, imóvel, com o corpo destroçado e a mente começando a ruir temendo pelo pior. Seus olhos pesaram e logo a escuridão tomou conta da estrada também. Jamais estivera em um lugar tão escuro, pensou despedindo-se de seus projetos, de seus sonhos, de suas ambições, de sua esposa Karina e de sua pequena Lídia, sua querida filha, o amor de sua vida, aquela por quem daria o mundo inteiro.

Sua lembranças o acalentavam e ao mesmo tempo o desesperavam. As cenas de sua filha correndo pela praia do Açutuba, caminhando ao seu lado pelas ruas da Manaus Moderna enquanto fazia negócios com a farinha, as primeiras palavras, a gestação difícil, o casamento com Karina, as promessas de namoro e sua filosofia de vida martirizavam seu coração. Ali ele havia percebido que já vivia bons dias, e que jamais parara para agradecer adequadamente por aquilo, ainda acreditava que dias melhores viriam, mas pensava tanto neles que esquecia de desfrutar dos que já ocorriam no presente.

Tolo é aquele que tem e não desfruta do que tem, pensou consigo mesmo.

Lembrou-se do dia em que comprou de um velho homem, dono de uma loja de antiguidades no centro, uma ampulheta de areias vermelhas que deu a um amigo empresário que vivia sempre arrependido pela escolhas de sua vida, um velho amigo a quem muito estimava. Fora naquela loja, exatamente ali, que ouvira pela primeira vez a expressão: “Dias melhores virão”. Lembrou que antes de ouvir a frase, ouvira também acerca de todas as dificuldades enfrentadas por aqueles que plantam suas sementes e se desesperam pelos seus frutos, que esperar por dias melhores não se trata de acreditar apenas que tudo vai melhorar, mas de como lidamos com nossos anseios e sobre como precisamos ser pacientes.

E aquela promessa se ligou ao seu coração de tal maneira que esqueceu do que realmente se tratava.

Já sem esperanças, por um breve momento quis desistir de lutar, queria que seu coração parasse de bater e que sua filha e esposa não o vissem naquele estado. Quis gritar. Era impossível e concluiu que jamais sairia daquela situação. Fechou os olhos mais uma vez até ouvir uma voz como se estivesse no fundo de uma garrafa, bem abafada.

Dios mio! Todavia vive!

Francisco abriu os olhos lentamente ao ouvir aquela voz, julgou que estivera alucinando ao ver a luz de uma lanterna sobre si. Aos poucos foi recobrando parte da consciência.

– Eu vou te ajudar – disse com um sotaque bem pesado aquele estranho que o encarava piedosamente. – Você vai ficar bem! Não desista ainda!

Tomando todo o cuidado que podia ter, o estranho o ergueu e o colocou na traseira da velha picape.

– Vai, Joaquim! Vai! – ordenava o estranho para o motorista da picape.

Francisco diz que aquelas foram as piores horas de sua vida, que nem quando era um garoto se sentiu tão miserável como se sentiu nas horas em que esteve internado como um indigente.

Enquanto estava como estranho no hospital, as buscas por ele haviam iniciado mas ninguém descobria o que havia acontecido. O carro não fora encontrado e os boatos que já se espalhavam comprometiam a integridade do seu Chico da Farinha. Quem insistira na busca e em afirmar que todos estavam errados fora sua esposa, Karina.

Karina o reconheceu quando um velho amigo médico ligou para ela pedindo que fosse ver um paciente que acreditava ser ele. Ele não podia falar, estava respirando por aparelhos. Suas chances de sobreviver eram mínimas.

O estranho que surgiu na estrada desaparecera por completo, sem deixar rastros de sua existência justamente num dia em que faziam a manutenção do serviço de câmeras e segurança do hospital, o que gerou mais boatos e teorias sobre o ocorrido.

Apesar de acreditar em dias melhores, os dias piores podem acontecer no meio do caminho. O Tempo traz surpresas e nunca deixa suas pontas soltas, mas às vezes ele não nos revela os mistérios da vida.

Chico da Farinha enfrentou a luta contra a morte, conta sobre ela nas suas palestras e toda vez que vai receber funcionários novos.

– E, como bom samaritano, aquele estranho homem me resgatou no meio da estrada e me trouxe de volta – conta seu Chico. – Só agradeço a Deus por isso, aquele homem foi um milagre na minha vida e é por isso que jamais deixarei de considerar o meu próximo, independente de quem ele seja. Eu quase morri, mas aqui estou…

A ambição era uma de suas principais características. Abnegado, humilde e abençoado eram algumas das palavras que as pessoas que o admiravam lhe dirigiam. Sua história de superação chamou ainda mais atenção para a sua empresa. Ele fazia o possível para tornar o mundo um lugar melhor. Com alegria, chegou o dia em que o melhor veio e, segundo ele, ainda ficaria melhor.

– Senhoras e senhores, é com orgulho e honra que vos anuncio a expansão da MobiLet Antenas e Tecnologia para o setor de telefonia com sucesso, os novos programas de estágio da empresa e o setor de integração social que acolherá pessoas de baixa renda, estrangeiros desempregados e todos aqueles que almejam por dias melhores.

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