O Perfume das Memórias

As cordilheiras ainda tinham neve, uma nevasca estava prometida para o fim de semana, o anterior aos preparativos do esperado Dia da Independência – a diciochera como chamam os chilenos. Alguns amigos preparavam-se para ir para as cordilheiras para aproveitar os últimos dias do inverno, outros fugiriam para o litoral, mas eu estava de castigo.

Havia colocado as meias do meu irmão mais novo no cachorro e chamuscado as cortinas favoritas da minha mãe. Não foi uma brincadeira tão de mal gosto assim, eu queria saber se o isqueiro do meu irmão mais velho funcionava, só decidi testar no lugar errado.

Minha mãe foi a juíza, então ela pronunciou a sentença. Além da detenção em domicílio, saídas apenas para prestação de serviços comunitários, neste caso, os deveres da casa que minha mãe ordenasse.

O feriado foi prolongado, o fim de semana um tédio, mas consegui sobreviver a inquisição. Na segunda-feira as lojas fechariam, minha mãe precisava se dividir em três para resolver todos os preparativos para a reunião familiar do dia 18. Obviamente sobrou pra mim resolver tudo o que minha mãe decidisse.

– Jorge, preciso que você pegue uma encomenda para mim – ordenou ela enquanto cortava a cenoura.

– Tudo bem. O que seria?

– Uma cortina nova – ela respondeu com um olhar afiado.

– Mas a metade que sobrou não serve?

Ela parou de cortar a cenoura e apenas manteve um frio silêncio. Ela respirou fundo e voltou a cortar a cenoura.

– O endereço está em cima da mesa – ela respondeu cortando com mais força.

Não havia reparado no recibo, na bolsinha com dinheiro e no papel riscado em cima da mesa. Estava escrito: General Mackenna, 1242, apartamento 0307A.

– Tudo bem – retruquei enquanto pegava o papel e observava o quão longe eu precisaria ir para pegar a encomenda. – Vou precisar pegar dois metrôs?

– Algum problema? – respondeu minha mãe com aquele olhar novamente.

– Nenhum – chiei.

Peguei meu casaco no armário junto com o cachecol. Coloquei a bolsinha com dinheiro e o recibo no bolso da jaqueta e dei tchau para minha mãe. Sai de casa e fui até a estação. Precisava chegar até Cal y Canto e ir em direção à Avenida General Mackenna. Precisei fazer baldeação até desembarcar na estação. Subi as escadas em direção à rua e saí em meio ao frio da manhã, mas não estava frio ao ponto de ter precisado realmente do cachecol – entretanto, havia sido um dos melhores presentes de aniversário daquele ano, que havia ganhado do meu pai, então eu ostentava o cachecol negro e cinza com orgulho.

Segui pelas ruas, enquanto observava os adultos no caminho, alguns apressados, alguns calmos, outros felizes, ansiosos pelo feriado. A padaria San Camilo estampava na vitrine as promoções para o feriado, principalmente o chilenito, um dos melhores doces da época. As bancas de revistas me chamavam a atenção com a edição especial das histórias em quadrinhos do Condorito. Por vezes me senti tentado a pegar o dinheiro e comprar alguma coisa, mas tinha um objetivo claro em mente, e minha mãe me mataria ou me colocaria de castigo eterno se eu fizesse mais alguma besteira. Foi quando suspirei, coloquei a mão no bolso do casaco e percebi que eu já estava morto.

– Essa não! Estava aqui! Onde? Onde? Onde?

Comecei a entrar em desespero ao ver que não estava com a bolsinha de dinheiro e que havia perdido o recibo. Meu medo tomou conta de mim, fazia mais frio dentro das minhas vestimentas do que no ar de Santiago. Decidi entrar numa pequena loja que vendia variedades e fiquei olhando para a geladeira pensando na fria em que estava metido. O olhar afiado da minha mãe cortando a cenoura surgia a cada instante. Fiquei ali plantado enquanto o vendedor conversava com uma velha senhora. Estava muito distraído a princípio para ouvir a conversa deles, até que algo chamou minha atenção.

– Quer dizer que a senhora volta no tempo assim? – perguntou o vendedor.

– Ora, pois, mas é claro, não há melhor maneira de reviver a minha infância, minha juventude, os anos que já se foram.

– Interessante, dona Isabel. Às vezes também gostaria de poder voltar ao passado e consertar alguns erros.

– De alguma maneira ainda é possível, sempre há uma solução – respondeu dona Isabel sorridente.

– Espero que tenha razão. Aqui seu troco.

Ela se despediu do vendedor e saiu da loja.

Fiquei parado por um minuto até ter uma epifania.

– Se ela volta no tempo, pode ser que me ajude. Será que é possível? – falei em voz alta enquanto corria atrás daquela velha senhora.

Quase sem ar, alcancei a senhora no semáforo, mas fiquei sem coragem de falar com ela. Usava uma roupa mais simples, um casaco de lã e tinha os cabelos soltos, usava um óculos que escondia a cor azul dos olhos e segurava com certo cansaço suas compras.

– Com licença. Posso ajudar a senhora? – perguntei gentilmente.

Ela virou lentamente e deu um sorriso bem grande.

– Por favor! Agradeceria muito!

Sorri e então peguei suas sacolas. Esperei o semáforo abrir e acompanhei aquela senhora pela avenida até que paramos na frente de um grande edifício.

General Mackenna, 1242. Exatamente o mesmo lugar em que minha mãe havia mandado eu ir buscar as cortinas, onde morava a costureira de quem ela havia encomendado. Apenas uma dessas coincidências da vida, pensei.

– Pode ir, querido, até aqui agradeço a sua ajuda… – ela gesticulou com a mão como se quisesse saber meu nome.

– Jorge, meu nome é Jorge.

– Você é tão novo, mas parece que já cresceu tanto – disse ela enquanto pegava a primeira sacola da minha mão.

– Tenho só quatorze anos.

– Ora, muito jovem.

– E com os dias contados, provavelmente – cochichei.

– O quê?

– Nada não! – respondi nervoso.

– Ora essa, tem algo lhe incomodando não é? – dona Isabel observou. – Não se preocupe, vai dar tudo certo.

Ela se virou indo em direção à entrada do prédio. Puxei o ar e preparei-me para enfrentar minha vergonha.

– Ouvi dizer que você era capaz de voltar ao passado.

A senhora se virou para mim e me observou de relance. Ela deu um sorriso de satisfação daqueles que os adultos dão quando se deparam com uma criança esperta.

– Digamos que sim.

– Pode me ajudar? – perguntei ingenuamente.

– Você está mesmo com uma cara de preocupado, o que aprontou?

Engoli em seco, achei que minha mãe sempre adivinhava as coisas que eu tinha feito porque me conhecia muito bem, mas essa mulher também percebia nos olhares e no jeito a sensação que eu lhe passava. Era como se fosse capaz de ler uma aura em mim.

– A senhora pode mesmo voltar ao passado?

Ela hesitou por um instante e sorriu de relance.

– Vamos, entre, vamos conversar um pouco.

Subimos cerca de vinte e um andares e fomos até o final do corredor, onde entramos num pequeno mas aconchegante lar.

O ambiente tinha um perfume suave no ar. Cheiro de chá e canela.

– Quer um chá? – ela me perguntou.

– Não gosto de chá.

– Que pena.

– Se tiver um chocolate quente eu aceito…

Ela sorriu diante da minha ousadia.

Ficamos um tempo ali em silêncio. Observei umas fotos na parede. Deduzi que uma moça loira na maioria das fotos fosse ela mais nova. Ela havia sido muito bonita, ainda mantinha alguns traços da juventude, especialmente a cor dos olhos, azuis como safira.

– Não posso lhe ajudar – ela falou de repente.

– Como assim?

– Vou lhe mostrar o que você, seu curioso, ouviu lá na loja do Juan.

Ela se levantou da cadeira e passou por mim. Senti um perfume amadeirado, mas suave, quando ela passou. Ela me chamou com as mãos e indicou o caminho até um cômodo que possuía vários quadros, prateleiras cheias de ornamentos e um armário fechado. A janela ao fundo tinha vista para as cordilheiras, brancas com a neve. Em cima do armário havia uma pequena ampulheta de vidro, um bichinho de pelúcia de um cachorro e uma caixa de relógios que estava aberta. Ela abriu a porta do armário, a luz da janela invadiu o interior aos poucos e uma fragrância mista exalou de dentro daquele móvel. Inúmeros frascos de todas as formas e tamanhos, com conteúdo de diversas cores repousavam nas prateleiras do armário.

– Este é o meu segredo.

Meus olhos brilharam e meu olfato apreciava aquela mistura esquisita. Fiquei perplexo por alguns segundos.

– Então você não viaja no tempo?

– Não do jeito que você esperava que fosse.

– Então, como?

– Vou lhe explicar.

Ela retirou um frasco rosa.

– Este é especial.

Tinha um cheiro adocicado.

– Este é o perfume que eu usava quando eu conheci Carlos, meu marido. Nossa, quanto tempo já faz? – Isabel guardou o perfume e pegou outro frasco. – Este aqui é o que eu usava quando Clara nasceu, todos os seus primeiros anos de vida me vêm à tona quando sinto este cheiro.

Senti aquele aroma também e estava admirado com a quantidade de perfumes que haviam ali. Quantas memórias aquela senhora guardava em frascos!

– Eu coleciono memórias. São elas mais preciosas para mim que muito dos bens que tenho aqui neste apartamento. Gostaria de que não me esquecesse delas.

Ouvi a porta da sala abrindo e uma voz anunciando sua chegada.

– Mamãe, voltei, desculpe a demora, aconteceu uma coisa engraçada hoje. Tudo bem por aqui?

– É a Clara – comentou dona Isabel feliz, então anunciou em voz alta: – Temos visita!

Uma jovem muito bonita apareceu pela porta, seus olhos brilhavam o azul safira também. Ela entrou pelo quarto me analisando, tentando entender o motivo de estar ali. Ela se aproximou de nós dois e abraçou sua mãe. Senti o perfume de Clara, ele me causava uma sensação de satisfação e desejo da qual não era capaz de compreender, mas fiquei abobalhado.

– Olha como Miguelito cresceu – comentou dona Isabel.

Estranhei aquilo pois ela havia se referido a mim.

– Meu nome é…

Clara subitamente se afastou da mãe e me abraçou.

– Olá, Miguelito! – falou em voz alta e então cochichou bem ao meu ouvido: – Por favor, finja que se chama Miguel só por um tempinho.

Fiquei atônito, mas consenti.

– Está enorme mesmo, já está com quantos anos?

– Com quatorze!

– Parece mais novo – Clara comentou maliciosamente.

– É o que todo mundo diz – retruquei irritado.

– Ele me ajudou a trazer as coisas que comprei lá no Juan. Fiquei surpresa ao encontrá-lo na rua. Nessa idade você nem ousaria andar por aí sozinha, na verdade, não sei nem por que anda sozinha…

– Eu já tenho vinte e um anos, mãe.

– Ah, sim, verdade, verdade! – disse dona Isabel se afastando. – Vocês querem chá? Vou esquentar água, Carlos logo deve chegar.

Dona Isabel saiu do quarto e fechou a porta.

Clara me encarou com um olhar tão afiado quanto o de minha mãe.

– Espero que você não seja um ladrão.

– Não, não, não! – repliquei com medo dela.

O semblante dela mudou para um sorriso triste enquanto se virou para olhar o armário com os perfumes.

– É interessante, né? – perguntei.

– O quê?

– Ela se lembrar de tantas coisas com os perfumes. Realmente alguns cheiros me fazem lembrar de algumas memórias.

– É verdade, comigo também é assim – ela sorriu um pouco mais feliz. – Mas não sei até que ponto ela é realmente capaz de se lembrar.

– Por quê?

Clara pegou o bichinho de pelúcia e o abraçou.

– Ela tem Alzheimer – falou Clara.

– Nossa… – fiquei envergonhado de estar incomodando aquela senhora.

– Ainda assim, é impressionante como os cheiros ainda tem influência sobre ela. Às vezes descreve tão bem os dias como se os tivesse acabado de viver.

– Ela não sabe, né?

Clara meneou a cabeça.

– Para ela é difícil lidar com certas coisas. Para ela, meu pai vai chegar a qualquer momento e entrar por aquela porta. Mas, sabe, entre lembranças apagadas, sonhos desfeitos e um cérebro acometido pelo esquecimento, persiste nela um coração leve, pleno, bondoso e amoroso. Neste seu armário, persistem em frascos as lembranças que nem o tempo poderia apagar.

– Mas é bom, não é?

Clara me olhou com curiosidade.

– O quê? – perguntou ela.

– Ainda que ela se esqueça de tudo, existe uma chance de ela sentir um cheiro bom e se sentir confortável, não acha?

– Talvez…

– Ela não esquece o caminho de casa quando sai? – perguntei.

– Os porteiros a conhecem muito bem, quando ela sai eles me avisam e seguem ela se ela for além de duas quadras e esperam ela até voltar. Pedi que eles só observassem sem se intrometer porque ela gosta de fazer as coisas sozinha. Foi sorte ela ter aceito sua ajuda.

– Quem é Miguelito?

– É um primo meu que mora no Brasil.

– Mas a cada dia ela esquece mais, né?

– Você só sabe fazer perguntas? – Clara me cortou.

– Desculpe.

– Tudo bem – ela deixou o bichinho de pelúcia no seu lugar e então pegou um frasco azul de dentro do armário. – É verdade que ela tem esquecido algumas das histórias e misturado outras, mas às vezes a pego segurando este frasco.

Clara contemplou o frasco com um sorriso nostálgico, então minha curiosidade falou mais alto.

– Qual a lembrança desse?

– O casamento dela – respondeu sorrindo e olhando para um quadro onde estavam dona Isabel e, imaginei eu, seu esposo Carlos –, foi o dia mais importante da vida dela. É um dia que não pode ser de qualquer jeito, penso eu.

Eu não sabia mais o que dizer. Aquela história me deixou pensativo, por um momento imaginei os seguintes passos da minha vida e até onde minhas experiências eram mais importantes que aquilo que eu tivesse. Sabia que essa lição de vida não recuperaria as cortinas da minha mãe, mas ao menos me trariam um pouco mais de juízo dali em diante. Sabia também o quanto era importante cuidar da minha mãe também, assim como Clara o fazia com dona Isabel. Desejei profundamente poder fazer algo por elas, mas ainda tinha uma cortina para resolver.

Dona Isabel abriu a porta e de repente deu um abraço bem apertado em Clara.

– Eu te amo, minha filha. Obrigado por sempre cuidar de mim.

Contive as lágrimas, precisaria delas para a surra que levaria da minha mãe.

Despedi-me das duas e peguei o metrô de volta para casa. Passei parte da viagem alternando os pensamentos entre a beleza e gentileza de Clara, que em poucos minutos se tornara minha paixão platônica, a vida e as lembranças de dona Isabel e a surra tremenda e o castigo eterno que minha senhora mãe me sentenciaria.

Já estava quase escurecendo quando cheguei. Minha mãe me viu entrando em casa e já me lançou o olhar afiado.

– Onde você estava até essa hora?

– É uma história engraçada…

– Vá me contando, temos tempo até o Natal, que é o tempo do seu castigo.

– Não vou ficar de castigo pelo resto da vida por não ter trazido as cortinas?

– Mas as cortinas já estão até na sala, não percebeu? – retrucou minha mãe.

– O quê!? – exclamei olhando para a janela atrás de mim e observando as novas cortinas estendidas. – Mas como?

– É o que eu queria saber! Por que uma tal de Clara mandou as cortinas para cá e não você?

– Clara?

– Isso! É o nome que está no bilhete – respondeu ela me mostrando o papel em cima da mesa.

No papel estava escrito:

Olá! Achei seu recibo com o endereço e uma bolsinha de dinheiro no chão da estação quando eu estava chegando em casa, como o endereço era o mesmo de onde eu morava, decidi falar com minha vizinha, sua costureira e expliquei a situação. Justamente hoje seu marido estava indo fazer uma entrega e sabia bem onde você morava e decidiu fazer a gentileza de levar a encomenda em troca de alguns chilenitos, pelos quais decidi financiar já que não poderia sair hoje, pois preciso cuidar de minha mãe. Espero que goste das cortinas, minha vizinha é muito boa, tenha um ótimo dezoito de setembro. Clara”.

– Nossa, que coincidência, eu a conheci hoje.

– Sabe que não me engana, não é? – perguntou minha mãe.

– Mas, mãe…

– Bom que o Natal já está logo aí…

Naquele ano, a neve nas cordilheiras persistiu até o mês de dezembro, assim como o meu castigo. A história dos perfumes e das cortinas é apenas mais uma dessas pequenas e inúmeras coincidências da vida a qual o cheiro de chá e canela sempre me farão recordar.

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