Último Instante

Senti um frio na minha testa e então lembrei bem de quando eu tinha cinco anos. Ficava horas com a televisão ligada assistindo a filmes de uma década antes daquela. Ao final de cada filme, fazia questão de rebobinar a fita e colocar para assistir novamente. Quando não estava assistindo a nada, ficava brincando com meus primos ou ia para a escola.

Eu morava com meus avós, dormia no mesmo quarto que eles, em uma cama pequena, mas que ocupava um espaço a mais naquele canto da casa. Eles não se importavam e isso era reconfortante pois eu me sentia mais à vontade com eles do que com minha mãe – a quem sempre muito amei e passei a amar mais ainda quando compreendi o quão canalha havia sido a pessoa do meu pai na minha vida.

Na mesma casa em que eu morava, também moravam tios, primos e agregados. Gostava de todos, mas tinha uma relação muito especial com minha tia Valéria. Ela e meu tio sempre brincavam comigo e me davam alguns presentes, eventualmente. Esses meus tios junto com meus avós me levavam para uma igrejinha não muito longe dali, perto do Parque do Mindu. Posso afirmar com orgulho que minha infância foi na igreja ouvindo as historinhas que guardei no coração e na mente por tantos anos.

Quando eu tinha dez anos, ganhei meu primeiro relógio. Era um relógio simples da Timex, empresa onde meu tio trabalhava e que naquela época ficava próximo ao Aeroporto Eduardo Gomes – não tão próximo assim, mas eu era criança e para crianças as referências não importam muito ou sempre são subestimadas.

Como eu bem disse, sempre tive um apreço muito grande pela minha família – aqueles que cuidaram de mim, não necessariamente os de mesmo sangue. A minha família não parecia ser a mais perfeita, mas era o suficiente para mim. Demorei para aceitar o fato de que meu pai havia me abandonado logo quando descobriu que engravidou minha mãe. Naquela época não tinha muito esse negócio de cobrar pensão, então eu não tinha lá nenhum auxílio financeiro que viesse do meu pai, mas tinha meus tios, avós e meus primos, tinha fé e a inocência de uma criança, nada me faltava.

Eu fui crescendo e vendo a família crescer. Meu avô tinha um bom coração e acabou adotando alguns filhos ao longo de sua vida, começando desde o Chile até sua vida no Brasil, por isso eu tinha muitos primos. Luciana, Linda, Abelardo, Cristiano, Pablo, Pedro, Eugênio, Lucas, dentre tantos outros. Vi o tempo passando e nessa jornada me acompanhava aquele relógio, sempre contando seu tempo e anunciando suas horas com muito afinco.

Infelizmente muitas pessoas morando no mesmo lugar costumam dar problema ou começam a brigar entre si. Meus tios que me deram o relógio acharam por bem se mudar quando, durante uma das brigas mais feias que vi naquela casa, um outro tio pegou uma espingarda e apontou para eles. Foi a gota d’água e o estopim da separação da família.

Eles se mudaram e foram para seu próprio cantinho para cuidar dos seus dois filhos, um deles recém-nascido e outro com seus sete anos de idade. Foi ali que minha vida também começou a desandar com as confusões ridículas e egoístas daquela casa. Quase não passei mais a ver minha tia, mas ela sempre estava por perto quando eu precisava. O contato frequente que tinha com meus primos começou a diminuir e minha adolescência pintada com a puberdade já me dava sinais de querer ser autossuficiente e passar a depender menos dos meus avós.

Cansado de ver tantas e tantas discussões inúteis, meu avô decidiu viajar para São Paulo para morar um tempo com um de seus filhos adotivos. Minha mãe já estava casada com outro homem e tinha outros dois filhos a quem devia cuidar, por isso eu não queria dar trabalho algum a ela. Foi aí que pedi para ir junto dos meus avós, acreditando que teria uma vida melhor.

Viajamos enfim. Mais tarde descobri que meu avô dera a escritura daquela casa a minha tia Valéria, que continuava me mandando presentes ou dinheiro mesmo de tão longe e mesmo com as dificuldades financeiras e dívidas que tinham com a casa nova e com o meu tio começando a se adaptar ao novo emprego. Ah, minha tia, ela mandava dinheiro todo santo mês, ela esperava que eu fizesse uma faculdade ou aproveitasse o dinheiro e investisse em algo útil – não foi o que eu fiz.

Eu já estava na idade de começar uma faculdade, já me achava bom suficiente para ser adulto, tudo parecia correr bem, mas foi aí que conheci gente da pesada.

Tentando parecer o cara legal, fiz alguns amigos – como eu os chamava, mas era muito claro que não era bem assim que a banda tocava. Eles me revelaram o sagrado pó branco que dá prazer e a sensação de poder que todo jovem quer – e que destrói e engana mais rápido do que qualquer outra coisa.

Era a cocaína da boa e da melhor, como diziam.

O remorso e a culpa começaram a me consumir logo que percebi que estava usando o dinheiro que minha tia me mandava para comprar mais e mais da droga – mas que desaparecia à medida que inalava o pó. A culpa pesou mais ainda quando minha tia descobriu que eu não estava mais voltando para casa e que meus avós suspeitavam dos meus envolvimentos ilícitos com este mundo.

Quando saí de Manaus achei que iria subir na vida, mas a escada só tinha degraus que levavam ao fundo do poço. Nos meus devaneios pelo prazer alternado com momentos de sobriedade, conheci uma garota com a qual me relacionei por um bom tempo e acabei dando a ela uma filha. Agora tinha uma responsabilidade no mundo, mas eu não tinha forças para me livrar do meu vício. Sabia que se ficasse mais tempo em São Paulo, teria que começar a prestar contas com meus supostos amigos, e que isso poderia ter consequências muito ruins para minha filha. Foi quando fiz o que o covarde do meu pai fez, decidi fugir.

Não fugi porque queria fugir exatamente, mas porque meu avô já havia percebido o quão ruim aquela cidade tinha me feito e o quanto poderia me fazer. Ele queria desesperadamente me ajudar levando-me de volta ao único lugar que ele imaginava que teríamos paz.

– Mas antes de partir, você tem que falar com os pais dessa menina e contar a verdade a eles – disse meu avô com tanta serenidade que eu percebi a sua maturidade nas palavras e no seu olhar.

– Sim, senhor.

Fui até a casa onde minha filha repousava nos braços da mãe e tirei do punho a única coisa de valor material que ainda tinha preservado apesar dos meus vícios por toda a droga do mundo – e digo isso no sentido mais ambíguo possível.

– Quando ela tiver idade o suficiente para entender – comecei a falar firme –, dê a ela este relógio e diga que se eu pudesse voltar no tempo com ele… – foi quando minha voz começou a embargar. – Diga a ela que eu a amo muito e sempre amarei, que eu vou resolver a minha vida e vou voltar.

Contei aos pais daquela moça a verdade, sobre eu ser o pai, sobre meus erros e vícios, sobre meu desespero e medo, sobre o amor que conhecia graças à minha família. Com lágrimas nos olhos, dei adeus a minha pequena filha e depositei no Tempo as minhas esperanças de um futuro melhor. Naquele dia me desfiz de um dos melhores presentes que eu já tivera ganho na vida.

Voltei para Manaus certo de que agora estava voltando no sentido inverso dos degraus daquela escada. Pura ilusão.

Recomecei a vida procurando emprego e acreditando que estava conseguindo me livrar da droga, mas com o passar dos dias fui percebendo que o álcool não me bastava. Acreditei por um tempo que ver minha mãe, meus tios e primos faria bem a mim, mas já era tarde demais, eu sentia necessidade daquela droga tanto quanto água.

Encontrei um colombiano, um cara que chamavam de Escobarcito, que vivia escondido em um desses bairros desconhecidos pela gente de classe média e alta, e logo consegui algumas gramas do ouro branco sagrado mesclado a sabe-se lá quantas substâncias. Voltei a acreditar que o mundo era meu, todo meu. E assim fui vivendo os dias sem motivação alguma além de poder conseguir mais e mais.

Quando dei por conta de mim, estava desempregado e procurando um emprego medíocre para disfarçar minhas novas, e literais, aspirações. Escobarcito me deu uma oportunidade de trabalho em troca de alguns serviços específicos. Logo ele me daria cada vez mais dinheiro para cada grama de droga entregue com sucesso e continuava acreditando estar subindo gradativamente os degraus da vida. Por um instante me vi comandando aquilo e sendo o líder de toda aquela porcaria.

Quando adquiriu confiança o suficiente em mim, Escobarcito me contou que tinha contatos dos mais poderosos na América do Sul inteira, que conhecia gente das FARC, traficantes, garimpeiros e inclusive um tal de Sancho na fronteira Brasil-Colômbia, alguém que ele vivia mencionando porque facilitava a entrada de drogas pelo rio, quase nunca falhando em suas encomendas – e que ninguém ousava contrariar porque jamais descobriam o fim daqueles que o traíam. Escobarcito ficava extremamente puto quando o Exército metia o nariz na droga antes dele e apreendia as suas toneladas; assim, costumava descontar a raiva mandando matar algum de seus inimigos ou parceiros traidores.

Segui a vida mantendo o controle do vício com o próprio vício. Fingi trabalhar em uma pizzaria e fazendo entregas, com um tempero a mais em algumas encomendas. Conheci gente da pior, gente que se fazia de bom na frente da televisão e que até mesmo influenciava as pessoas por aí, filhinhos de papai que estudavam em universidades particulares e até mesmo políticos que bancavam e ostentavam festas com o dinheiro público e o dinheiro do pó. Antes fossem só eles, mas comecei a ver gente morrendo por conta disso, principalmente crianças, adolescentes, jovens com um potencial tremendo para o sucesso se perdendo por conta da droga.

Foi quando vi o meu rosto refletido numa poça de sangue que escorria de uma das vítimas do tráfico. Senti medo, mas a droga disfarçava meu medo, e eu não queria sentir medo, por isso eu não fugia e repetia o ciclo da dependência.

Segui com minha vida até que em um determinado momento recebi uma carta com uma foto da minha filha. Lembrei da promessa que eu havia feito e assim fui visitar meus avós. Passei em frente à casa que outrora fizera parte de minha infância e não havia nada além de ruínas e o mato crescendo. Lamentei pelo meu avô que tinha tanto sucesso como carpinteiro naquele lugar no meio do bairro do Parque Dez de Novembro. Vi o quanto as coisas haviam crescido ao redor, com lojas e mais lojas tomando conta daquela rua, e ali permanecia aquele estranho terreno baldio, abandonado como se houvesse sido amaldiçoado pelo orgulho egoísta da família. Por um momento questionei para onde havia ido minha inocência.

Cheguei na casa dos meus avós e apenas pude ver o olhar envelhecido e preocupado do meu avô. Pedi a benção e me sentei à mesa para ouvir ele falando de suas histórias de um tempo em que não vivi, dos horrores da ditadura chilena, da xenofobia na Bolívia e das dificuldades num Brasil politicamente instável. Minha avó me deu um beijo no rosto e perguntou como estavam as coisas, apenas menti. Meu avô desviou o olhar como quem percebe a mentira nas palavras mais sinceras e então ficou a olhar para a janela. Tirei a foto da minha filha do bolso e então dei para minha avó guardar. Era como se ali as minhas lembranças e sonhos estivessem guardados e protegidos.

– Domingo é seu aniversário – falou meu avô. – Sua mãe irá comprar um tambaqui e seu padrasto vai assar. Vamos comemorar seu aniversário, meu filho.

– Tudo bem – respondi emocionado. – Estarei lá.

Decidi naquele dia pela milésima vez que iria sair daquela vida miserável. Fui até a pizzaria para avisar o meu chefe de minha decisão e então, antes que eu dissesse qualquer coisa, recebi os elogios pelo excelente trabalho que fazia e que estariam fazendo uma festa para mim naquele fim de semana, cheia de drogas, bebidas, mulheres e o que mais houvesse a se pensar de prazer ilícito. Estremeci e o vício logo me tomou conta, porém pela primeira vez em anos, houve um conflito, um conflito que se tem ainda no começo, quando a consciência luta para te livrar do pior, quando a razão grita sufocada e esperando ser ouvida. Foi a primeira vez que contrariei meu chefe.

– Não vou poder – respondi.

– Como assim não vai poder? – ele respondeu irritado. – Estamos planejando isso pra você a manhã inteira.

– Minha família decidiu fazer uma festa…

– Família? Nós somos sua família agora, Paulo.

Balancei, não sabia como sair daquela situação e meu chefe logo percebeu a minha indecisão e instabilidade. Ele deu uma gargalhada.

– Tudo bem, meu amigo, é óbvio que não pode haver festa sem você. Vamos adiar a festa para a noite e aí você fica junto da sua família e depois vem comemorar com a gente.

Não consegui responder, mas assenti com a cabeça e percebi a desconfiança de meu chefe, afinal, pela primeira vez em anos havia contrariado ele.

Lembro bem do dia que culminou na decisão que me trouxe até este instante, foi exatamente aquele domingo em que era meu aniversário e minha mãe havia decidido chamar a família para a casa dela e comemorar. Meus avós estavam ali e meus tios também, como meu avô havia me dito. Alguns primos estavam lá. Nunca tinha me sentido tão feliz naquela inocência do que em anos de festas que alimentavam apenas a luxúria.

Encontrei meu primo Lucas, filho da tia Valéria. Lembrei de quando era apenas uma criança que gostava de assistir desenhos animados e ver filmes de uma década anterior à sua, e de repetir os filmes assim que eles acabavam. Era o único dos primos da sua idade, todos os demais eram mais velhos ou mais novos, por isso criou uma relação de amizade sincera com sua mãe e quase não esteve à mercê das escolhas erradas que os primos mais velhos fizeram. Era o orgulho da tia, e o orgulho do avô também, afinal, era aquele que viria a ser o primeiro médico da família. Conversei com ele e percebi o quanto não era mais criança, tinha muito a amadurecer, mas tinha uma disposição tremenda à procurar o bem das pessoas e nas pessoas, ainda iria conhecer o mal que existe no mundo, à sua maneira, mas preferi não lhe contar nada – apesar de saber que provavelmente ele soubesse da minha vida ilícita também.

Ao terminar nossa conversa e me despedir dele, ouvi dizendo:

– Primo, se precisar de algo nós estamos aqui – e me deu um abraço bem forte e curto, mas o suficiente para entender o quanto minha família se preocupava comigo e o quanto o desejo da minha tia de querer bem às pessoas estava nele também.

Aquele dia de janeiro de 2012 me marcou. Lucas era bem novo, mas ele era um bom rapaz. Toda consideração que eu poderia ter pela família tinha por ele também. Senti que sua escolha para a medicina foi mais forçada do que por vontade própria, dane-se, ele vai ser algo na vida e eu tenho orgulho disso e ainda mais pelo fato de ele ser filho da tia que mais teve carinho por mim, é como se ele fosse uma espécie de irmão com quem pouco vivi.

Naquele dia, olhei para os meus avós e para minha mãe. Sorri e uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Contei algumas piadas e fiz alguns rirem. Liguei para a mãe de minha filha e vi aquela garotinha já dando seus passos e falando. Que alegria sem igual.

A tarde acabou e todos se foram. Era hora de encontrar com meu chefe, era hora de dizer adeus ao mundo das drogas. Mas esse mundo não te permite sair assim.

Dizem que diante da morte a vida se passa como um filme num único instante. Acho que é verdade, pois a minha vida passou diante dos meus olhos em um piscar.

Senti um frio na minha testa. O cano da arma ainda estava encostado na minha cabeça enquanto ouvia do chefe as palavras de suposta misericórdia e erguia os olhos encarando o homem que ironicamente daria fim ao meu vício.

– Suas últimas palavras…

Não pensei em últimas palavras, pensei no que ainda podia fazer.

Considerei meu último ato, entregar minha vida nas mãos de Deus – soa como hipocrisia, mas só Ele pode me julgar. Lamentável é deixar de ter fé nos momentos em que mais se precisa. Julgar um miserável à beira da morte como hipócrita é vil. Confiar, mesmo que seja tarde demais, porque me ensinaram que nunca é tarde demais, que aquilo que morre por último não é a esperança, porque ela mesma não morre jamais, que quando tudo dá errado é porque a esperança foi depositada no lugar errado – e foi o que fiz minha vida inteira antes daquele momento, não poderia deixá-lo de fazer no fim e pouco me importo se alguém discordasse daquilo ou não.

Não me restou mais tempo, não pude dizer que amava minha família, não pude dar adeus à minha filha, não pedi perdão dos meus primos nem dos amigos de verdade. Queria dizer a eles: parem de brigar por tão pouco, aprendam a valorizar aquilo que vocês têm – era tudo o que eu pensava enquanto fechava meus olhos sem desperdiçar nenhuma lágrima, apenas procurando ocultar o medo que sentia.

Restou-me dizer adeus.

Eu amo vocês. Eu realmente amo vocês, é por isso que decidi sair dessa vida, é por isso que agora estou pagando o preço, é por isso que vou morrer. Apenas me perdoem. Quero muito poder ver vocês de novo, nem que seja só uma única vez. Sorri imaginando o reencontro e a lágrima enfim escorreu.

Vi minha vida inteira passando diante dos meus olhos naquele momento que foi considerado o meu último instante.

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